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Só é ama quem ama

Texto: NUNO CARVALHO

“Roma”, de Alfonso Cuarón, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, reconstrói memórias de infância do realizador, centrando-se na sua ama. Um maravilhoso retrato com uma aura subtil e hibridamente mística. O filme chegou às salas… E também ao pequeno ecrã.

Em “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, há uma reflexão inicial que poderia aplicar-se a “Roma”: “As freiras ensinaram-nos que há dois caminhos na vida… o caminho da natureza e o caminho da graça. Temos de escolher qual queremos seguir. A graça não tenta satisfazer-se a si própria. Aceita ser desprezada, esquecida, odiada. Aceita insultos e injúrias. A natureza só quer agradar a si mesma. Que os outros a satisfaçam também. Gosta de dominá-los. De ter o seu próprio caminho. Encontra razões para ser infeliz… quando toda a gente ao redor resplandece… quando o amor sorri através de todas as coisas. Elas ensinaram-nos que ninguém que ame o caminho da graça tem um mau fim.”

Há múltiplos sinais – desde logo o plano de abertura e o final, que, como pontos etéreos e idílicos, comunicam através do arco narrativo – de que a principal personagem de “Roma”, Cleo, a suave mas estoica ama através da qual Cuarón revisita as memórias da sua infância, escolheu, nem que subconscientemente, esse caminho da graça que pode ter as suas tribulações dolorosas mas que promete um fim abençoado. Ou, pelo menos, invoca uma sensação de pacificação espiritual como uma convalescença depois da doença ou como a bonança de um mar calmo depois de uma agitação que provoca sobressalto, dúvida, angústia. Um dom qualquer que a torna espiritualmente mais forte e corajosa parece esperar Cleo no epílogo, como uma libertação de um jugo não tão suave assim mas que contém a aura do alívio de uma carga de angústia, medo, nervosismo.

No centro deste retrato autobiográfico de uma família de classe média que vive num bairro da Cidade do México no início da década de 1970 estão duas mulheres, Cleo (Yalitza Aparicio), a empregada doméstica interna de origem mixteca, e Sofía (Marina de Tavira), a patroa que, com a ajuda da primeira, se vê a braços com a educação dos quatro filhos depois de ser abandonada pelo marido. “Digam-te o que te disserem, nós, mulheres, estamos sempre sós”, diz Sofía a Cleo numa noite em que chega a casa transtornada de desespero. E, se o título funciona como um palíndromo (lido ao contrário, é “amor”) que remete para a ideia de que só o amor, o afeto e a união que deles resulta podem dar a força necessária para enfrentar as adversidades, o filme também fala da solidão de duas mulheres cujos destinos bem diferentes e separados por barreiras de classe encontram afinal um paralelo na forma como são deixadas por figuras masculinas aqui retratadas como personagens com alguns problemas de maturidade.

Através de um registo quase neorrealista, num preto-e-branco que joga bem com a qualidade espiritual do filme, entre o semitrágico, o cómico, o lírico e o absurdista, Alfonso Cuarón constrói um retrato nostálgico que presta homenagem às mulheres que cuidaram de si na infância e que se revela muito detalhista, sensível e com uma subtil e metafórica dimensão mística muito enraizada na realidade imanente. Houve críticos que compararam “Roma” a “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert (que em inglês tinha o título sugestivo de “The Second Mother”), mas, no que toca a comparações (ainda que vagas), a verdade é que o filme de Cuarón está relativamente mais próximo do muito pouco visto mas também muito belo “Ilo, Ilo” (2013), do singapurense Anthony Chen.

“Roma”, de Alfonso Cuarón, com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira e Fernando Grediaga, está disponível na Netflix desde o dia 14 deste mês e em exibição em sete salas nacionais.

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