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Dez canções da colheita de 1969

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Uma lista de dez canções nascidas em 1969. Como sempre aqui vão surgir aos poucos, uma a uma…

Foi o ano do festival de Woodstock. Da chegada do homem à Lua. Dos motins de Stonewall. Das estreias em disco dos Led Zeppelin ou Nick Drake. Do nascimento dos Kraftwerk. Da “Desfolhada” de Simone de Oliveira. Dos Bed-In de John Lennon e Yoko Ono. Do nascimento de PJ Harvey e Wes Anderson. Da morte de Judy Garland e de Brian Jones (um dos fundadores dos Rolling Stones). Da última atuação ao vivo dos Beatles. Da estreia televisiva dos Monty Python e da “Rua Sésamo”. Do assassinato de Sharon Tate (e também do julgamento de Charles Manson). Da chegada de Nixon à Casa Branca e o início de nova etapa na Guerra do Vietname. Do Nobel para Samuel Beckett. De “Easy Rider” e “O Cowboy da Meia Noite”. Do lançamento da revista “Interview” por Andy Warhol e Gerard Malanga… E podíamos ficar nisto umas valentes horas…

Não faltarão ao longo de 2019 oportunidades para aqui recordarmos alguns dos muitos feitos (sobretudo na música, no cinema e outros terrenos por onde mais frequentemente a Máquina de Escrever caminha). E começamos com uma lista… Sim, mais uma lista…

Dez canções nascidas em 1969. Nem as mais populares. Nem as mais marcantes (cada um terá aí a sua opinião sobre o que é ser marcante). Mas dez, como sempre, com escolha assinada. Aqui estão elas, uma a uma…

“Je T’Aime Moi Non Plus”, Jane Birkin com Serge Gainsbourg

A canção tinha surgido em 1967 e estava então destinada à voz de Brigitte Bardot. As notícias da sessão de gravação, que envolveu uma sequência, digamos, ofegante, geraram alguma controvérsia e por alguns tempos fez-se silêncio. Depois de ter conhecido Jane Birkin em 1968, Serge Gainsbourg decidiu voltar a tirar esta composição sua da gaveta e, em dueto, o casal registou a sua versão de referência. “Je T’Aime Moi Non Plus” foi editada em vários países, não só na versão original em francês mas também numa outra, em inglês, então gravada. Rapidamente foi transformada num clássico do seu tempo, traduzindo, apesar das reações que gerou entre os mais conservadores, sinais de uma revolução de costumes que então ganhava forma na sociedade ocidental.

“Desfolhada”, de Simone de Oliveira

Há canções que ficam na história. E esta juntou um quadro de motivos que a transformou num ícone do seu tempo. Tudo começa na canção, claro. Uma música de Nuno Nazareth Fernandes e uma letra de José Carlos Ary dos Santos. E, depois, uma voz poderosa, firme, capaz de fazer da canção um furacão de sentidos. E aí entrou em cena Simone de Oliveira que, com carreira na rádio, na televisão e nos discos desde os anos 50, conheceu ali um episódio marcante pelo modo como uma canção vibrante, com uma letra que inscreveu na história da cultura popular portuguesa a expressão “quem faz um filho fá-lo por gosto”, se afirmou, nas barbas do regime, como uma clara voz de protesto, sobretudo contra uma ética moral então instituída. A canção foi a representante portuguesa num Festival da Eurovisão (em Madrid) que terminou com quatro vitórias ex-aequo e uma necessidade de questionar o sistema de votação. A “Desfolhada” colheu poucos pontos mas os portugueses correram a Santa Apolónia para receber Simone em glória. E nascia um clássico.

“Sugar Sugar”, The Archies

Muitos anos antes de Damon Albarn e Jamie Hewlett terem criado os Gorillaz ou mesmo de James Lavelle ter usado as imagens que deram primeira expressão ao projeto Unkle, uma banda fazia história apresentando-se não pelos músicos que a compunham mas por desenhos que os representavam. Eram uma banda virtual, um projeto criado para servir uma série de desenhos animados e que, depois de um álbum de estreia em 1968 que não fora muito além do universo dos seguidores da série, apresentou em 1969 um single que acabou transformado num dos maiores êxitos do ano. Os Archies mantiveram a banda ativa para lá da vida da série (que foi cancelada em 1969) mas na verdade só voltaram a ter algum êxito global com “Jingle Jangle”, o single que se sucedeu a este colosso de popularidade global.

“Good Times Bad Times”, Led Zeppelin

Ainda sem terem assegurado um qualquer contrato editorial, um quarteto recém-nascido das cinzas dos Yardbirds entrou em estúdio em finais de setembro de 1968, acabado de regressar de uma digressão escandinava na qual as bases para uma nova aventura tinham começado a ganhar forma. E em apenas 36 horas de estúdio – espalhadas nas semanas seguintes – tinham um primeiro álbum gravado. Como se chamavam? Led Zeppelin. Editaram o seu álbum de estreia a 12 de janeiro de 1969. Mas algumas semanas depois escolhiam para ter vida também no formato de single o tema de abertura do alinhamento, em cuja alma corriam ecos de cativante melodismo quase pop, embora sob novas regras de intensidade elétrica. E este tornou-se assim em mais um clássico de 1969.

