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36. Van Dyke Parks (1967)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1967 e assinalou a estreia em nome próprio de Van Dyle Parks, sendo hoje uma referência para um modelo de pop fragmentada e de fulgor barroco que conheceu várias descendências e se transformou num caso de culto.

Em 1966, quando encontra em “Pet Sounds”, dos Beach Boys, aquele que diz então ser o único disco verdadeiramente inspirador entre os que então faziam o panorama das novidades da música popular norte-americana, Van Dyke Parks era já uma figura com um currículo, no mínimo… invulgar. Estudara piano, clarinete e canto desde pequeno e completara uma formação em música em 1963 (então com 21 anos) já com um historial que passava pela televisão e o cinema, onde desde pequeno desempenhara vários papéis como ator. Rumou então à Califórnia, conheceu músicos, tocou em sessões de estúdio de diversos artistas e com várias bandas (entre as quais uma formação muito embrionária dos Mothers Of Invention) e de uma delas chegou mesmo a ser afastada pelo seu visual muito… betinho. Falou com Brian Wilson em algumas ocasiões antes deste o ter convidado a reescrever a letra de “Good Vibrations”, convite que declina apesar de comparecer em estúdio em algumas sessões de gravação e ter lançado sugestões a que o génio por detrás das melhores canções dos Beach Boys deu ouvidos… Chamou-o então para com ele trabalhar no sonhado “Smile”, disco que se transforma num caso complicado (e então não terminado). Van Dyke Parks abandona o projeto antes mesmo de Brian Wilson o deixar igualmente de lado… E é então que Van Dyke Parks toma uma decisão: porque não fazer a sua própria música. E assim aconteceu…

É esta a pré-história de “Song Cycle” o álbum de estreia de Van Dyke Parks, disco com gastos de estúdio colossais para os hábitos de então, verdadeiro tropeção no departamento das vendas (apesar do entusiasmado apoio da crítica) mas, depois, transformado em (merecido) fenómeno de culto. Face ao panorama de uma “invasão” britânica que dominava atenções desde 1964, Van Dyke Parks imaginou o disco como um espaço de expressão de uma identidade americana. Não fechou contudo as fontes a um único universo de referências, surgindo entre as canções deste “ciclo” ecos da country, da música bluegrass, dos primórdios do jazz, do universo do teatro musical, num caldeirão que tomava as possibilidades tímbricas dos instrumentos de uma grande orquestra como complemento face ao leque mais habitual em terreno elétrico pop/rock.

A possibilidade de trabalhar com novas tecnologias – leia-se o acesso a um novo estúdio com uma mesa de oito pistas – abriu possibilidades que foram bem aproveitadas não apenas pelas visões invulgares de Van Dyke Parkas mas também pelo espírito desafiante do então também jovem produtor Larry Waronker, que por essa altura tinha assinado trabalhos com os Mojo Men (onde Van Dyke Parks tocara) ou Harper’s Bizarre e faria depois história pelas suas colaborações com Randy Newman ou Ry Cooder e, valentes anos depois, os Eels, Eliott Smith e Rufus Wainwright. Ao caráter fragmentário da composição (que teria descendências em inúmeros casos, um deles o mítico “California” dos Mr. Bungle) o trabalho em estúdio juntou técnicas experimentais que amplificaram mais ainda a paleta de acontecimentos, sublinhando o caráter quase cinematográfico de um alinhamento que escapa ao padrão normativo do álbum pop/rock e se aproxima mais de uma lógica de teatro de sons.

Van Dyke Parks apresentou o disco à editora em 1967… E conta-se que, ao escutar o alinhamento, o presidente da companhia lhe terá perguntado onde estavam as canções, já que se tratava de um “Song Cycle”… O disco ficou em fila de espera longos meses e uma ordem de edição só chegou quando, depois de o ter escutado, Jac Holzman, fundador da Elektra e da Nonesuch, disse ao presidente da Warner que, caso não lançassem o disco ele mesmo lhes compraria as fitas e o faria chegar às lojas… O disco afinal aconteceu como inicialmente previsto. Foi um ‘flop’ nas vendas. Mas semeou entusiasmos entre melómanos e descendências entre músicos. E não se fala hoje de pop barroca sem referir o “Song Cycle” de Van Dyke Parks…

“Song Cycle”, de Van Dyke Parks, teve edição original em finais de 1967 pela Warner Brothers na versão estéreo, surgindo pouco depois, já em 1968, uma versão em mono. As edições em CD começaram a surgir em finais dos anos 80, uma delas, pela Ryko (em 1990) tendo acrescentado ao alinhamento “The Eagle And Me”, canção originalmente editada no formato de single. Reedições em vinil têm aparecido nos últimos anos, uma delas, em 2013, por ocasião do Record Store Day.

Da discografia de Van Dyke Parks vale a pena descobrir discos como:
“Discover America” (1972)
“Clang of The Yankee Reaper” (1975)
“Orange Crate Art” (1995), com Brian Wilson

Se gostou, experimente ouvir:
Brian Wilson
Scott Walker
Lee Hazlewood

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