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A nova Lisboa não é só um lugar. É uma soma.

Texto: NUNO GALOPIM

O que define o novo som de Lisboa? Não esquece os ecos da memória nem da geografia, mas foca sobretudo aqueles que aqui hoje estão, as suas experiências e vivências. E há um disco novo que traduz bem esta ideia. Está carregado de pistas que passam também por outros lugares mas sugere, afinal, o que somos aqui e agora.

Às vezes surgem discos que traduzem, como poucos, o que somos culturalmente. No tempo preciso, com as referências devidamente arrumadas, estabelecendo pontes entre o onde e o quando que no fundo ajudam o quem a definir-se. E há muito que urgia o emergir de um álbum que conseguisse traduzir a identidade da Lisboa do nosso tempo. Que não é só o lugar geográfico e a soma de uma vasta história de heranças, mas sobretudo uma soma de vivências que traduzem aquilo que aqui acontece e que espelham também as relações com outros lugares dos lisboetas de hoje. Somos quem aqui vive e cada um junta a esta história não apenas as memórias de ascendência mas as experiências dos locais entretanto visitados, das assimilações feitas, daqueles com quem nos cruzamos. A identidade não brota apenas como uma coisa apenas do foro da genealogia. É uma soma viva de acontecimentos.

Lisboa é hoje, e mais do que nunca, uma cidade aberta ao mundo. Um caldo de gentes com histórias diferentes. E cada um junta depois a esta multidão os ecos da sua própria experiência. Num momento em que a música já ultrapassou os conceitos de barreiras, em que a comunicação flui e os guetos de outrora acabam por contaminar os lugares ao seu redor (e no fundo deixar de o ser) torna-se cada vez mais difícil traçar perfis taxonimicamente precisos do que é o som deste ou daquele lugar. Todos somos contaminação. É assim a vida na era da comunicação global. Nada disto implica o desaparecimento dos nichos. Nem daqueles que optem por se fixar em espaços de desenho mais definido na geografia de espaço e tempo dos sons. Mas abre possibilidades. Muitas possibilidades. E entre a diversidade podem emergir expressões de identidade que, mesmo assim, sugerem que estamos aqui e não em outro lugar.

Há três anos, e vitaminado pelo fulgor de descobertas feitas a bordo dos Buraka Som Sistema, Branko mostrou-nos em “Atlas” (um dos melhores discos nascidos entre nós depois da viragem do século) sinais de uma demanda. Era o músico que partia daqui à escuta do mundo. E desse mundo trouxe sons e colaborações para uma música que, com berço aqui, assimilou o que era dali. E em “Atlas”, um dos discos-paradigma da “global club music”, emergiu um retrato verdadeiro, entusiasmante e com sede de descoberta que abriu caminhos para cenas de capítulos seguintes (que, no caso de Branko, passaram, por exemplo, pela criação de uma experiência audiovisual na forma de uma série de televisão). Para quem não tenha reparado, vale a pena notar que “Atlas” conheceu este ano – e finalmente! – uma edição em suporte de vinil!

À Lisboa de hoje chegam visitantes. Uns passam férias. Outros fazem residências. Outros acabam mesmo por aqui ficar. Tornam-se Lisboetas. Como sucedeu, por exemplo, com Panda Bear, que já levou o Benfica e o Príncipe Real aos seus discos. Ou Madonna, de quem guardamos curiosidade maior sobre como refletirá esta etapa da sua vida no novo disco que se aguarda para 2019… Entre os visitantes que por aqui passaram nos últimos tempos conta-se um italiano. Produtor e DJ, Andreia Mangia (que se apresenta artisticamente sob o nome Populous) passou por Lisboa. E aqui somou experiências a uma música que, pelo seu prisma, acrescentou referências, cores, sons, a uma proposta claramente inserida no quadro da “global club music”. E assim nasceu “Azulejo”, um álbum que sugere a luz de Lisboa (o que acontecia, curiosamente, com o belo “Person Pitch”, o primeiro álbum de Panda Bear criado depois de se ter mudado para a cidade) e está carregado de referências (umas explícitas no som, outras nos títulos) à sua residência na cidade. Temas como “Alfama”, “Voz Serena”, “Caparica” ou “Azulejos” são ecos de vivências que têm cartão de visita maior em “Cru”, canção com a voz de Nina Miranda (lembram-se dos Smoke City?) que é das coisas mais belas que a canção “global” eletrónica (acabei de cunhar este nome, porque sim) já conheceu.

Todo este caminho nos serve para chegar a um álbum que agora continua o trabalho de busca de pistas que “Atlas” sugeria, embora seguindo um caminho próprio e diferente. Dino d’Santiago não é de todo um novato. Pelo contrário tem já um percurso (a solo e em colaborações) que o expôs já antes a uma vasta plateia de possibilidades. Porém, e talvez como recentemente o fez Selma Uamusse (que rumou a Moçambique), decidiu ir às origens da sua identidade para depois ali encontrar um caminho para, hoje, saber afinal quem é e que som é o seu. Natural da Quarteira, onde nasceu há 35 anos, deu por si um dia com a vontade de rumar ao lugar de onde brotavam os sons que ouvia em casa em criança. Ir a Cabo Verde acabou por ser coisa de descobertas e revelações mais profundas. Feitas com tempo, com assimilações. Experiências que, depois de correr mundo e ter encontrado nova casa em Lisboa, trouxe consigo num processo que, com a participação (fulcral) de Kalaf Epalanga, o levaram primeiro a trabalhar os sons de facto, gravados nas ilhas, depurando-os depois em estúdio num processo que contou com a participação do produtor Paul Seiji e, em “Nova Lisboa”, convocou a presença de Branko, um entre os mais colaboradores que encontramos em “Mundu Nôbo”.

“Mundu Nôbo” é um impressionante espaço de revelações já que, de pistas com ecos de memória acabam sempre por emergir sensações do presente, moldadas por um processo que optou por subtrair até achar a essências das coisas e, depois, para elas olhar sob um ponto de vista sem barreiras, sem fronteiras. Um ponto de vista de hoje. Resta acrescentar que ao magnífico lote de composições, aos sabores e experiências aqui convocados, à voz segura e emotiva de Dino d’Santiago e ao labor eletrónico de primeira água se junta um trabalho de produção que, pelas qualidades do som, permite arrumar todas estas ideias com clareza, pujança e solidez. De resto, e tal como o recente disco de Rosalía mostrou, esta característica – a qualidade da produção – é um fator essencial a dominar a bem das possibilidades de escuta mais além de acontecimentos nascidos num mundo periférico aos epicentros da agitação discográfica. Lisboa está na periferia, não é uma capital mundial do disco. Mas “Mundu Nôbo” pode levar uma das suas grandes vozes atuais mais além.

“Mundu Nôbo”, de Dino d’Santiago, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Batuko Records / Sony Music ★★★★★

Neste texto referimos ainda “Atlas” de Branko, disco originalmente lançado em 2015 e que este ano conheceu reedição em vinil pela Enchufada, e ainda “Azulejos” de Populous, álbum de 2017 com edição em vinil, CD e nas plataformas digitais, pela Wonderwheel Records.



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