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Jean Michel Jarre regressa a “Equinoxe”, 40 anos depois

Texto: NUNO GALOPIM

Quarenta anos depois de “Equinoxe” o francês Jean Michel Jarre regressa a esse disco para nele encontrar o ponto de partida para uma sequela que explora ecos da sua identidade visual, sonora e temática.

Começou por frequentar o ensino clássico, passou depois por grupos de rock. E, através de um colega de liceu, chegou num grupo de pesquisa musical ligado ao canal de televisão nacional, a ORTF, e que era dirigido por Pierre Schaeffer, o criador da ideia de “música concreta”, nascida em 1948. O professor explicou-lhe então que a música não era apenas feita de notas e de acordes, mas também de sons. E que a diferença entre o ruído e o som musical residia na mão do músico e na sua intenção artística.

Nessa época também pintava, algo que ele descreve como estando muito próximo de uma certa abstração lírica, reconhecendo uma influência em si de figuras como Jackson Pollock ou Pierre Soulages. É então que encontra um espaço de relação possível entre esses universos e as ferramentas e formas da música eletroacústica. O modo como misturava as frequências assemelhava-se, como me chegou a descrever à forma que tinha de misturar as cores. Não para fins realistas, mas, tal como na pintura, com vista à abstração. Uma abstração que era para si, contudo, mais concreta e até mais próxima do realismo do que a figuração.

Ficou então obcecado com uma ideia de tentar ligar aquela música contemporânea, de laboratório, à música pop. E de encontrar, porque já privilegiava a melodia, pontes possíveis entre essas realidades. Isto acontece dez anos antes de Oxygène. Trabalhava com processos de transformação de sons… Fez várias tentativas e editou até discos que hoje descreve como “falhados”, referindo-se ao single de estreia La Cage (1971), ao primeiro álbum Deserted Palace (ambos transformados em raridade disputada entre colecionadores) e à banda sonora de Les Granges Brulées (1973), um filme de Jean Chapot.

A música para cinema e, sobretudo, os trabalhos de produção para vários artistas foram, como descreveu já, trabalhos práticos em vários domínios. Mas uma voz surgia já bem clara. É então que cria Oxigène “perante uma espécie de indiferença total”, como me contou. Gravou o disco em sua casa, numa cozinha modificada, com um estúdio minimalista, o que era o oposto do politicamente correto nesses tempos já que, “a música ‘séria’ fazia-se em estúdios de facto”. E, além dos teclados, usou um velho gravador de oito pistas.

O crânio que surgiu desenhado na capa do disco, sob a “pele” do planeta, vincava a demanda de uma noção de humanidade na música por oposição a uma visão maquinal da música eletrónica que então ganhava forma através do labor de outros pioneiros seus contemporâneos. Vale a pena notar que vivíamos um momento que assistia, em tempo real, à elevação da ficção científuca do plano das culturas de nicho para uma dimensão global. E esta era uma música “que as pessoas associavam muito à ficção científica, ao futuro”, justificou Jarre, um velho amante de ficção científica, sobretudo do 2001: Odisseia no Espaço de Kubrick, dos livros de Arthur Clarke. Mas esta música Jarre não a ligava ao espaço sideral. Esta era, para si, “uma música do espaço vital, do que nos envolve”. Daí o crânio humano. E a carne que o envolve, sob aquela pele que define a superfície do planeta.


É essa presença do humano e do planeta que surge na linha da frente da identidade do sucessor de “Oxygene”. Tal como o disco de 1976 “Equinoxe” é um álbum instrumental no qual Jean Michel Jarre assinala um novo passo na sua demanda… pop. Partia, com “Oxygene”, de uma visão feita com electrónicas do que procurava o contacto com as formas da música popular através da dimensão complexa e de fôlego sinfonista do rock progressivo. Mas desta vez encontrava na simplicidade, no melodismo e nas estratégias de repetição da canção pop um caminho que lhe abriu novas possibilidades sem. As parcelas a que chamou “Equinoxe IV” e “Equinoxe V” (que editou inclusivamente em formato de single) são proto-canções de pop electrónica, devendo este álbum ser colocado juntamente com discos como os contemporâneos “The Man Machine” dos Kraftwerk ou o disco de estreia da Yellow Magic Orchestra – todos eles de 1978 – num mesmo mapa central de referências para uma revolução eletrónica na canção pop que se começaria a generalizar precisamente daí em diante.

Tal como sucedeu com “Oxygène” (que conheceu uma sequela em 1997 e ainda uma terceira parte em 2016), o álbm de 1978 tem agora uma “continuação” em “Equinoxe Infinity”, disco que procura, quarenta anos depois, encontrar os ecos dessa visão pop… A capa, que retoma figuras que imediatamente associamos ao desenho de Michel Granger usado no álbum de 1978, deixa logo uma pista com duas leituras. A de que há uma continuação. E a de que o tempo passou e fez daqueles ícones estátuas que tanto podem ser a de um ser venerado como a de solitários entretanto esquecidos, já que não têm entre si a companhia que fazia destas figuras parte de uma multidão no “Equinoxe” original.

Ao jeito da “continuação” das narrativas nas várias etapas do (agora) tríptico “Oxygène” a música retoma aqui o diálogo entre a demanda de pequenas visões pop e o gosto pela construção de cenografias que habitavam o álbum original. “If The Wind Could Speak” ou “Machines are Learning” acrescentam uma presença vocal que evoca sobretudo o trabalho em “Zoolook” mas, de certa forma, mantém o apelo “retro” da nova tela em construção. Há, tal como sucedia no disco de 1978 com “Equinoxe IV” ou “Equinoxe V”, um episódio em que a luminosidade pop explode com mais exuberância. “Infinity” é um momento que, confesso, me causa alguma perplexidade por representar uma assimilação mais evidente de ecos de uma pop eletrónica (popularucha) que dominou parte da produção europeia em meados de 80 do que uma evocação dos modelos mais centrados nas memórias dos anos70, em contronfo com atualidade, que circulam no resto do disco. Nada contra se a coisa tivesse surgido no quadro das ideias exploradas no díptico “Electronica” ou fosse mesmo a base para uma incursão, deste “padrinho” da pop eletrónica, por uma das músicas (ainda) “malditas” dos oitentas…

O álbum teve um ponto de partida num projeto visual e representa tematicamente uma reflexão sobre o futuro, desde o advento de outra relação com a inteligência artificial a uma preocupação (que estava já no disco de 1978) com o planeta. De resto a existência de duas capas deixa em aberto essa dúvida quanto ao futuro. Uma mostra um mundo verde, saudável. A outra dá conta de uma catástrofe entretanto ocorrida…

Mesmo assim, e tal como nos episódios-sequela de “Oxygène” em nada a nova música se aproxima nunca o caráter visionário dos oruginais. Mas para quem nos ajudou a fazer tamanhas revoluções (a da pop eletrónica, a dos mega-concertos urbanos, a da entrada da pop ocidental na China) podemos dar-nos por satisfeitos no departamento das visões. E se Jarre, aos 70 anos, quer explorar caminhos de evolução ou revisão de obras suas, está no seu direito… E mesmo não sendo este um disco tão cheio de significados como o foram os dois volumes de colaborações com discupluos e herdeitos (em “Electronica”), na verdade mostra um quadro de momentos bem mais saborosos do que os, com menos cativantes, que chegou a ensaiar em criações relativamente recentes como “Téo & héa” ou “Geometry of Love”. Aqui, pelo menos, está em território decididamente demarcado. Decididamente seu.


“Equinoxe Infinity”, de Jean Michel Jarre, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Columbia

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