“Touch Me”, Doors

Ao desafio de procurar novos caminhos para a sua música, afastando-se assim dos trilhos seguidos nos três primeiros álbuns editados entre 1967 e 1968, levou os Doors a experimentar uma visão mais elaborada sobretudo em arranjos que incorporaram outro tipo de instrumentos e assim lhes permitiram experimentar outras possibilidades para a sua música e poesia. Editado em julho de 1969 o álbum “The Soft Parade”, o quarto de estúdio dos The Doors, representa um saboroso momento de viragem que urge (re)descobrir. Não tem o viço original dos seus primeiros tempos nem o fulgor de um rock mais primordial para onde rumariam pouco depois mas revela uma etapa de demanda diferente que, de resto, corresponde a um tempo de relativo afastamento de Jim Morrisson (então mais focado na escrita) e um mais claro protagonismo musical de Robert Krieger, que assina metade da composição.

“I Want You Back”, Jackson 5

Foi em outubro de 1969 que, pela primeira vez, chegou a uma loja de discos uma edição da “família” Jackson no catálogo da muito influente Motown. Quase dois anos depois do single de estreia “Big Boy” (lançado em janeiro de 1968 pela Steeltown Records), “I Want You Back” levou imediatamente a outro patamar banda que então juntava os irmãos Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael Jackson. A canção teve estreia televisiva uma semana após o lançamento no programa de Diana Ross, que era então uma das vozes de proa da Motown. Originalmente destinada a Gladys Knight e, depois, à própria Diana Ross, a canção afinal gravada pelos irmãos Jackson revelou-se um êxito de dimensões globais, alcançando vendas na ordem dos seis milhões de singles, conquistando o número um nos EUA e o número dois no Reino Unido.

“Time Has Told Me”, Nick Drake

Quase ignorado em vida (deixou-nos em 1974 com apenas 26 anos) Nick Drake lançou o seu primeiro disco a 1 de setembro de 1969. Com o título “Five Leaves Left” revelava sinais de genética entre as movimentações folk que então se faziam escutar no Reino Unido (e não só), mas juntava uma escrita poeticamente cuidada, um dedilhar da guitarra com fortes marcas de personalidade e canções de enorme fragilidade a que a brilhante voz e os arranjos de Robert Kirby deram forma de enorme solidez, num conjunto que a visão do produtor Joe Boyd tão bem soube registar. Hoje este é um clássico e um cartão de visita obrigatório na (re)descoberta de um dos maiores cantautores do século XX. E esta é a canção que abre o disco.

“It’s Raining Today”, Scott Walker

Deixando definitivamente para trás as memórias dos seus tempos de “teen idol” e de uma primeira etapa vivida a bordo dos Walker Brothers em meados da década de 60 (onde, mesmo assim, encontrou primeiras pistas rumo a um novo som e até mesmo um novo nome, já que nascera como Scott Engel), Scott Walker editou entre 1967 e 1969 quatro álbuns que definem uma etapa que não apenas lhe deu outro estatuto como transformou em referência. A voz de barítono, arranjos orquestrais elaborados e uma evidente admiração por Jacques Brel ganharam ali corpo em discos que hoje reconhecemos como clássicos. “It’s Raining Today” é o tema de abertura do alinhamento de “Scott 3”, editado em março de 1969.

“Space Oddity”, David Bowie

“2001: Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, exerceu um fascínio maior sobre David Bowie e foi a primeira fonte de inspiração para uma canção ganhou forma definitiva em sessões de estúdio registadas a 20 de junho de 1969. O single surgiu nas lojas cerca de três semanas depois. Apesar de inicialmente ignorado pela BBC, “Space Oddity” foi escolhido para servir de banda sonora aos programas de cobertura da missão Apollo XI que, em julho de 1969, levaria pela primeira vez o homem à Lua. Essa foi de resto a primeira janela de grande exposição de uma canção que teria outras vidas (o teledisco, por exemplo, só surgiu em 1972). Uma reedição do single em 1975 daria então finalmente a David Bowie o seu primeiro número um no Reino Unido.

“Something”, The Beatles

Lançado em finais de setembro de 1969 o álbum “Abbey Road” não seria o último LP de inéditos lançado pelos Beatles. Mas a verdade é que, tendo as canções que surgiriam em “Let It Be” sido gravadas antes, a “Abbey Road” coube o papel de representar o derradeiro álbum criado pelos Beatles. E poucos dias depois do LP ter chegado às lojas um single destacava dois temas do seu alinhamento, transformando-os em clássicos. Um deles era “Come Together”. O outro, sublinhando a progressivamente mais sólida voz criativa de George Harrisson, este “Something”.

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