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35 anos depois, Michel Vaillant regressa a Macau

Texto: NUNO GALOPIM

O sétimo volume da “nouvelle saison” que deu nova vida ao universo de Michel Vaillant depois da morte do seu criador toma Macau como um dos cenários para mais um episódio numa trama que aos carros junta o mundo do dinheiro e o da política. O livro permite um reencontro com um território que estas aventuras tinham já visitado em 1983.

Lançada em 2012, a “nouvelle saison” de Michel Vaillant transportou o herói criado em 1957 por Jean Graton para a contemporaneidade, colocando-o não só perante novos contextos como ensaiando um modelo mais próximo do que é a ideia de arco narrativo de uma série televisiva do que o mais habitual na lógica clássica do álbum de BD no qual a cada aventura cabe o contar de uma história com princípio e fim, em comum havendo sobretudo as personagens e a sua mitologia.

A “nouvelle saison” de Michel Vaillant não deixa de tomar cada álbum como um espaço no qual uma trama é lançada e resolvida. Porém há uma narrativa maior que cruza os vários volumes, somando cada novo episódio novos factos e revelações sobre um arco narrativo maior iniciado em 2012 com “Em Nome do Filho” e que agora, sete álbuns depois, atinge a velocidade de cruzeiro.

A velocidade, os carros e as corridas continuam a habitar a medula dos acontecimentos. Mas à Vaillante como marca que obtém resultados em vários campeonatos junta-se agora uma dimensão empresarial que toma inclusivamente uma dimensão fulcral nas coordenadas dos acontecimentos quando um takeover hostil a tira das mãos da família que até aqui a criara e desenvolvera. “Rebelião”, o sexto “episódio”, tinha aprofundado a amplitude do drama da família Vaillant quando, tentando começar de novo, a equipa de Michel vence as 24 Horas de Le Mans mas acaba detido sob acusação de participação (o que na verdade sabíamos que não tinha acontecido) no acidente que ditara a morte do seu irmão.

“Macau”, o sétimo “episódio” começa por explorar o conflito entre a mais jovem geração do clã Vaillant mas lança depois a narrativa rumo ao Grande Prémio de Macau em Fórmula 3, uma corrida para apenas jovens pilotos e que é descrita como uma prova que distingue os verdadeiramente capazes dadas as dificuldades que o exigente Circuito da Guia coloca a quem ali corre.

Não é a primeira vez que Michel Vaillant está em Macau. É verdade… Trata-se de um regresso, 35 anos depois de “Encontro em Macau”, mas sob uma trama bem diferente… Diferentes são também os tempos, correspondendo esta aventura a uma tentativa de aposta no mercado asiático já que este livro tem distribuição em Macau, Hong Kong e China.

O episódio, que sugere um flirt da série aos universos das pistas de automóveis, não escondendo um interesse a médio prazo num regresso à Fórmula 1, recorre a uma estratégia que Jean Graton tantas vezes usou em histórias que cruzavam o mundo da ficção com a realidade. E aqui essa ligação faz-se no apadrinhar de uma jovem esperança da Fórmula 3, o franco-argentino Sacha Fenestraz (de apenas 19 anos), campeão da Fórmula Renault Eurocup em 2017 e 11º classificado no Campeonato Europeu de Fórmula 3 em 2018. Curiosamente foi o 3º classificado no GP de Macau em 2018…

A presença da realidade neste volume da “novelle saison” em que o quarteto autoral se vê reduzido a um trio – com textos de Philippe Graton e Denis Lapière e desenhos de Benjamin Béneteau – não se escota no jovem piloto Sacha Fenestraz. Steve Warson, companheiro de equipa de Michel Vaillant em aventuras de outros tempos, é agora um político e candidata-se, pelo Partido Democrático, a um lugar no Senado pelo Texas, tendo como rival o republicano Ted Cruz. Um Beto O’Rourke, portanto… Mas talvez com melhor aceleração…

No plano da ficção junta-se ainda à velocidade dos carros em pista uma sequência de perseguição nas ruas de Macau que qualquer filme de ação gostaria de chamar às suas imagens…

Se nas imagens a história parece seguir, sem rasgo ou ousadia maior, os trilhos dos álbuns recentes, na narrativa “Macau” dá razão a quem resolveu não repetir os modelos de outrora na hora de dar nova vida a Michel Vaillant depois do desaparecimento do seu criador. Jean Graton ficaria satisfeito…

“Macau”, volume 7 da ‘nova série’ de Michel Vaillant, tem argumento de Philippe Graton e Denis Lapière e desenhos de Benjamin Béneteau. A edição portuguesa, com tradução de Ana Cristina Gonçalves, é um volume de 54 páginas em capa dura com edição da ASA.

PS. No GP de Macau deste ano o piloto Sacha Fenestraz correu com as cores da Vaillante no seu carro!

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