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Paisagens luminosas no regresso dos Ultramarine

Texto: NUNO GALOPIM

A colheita de 2019 começa da melhor forma com um reencontro com a dupla britânica Ultramarine que faz do novo disco um herdeiro de explorações conduzidas na alvorada dos anos 90 em discos históricos como “Every Man and Woman is a Star” e “United Kingdoms”. Anna Domino é, desta vez, a voz convidada.

Foi no mínimo vibrante o clima que se viveu em inícios dos anos 90 em torno de novos horizontes que se abriam para as eletrónicas na ressaca da euforia house, acid house e periferias mais imediatas. Um dos espaços mais interessantes da nova invenção acontecia em terrenos onde a intensidade dos ritmos cedia a frente do palco a uma placidez que assim permitia outra atenção para com, sobretudo, a construção de ambientes, texturas e cenários. Nome a ter em conta nesse panorama, o coletivo britânico Ultramarine foi um caso sério por esses tempos. Nascidos da reunião de esforços de Paul Hammond e Ian Cooper, músicos que antes haviam já colaborado juntos nos A Primary Industry, os Ultramarine surgiram em 1989 com “Folk”, um álbum que passa algo a leste das atenções, editado na então muito atenta e sempre interessante independente belga Les Disques du Crépuscule. É, contudo, no disco seguinte que o seu nome acaba inscrito na agenda dos acontecimentos marcantes do seu tempo. Editado em 1991, “Every Man and Woman Is A Star” mostra um interesse pela exploração de novas formas e ferramentas (ainda é evidente, por exemplo, um encanto pelos bleeps que caracterizaram o acid house, porém em regime desacelerado), partilhando o seu programa de interesses com um domínio evidente pela escrita de canções (até mesmo em temas instrumentais que se aproximam assim dessa mesma lógica formal). Disco que não merece ficar na sobra dos clássicos “ambientais” do seu tempo como o foram os álbuns de estreia dos The Orb ou Aphex Twin e outros mais títulos lançados nessa mesma etapa por nomes como Pete Namlook ou Biosphere, “Every Man and Woman is a Star” teve continuidade direta em 1993 em “United Kindgoms”, álbum onde se revela uma presença mais evidente de elementos jazzísticos. Em conjunto representam um retrato do período criativamente mais sedutor do trabalho da dupla Hammond / Cooper que, nos seguintes “Bel Air” (1995) e “A User’s Guide” (1998) não repetem, de todo, os mesmos patamares de aclamação (e inspiração). Seguiu-se um longo hiato, interrompido em 2013 com o disco de regresso “Sometime Next Year” ao qual se sucedem agora dois novos títulos. Um deles é “Meditations”, um álbum de peças ambientais que surge como disco-companheiro de “Signals Into Space”, álbum que não só assinala um reencontro dos Ultramarine com as eletrónicas amboientais de tez jazzística da primeira metade dos anos 90 como representa igualmente um regresso à editora pela qual tinham lançado, há quase 30 anos, o seu primeiro álbum.

“Signals Into Space” nasce de uma série de composições nas quais a dupla Ultramarine foi trabalhando nos últimos três anos e inclui no alinhamento quatro temas assinados em conjunto com a cantora norte-americana Anna Domino, voz que representou uma das figuras de referência do catálogo da editora belga Les Disques du Crépuscule sobretudo nos anos 80 e alvorada dos 90. Dois dos temas, entre os quais a belíssima canção que dá título ao álbum, são inclusivamente momentos em que podemos reencontrar o canto de Anna Domino.

A improvisação voltou a habitar o método de trabalho adotado por Hammond e Cooper em sessões às quais chamaram ainda as presenças do saxofonista Iain Bellamy (que nos últimos anos tem gravado na ECM) e do vibrafonista Ric Elsworth, presenças que ajudam a vincar as tonalidades jazzy que cruzam um disco que, tal como os que os Ultramarine nos deram nos tempos de “Everyman and Woman Is a Star” e “United Kingdoms”, revelam demandas eletrónicas ambientais abertas ao desafio de quem cria e ao deleite de quem depois escuta.

“Signals Into Space”, dos Ultramarine, está disponível em CD, 2 LP (com a possibilidade opcional de juntar ainda, como extra, os dois temas longos de “Meditations”) e ainda nas plataformas digitais, numa edição da Les Disques du Crépuscule. ★★★★

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