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Os melhores filmes de 2018 (nº 1)

Entre os filmes que estrearam em sala e os que passaram pelos festivais de cinema aqui ficam dez exemplos que nos chamaram a atenção em 2018. Aqui os vamos revelar um a um, em contagem crescente.

1. “Chama-me Pelo Teu Nome”, de Luca Guadagnino

Baseado no romance homónimo de André Aciman (que entretanto a Clube do Autor publicou entre nós em 2018), “Chama-me Pelo Teu Nome” é uma história de autodescoberta e de um primeiro amor tendo por cenário uma região rural de Itália na primeira metade dos anos 80 e como protagonistas o filho de um académico e um assistente do seu pai que os visita. As cores e a luz de verão são magnificamente exploradas pela realização (um pouco como sucedera em “Os Juncos Sivestres” de Téchiné), servindo candura aos passos de descoberta entre as personagens num jogo bem construído que acrescenta densidade ao evoluir dos acontecimentos. A banda sonora ajuda a definir o tempo e o lugar da ação e acrescenta sensações ao saborear da narrativa, contando, entre outros, com nomes Sufjan Stevens, Ryuichi Sakamoto, John Adams e memórias pop dos oitentas. Estreado no circuito dos festivais ainda em 2017, o filme cimentou o perfil internacional do realizador Luca Guadagnino, juntando assim a “Eu Sou o Amor” um segundo título de absoluta referência na sua filmografia. Uma sequela começa a ganhar forma. Mas se calhar não havia necessidade… – Nuno Galopim

2. “Roma”, de Alfonso Cuarón

“Roma”, de Alfonso Cuarón, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, reconstrói memórias de infância do realizador, centrando-se na sua ama. No centro deste retrato autobiográfico de uma família de classe média que vive num bairro da Cidade do México no início da década de 1970 estão duas mulheres, Cleo (Yalitza Aparicio), a empregada doméstica interna de origem mixteca, e Sofía (Marina de Tavira), a patroa que, com a ajuda da primeira, se vê a braços com a educação dos quatro filhos depois de ser abandonada pelo marido. Através de um registo quase neorrealista, num preto-e-branco que joga bem com a qualidade espiritual do filme, entre o semitrágico, o cómico, o lírico e o absurdista, Alfonso Cuarón constrói um retrato nostálgico que presta homenagem às mulheres que cuidaram de si na infância e que se revela muito detalhista, sensível e com uma subtil e metafórica dimensão mística muito enraizada na realidade imanente. – Nuno Carvalho

3. “Shoplifters”, de Hirokazu Koreeda

Continuando a explorar uma questão que abordou já em “Tal Pai tal Filho”, o japonês Hirokazu Koreeda apresentou-nos em “Shoplifters” um pequeno agregado que vive na pobreza durante um tempo de recessão. Roubam para sobreviver. Mas todos eles escondem segredos. Uns partilhados. Outros nem por isso… A descoberta das verdades revela o que de bizarro havia afinal escondido em toda a construção do pequeno agregado que serve de epicentro à narrativa. E lança questões. E uma delas procura ver até que ponto resistem os afetos à verdade e à identidade “sanguínea” da noção normativa de família. Torna-se evidente que, depois do pungente “Tal Pai Tal Filho” – a história de dois meninos trocados à nascença que só seis anos depois é notada, com a consequente “devolução” aos pais naturais, rompendo assim as famílias de afeto entretanto criadas – Koreeda continua interessado em explorar a natureza desta força agregadora que é a família. Terá obtido aqui respostas definitivas? – N.G.

4. “Girl”, de Lukas Dhont

“Girl”, primeira longa-metragem do belga Lukas Dhont, conversa sobre a plasticidade dos corpos. Mas também sobre a sua tenacidade: Lara, 15 anos, tem o luminoso sonho de se tornar bailarina. Na primeira aula – depois de ter chegado recentemente a uma nova cidade e ter sido aceite num dos mais importantes conservatórios de dança do país – pedem-lhe para fechar os olhos. O professor não lhe aponta um revolver, mas é como se ardesse na mesma intensidade. “Há alguma menina na sala que tenha problemas em tomar banho com Lara?”. Antes de ter adotado nome e formas femininas, Lara nasceu no corpo de um menino. Temos, aqui, uma visão rara e completa sobre a transsexualidade: o modo como contemplamos este jovem corpo em transição (aos quais as constantes aulas de ballet acrescentam feridas) e toda uma identidade, uma existência que ousam em permanecer vivas num quadro social complexo (ainda que Lara tenha o pleno apoio do pai), é vertiginoso e lúcido. – Gonçalo Cota

5. “O Meu Amigo Pete”, de Andrew Haigh

O realizador de “Weekend” e “45 Years” regressa com “O Meu Amigo Pete”, uma história de amizade entre um rapaz e um cavalo de corridas que consegue ser emotiva sem ser sentimentalista e que não se dirige a um público infantojuvenil. A história começa quando Charley (Charlie Plummer) conhece Del (Steve Buscemi), proprietário de um punhado de cavalos de corridas que lhe permite que trate de “Lean on Pete”, que nunca foi muito competitivo e que já não atrai o interesse de quase ninguém. O olhar de Haigh tem a dose ideal de desapego (é enxuto), mas, ao mesmo tempo, sabe ser comovente ao apostar na criação de emoções muito verdadeiras no espectador, nunca puxando à lágrima através de manipulações emocionais fáceis. Contudo, essa contenção (como uma mola bem apertada que de repente salta) só torna os momentos emotivos do filme ainda mais pungentes, havendo mesmo uma cena capaz de levar às lágrimas o coração mais petrificado deste mundo. De resto, o olhar equânime do realizador inglês está mais perto do de uma Kelly Reichardt (e do seu “Wendy and Lucy”) ou mesmo do da sua compatriota Clio Barnard (em “O Gigante Egoísta”). – Nuno Carvalho

