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Faz 30 anos um visão de Nova Iorque por Lou Reed

Texto: NUNO GALOPIM

Um dos títulos mais marcantes da obra de Lou Reed, que o próprio pedia que fosse escutado de fio a pavio como quem lê um livro ou vê um filme, o álbum “New York” foi editado a 10 de janeiro de 1989. Faz hoje 30 anos.

É difícil, se calhar até mesmo impossível, apontar “a voz” de Nova Iorque. Mas a verdade é que não se conta a história de Nova Iorque sem falar das canções de Lou Reed e do modo, tal como antes o haviam feito as crónicas do jornalista Joseph Mitchell nos anos 50, nos falar dos outros lugares, das outras gentes, dos outros lados da cidade. Poeta rock’n’roll, Lou Reed tomou cedo Nova Iorque, os seus locais e figuras, como cenários e até mesmo protagonistas de canções. Nova Iorque está nas canções dos Velvet Underground, em “Walk On The Side” (do clássico “Transformer” de 1972 ou no título de “Coney Island Baby” (de 1976)… Mas esperou até 1989 para nos dar um álbum concetual que traduz esta relação antiga, profunda, experimentada, observada. Chamou-lhe “New York”, tendo o disco chegado às lojas a 10 de janeiro de 1989. Faz hoje 30 anos.

Depois de uma etapa de vida pessoal mais assombrada e de algum afastamento das atenções na segunda metade dos anos 70, Lou Reed (que nunca deixara de editar novos discos nesses dias menos “visíveis”) começara a cativar atenções em meados dos anos 80 em álbuns como “New Sensations” (1984) e “Mistrial” (1986), mas coube a este conjunto de 14 quadros poéticos sobre Nova Iorque o papel de o devolver a um estatuto de reconhecimento crítico e popularidade que, a solo, conhecera nos dias de “Berlin” e, sobretudo, “Transformer”.

“New York”, que de resto pode contestar com esse álbum histórico de 1972 (produzido por David Bowie) o título de melhor álbum a solo de Lou Reed, traduziu por um lado o aprimorar na escrita de uma visão vivencial (nascida do real e transformada ocasionalmente em ficções) e o despertar de uma atitude política mais acutilante. O disco fala de sida (em “Halloween Parade”), dos sem abrigo (no arrepiante “Christmas in February”), de Rudy Giuliani (que seria o ‘mayor’ de Nova Iorque pouco depois) e até mesmo de Donald Trump (em “Sick of You”), transcende a política local ao falar de Kurt Waldheim (que era então o presidente austríaco apesar do seu passado na wehrmacht nos tempos da II Guerra Mundial) e tem em “It’s no Time” um hino de protesto que ainda hoje ressoa como atual. Na música “New York” é um disco de rock focado na sua essência primordial e minimalista, eficaz e direto… Um claro herdeiro dos Velvet Underground. E, curiosamente, a baterista Moe Tucker tocou neste disco!

A capa apresenta uma multiplicação da figura do próprio Lou Reed como que habitando ele mesmo os corpos das muitas figuras da cidade que ali retratava.

Na contracapa Lou Reed pediu a quem escutasse o disco que o ouvisse de fio a pavio, como quem lê um livro ou vê um filme, vincando assim a ideia do todo que “New York” representa como ciclo musical e narrativo. “Dirty Boulevard”, um dos singles extraídos do álbum, transformou-se, contudo, num clássico maior na obra de Lou Reed. O que não impede que possa ter representado um cartão de visita para cativar atenções para todo um álbum que representou um dos maiores triunfos de Lou Reed tanto no departamento das opiniões como nas contas feitas na hora de medir as unidades vendidas.

“New York” é o álbum que abre uma etapa de apaziguamento e serenidade na vida de Lou Reed. Em “Dime Story Mistery”, que encerra o alinhamento, desenha uma primeira elegia ao então recentemente desaparecido Andy Warhol. Sugeria-se aqui, assim, o primeiro passo de uma tréguas com o passado que teria episódios seguintes num álbum de homenagem (brilhante) que no ano seguinte apresentaria em conjunto com o velho parceiro John Cale com o título “Songs For Drella”, uma homenagem a Warhol. Curiosamente “New York” chega às lojas poucos dias depois de Cale e Reed terem, pela primeira vez, apresentado canções desse projeto numa atuação conjunta na igreja de St. Anne, em Brooklyn. Ainda nos anos 90 os próprios Velvet Underground (na formação do seu quarteto clássico e original) juntaram-se para uma digressão…

A solo as heranças diretas deste álbum editado a 10 de janeiro de 1989 podem escutar-se em álbuns seguintes como “Magic and Loss” (1992), “Ecstasy” (2000) ou até mesmo na carga dramática na relação entre música e palavra do sublime “The Raven”, disco de 2003 baseado no poema homónimo de Edgar Allen Poe que, com “Transformer” e “New York”, constitui a “santíssima trindade” da obra de Lou Reed. Eu sei que falta ali “Berlim” (de 1973) mas, sugerindo o tom transgressivo que sempre caracterizou Lou Reed, podemos afinal pensar uma “trindade” que afinal junta quatro e não três discos…

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