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37. Juan Manuel Serrat (1968)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi gravado em 1967 mas apenas editado em 68. Representou um momento importante de afirmação de uma nova canção popular em língua catalã tendo por base uma série de trovas de velhos cancioneiros que aqui conheciam nova abordagem musical.

Tal como no Portugal do Estado Novo, a música desempenhou uma importante frente de afirmação de oposição ao regime na Espanha franquista. Como reação a uma política linguística que tomara o castelhano como língua oficial a “nova cançó” foi um movimento que começou a eclodir na Catalunha ainda nos anos 50 lançando bases para uma série de obras que conquistariam notoriedade nos anos 60, colocando em cena, entre outros, nomes como os de Luis Llach, Pi de La Serra, Maria del Mar Bonet ou Juan Manuel Serrat. Este último, nascido em Barcelona em 1943, estava já formado em agronomia quando começou a levar canções suas a uma estação de rádio, pouco depois lançando primeiros singles que o permitiram inscrever desde logo entre o movimento que não só assegurava uma visibilidade para a língua catalã na música como, sob influência de contemporâneos como Georges Brassens ou Jacques Brel, procurava novas formas para explorar a canção popular. Em 1967 o álbum de estreia “Ara Que Tinc Vint Anys” servia condignamente, e com contenção nos arranjos (face ao que explorara nos singles anteriores) um primeiro momento de maior fôlego, vincando uma identificação com as movimentações folk que então se desenhavam em várias geografias da música europeia. O ano seguinte traria contudo mais surpresas.

Composta pelo chamado Duo Dinâmico (em concreto Manuel de la Calva e Ramón Arcusa, que se tinham conhecido em Barcelona), a canção “La La La” foi escolhida como representante de Espanha na edição de 1968 do Festival Eurovisão da Canção. E Juan Manuel Serrat fora convidado para a interpretar. Porém, ao fazer saber que pretendia cantá-la em catalão Serrat foi afastado e em seu lugar entrou a jovem cantora Massiel (que levaria a canção à vitória na edição desse ano, realizada no Royal Abert Hall em Londres, ultrapassando o favorito “da casa” Cliff Richard). O afastamento de Serrat (que não deixaria contudo de gravar num single a sua versão de “La La La”) e o alarido que gerou deu fôlego ao lançamento de um segundo álbum que tinha começado a gravar em 1967 mas que só chegou às lojas algum tempo depois do “caso” eurovisivo. Na verdade o disco já estava agendado para edição algum tempo antes, tendo conhecido um primeiro adiamento pelo protesto (entre figuras catalãs) pelo facto de Serrat ter sido apontado para cantar num concurso internacional em que Espanha seria representada por uma canção em castelhano… O modo como Serrat enfrentou e resolveu o caso tirou-lhe por um lado a possibilidade de uma eventual vitória eurovisiva, mas por outro cimentou uma carreira que, com “Cançons Tranicionals” fica definitivamente bem alicerçada e lançada.

Nascido de uma recolha de canções tradicionais da Catalunha, propondo arranjos elaborados (visivelmente influenciados pela eloquência entretanto adotada pelos autores de referência da chanson francesa), “Cançons Tradicionals” tornar-se-ia numa referência na história da canção popular em língua catalã. As canções juntam uma visão orquestral contemporânea – sob arranjos de Antoni Ros-Marba – a uma voz que transporta histórias de outros tempos que levavam a novos destinos um velho cancioneiro em tempos passado, oralmente, de geração para geração. Aqui se escutam histórias que ora evocam grandes romances históricos (como “La Dama d’Aragó”, sobre uma princesa e o destino trágico dos que dela se enamoraram, ou “La Presó del Rei de França” que lembra a detenção do rei francês Francisco I por Carlos V após a batalha de Pavia), contos morais (como “L’Estudiant de Vic”, sobre um jovem indeciso entre uma vida de sacerdócio e um amor, ou “La Cançó del Lladre”, uma trova sobre bandidos) e retratos da vida no campo (como “Cançó de Batre”, que tem origem maiorquina). Todas as narrativas são explicadas na contracapa, juntando ainda o disco um texto maior que explica o cancioneiro aqui convocado. No plano da composição e arranjos o disco contraria o minimalismo do álbum de 1967 e abre caminhos para explorações que continuariam em curso nos discos seguintes de Serrat (um deles, “Musica Sola”, ainda de 1968, unicamente instrumental).

“Cançons Tradicionals” estava pronto para editar desde finais de 1967 mas chegou às lojas só em 1968 numa primeira edição em LP pela Edigsa. Em França foi lançado pela Chant du Monde, numa edição que juntava às letras imagens de arte medieval. O disco teve uma edição em CD em 2000 mostrando a capa apenas um detalhe do trabalho gráfico da original, passando a omitir a imagem do cantor.

Da discografia de Juan Manuel Serrat vale a pena descobrir discos como:
“Ara Que Tinc Vint Anys” (1967)
“Com Ho Fa El Vent” (1968)
“Miguel Hernandez” (1972)

Se gostou, experimente ouvir:
Luis Llach
Pi de La Serra
Maria del Mar Bonet

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