6. “Loveless – Sem Amor”, de Andrey Zvyagintsev

A profunda crise de valores que atravessa a história recente da Rússia, expressão dos caminhos da sua história política e económica após o colapso da URSS, tem representado terreno de reflexão para o cinema de um dos maiores cineastas do presente: Andrey Zvyagintsev. Revelado, ainda sob ecos de uma admiração maior pelo legado de Tarkovsky no belíssimo “O Regresso” (2003) começou a encontrar nesse mapa social os cenários para a criação de tramas e personagens que nos foi mostrando em filmes como “Elena” (2011) ou “Leviatan” (2014). Este ano “Loveless” juntou mais um título arrebatador a uma obra cada vez mais sólida. A história de um casal à beira de uma separação, cujo pequeno filho um dia escuta uma discussão e ouve que não era desejado, é o gatilho para uma história de egoísmos (dos afetivos aos profissionais) que traduz uma contaminação do indivíduo por um clima frio que não apenas aquele de que fala a meteorologia. Fotografia, solidez de argumento, primor na realização, contrastam com a “poorxploitation” que tem surgido em algumas opções de realismo social dos últimos anos. – N.G.

7. “Anihilation”, de Alex Garland

Assinado por Alex Garland (o mesmo de “Ex Machina”), e interpretado por um elenco no qual se destacam cinco atrizes nas figuras principais (com Natalie Portman em maior evidência), “Anihilation” é uma proposta de alternativa aos modelos mais clássicos do filme de invasão por alienígenas. De resto, e tomando algumas sugestões (do mood à escassez de informação) do magnífico “Under the Skin” de Jonathan Glazer, o filme coloca-nos perante um cenário feito de dúvidas, medos e silêncios que se seguem ao que parece ser o impacte de um objeto vindo do espaço com um farol. Nasce aí uma zona que vai crescendo, como um tumor, mas da qual não parece sair nenhuma informação sobre o que por lá dentro ocorre. E quem entra, ao que parece, de lá não sai… Uma “zona”… A ideia lembra-nos logo o “Stalker” de Tarkovsky… O filme, ao ser distribuído por streaming, foi um dos casos do ano a levantar a viabilidade de novos modelos de distribuição. – N.G.

8. “O Interminável”, de Justin Benson e Aaron Moorhead

Depois de “Resolução Macabra” (2012) e “Spring” (2014), a dupla Justin Benson e Aaron Moorhead apresenta em “O Interminável” uma das melhores surpresas do ano na área da ficção científica. Uma história de aparências que escondem outras verdades que gradualmente se revelam e que mostra como o género pode viver sem uma artilharia cara de efeitos visuais. Como aqui se prova, uma boa ideia por vezes pode faz mais do que um orçamento milionário. E “O Interminável” é mais um exemplo de como pode estar na força da trama narrativa a energia que nos agarra às imagens, replicando frente a um ecrã aquela velha sensação de não querer largar um livro enquanto não sabemos o que vai acontecer a seguir… E é precisamente na força da narrativa escrita, nesse efeito virador de páginas (o “page turner”, mas em português) que se explica o poder de encantamento do filme que acompanha dois irmãos (interpretados pelos próprios realizadores) que encontramos dez anos depois de terem abandonado uma seita que vivia numa comunidade isolado no meio de nenhures e na qual o tempo não parece ter passado… – N.G.

9. “The Florida Project”, de Sean Baker

Depois da experiência verdadeiramente independente que era “Tangerine” (2015), uma história de uma prostituta transexual em Los Angeles filmada integralmente com iPhones, Sean Baker regressa ironicamente à escala maior da película para se centrar no pequeno mundo de Moonee (Brooklyn Prince), uma rapariga de 6 anos que vive com a mãe num motel barato à beira da estrada, nas imediações da Disney World. Baker põe a câmara ao nível do olhar das crianças, denotando uma visão que nada tem de condescendente mas que antes procura engrandecê-las e realçar as cores da sua força de viver. As tintas garridas escondem realidades duras inspiradas em vivências reais em motéis low-cost que circundam o resort de entretenimento mais visitado do mundo e onde vivem famílias pobres desde a crise financeira de 2008. – N.C.

10. “A Morte de Estaline”, de Armando Iannucci

Sátira política, com um elenco notável – envolvendo figuras como Steve Buscemi, Michael Palin, Jason Isacs ou Jeffrey Tambor – “A Morte de Estaline” representou a terceira experiência na realização para cinema de um nome já com vasta experiência em televisão. Criador da série “Veep” (outro bom exemplo de sátira política, Armando Iannucci recriou o ambiente de tensão e medo que se seguiu à morte do ditador Josef Estaline em março de 1953. Apesar de terem sido apontadas algumas incorreções históricas ao argumento e de ter assimilado ecos de outros acontecimentos ou mitologias – como o caso da sequência envolvendo a orquestra e a sua súbita gravação noturna – o filme explora a intriga palaciana que certamente se abateu sobre o poder soviético até ao agarrar das rédeas por Nikita Khrushchev alguns meses depois. Um filme oportuno num tempo político (real) que assiste ao despertar do papel dos autocratas. – N.G.

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