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A música exploratória também pode ser canto de intervenção

Texto: NUNO GALOPIM

O compositor alemão Reiko Füting apresenta em “Distant Song” um conjunto de obras vocais nas quais ecos de outros tempos – e alguns chegam do século XVI – definem um quadro de reflexões sobre o presente. Aqui se canta sobre pacifismo e luta contra a violência política.

A ideia de desafiar as coordenadas do tempo, criando uma música que esbate as distâncias entre épocas para sugerir um presente que nasce da soma de fragmentos do que antes fomos com técnicas ou marcas dos nossos tempos tem habitado alguns dos discos mais cativantes e desafiantes dos últimos anos naquele espaço que existe para além das fronteiras que outrora separavam os grandes géneros musicais. As “Versailles Sessions” do mexicano Murcof sugeriram encontros entre novas eletrónicas e ecos das músicas de Lully e outras figuras dos tempos em que a corte de Luís XIV se mudou para o palácio que foi símbolo do ancien regime. Em “Being Dufay” o compositor Ambrose Field juntava um trabalho exploratório à voz de John Potter para recontextualizar ecos da música de Guillaume Dufay, um dos maiores compositores da Europa medieval. Agora chegou a vez de encontrarmos outro desafio no mesmo comprimento de onda. O protagonista é um compositor alemão, nascido ainda nos tempos da Alemanha dividida, no lado da RDA. Fez a sua formação entre o seu país, os EUA e a Coreia do Sul. E agora apresenta em “Distant Song” um conjunto de peças vocais que exploram o mesmo sentido de desafio ao tempo, juntando porém um outro elemento determinante na demarcação do presente: um olhar político sobre um mundo em estado de inquietude neste início de século em que vivemos.

Reiko Futing gosta de contrariar a visão do tempo como uma entidade que corre num só sentido. Não é o único a fazê-lo, claro. E da literatura ao cinema (para não falar apenas da música) não faltam ocasiões em que, através de narrativas, caminhámos por outras épocas, das do ontem às do amanhã. O que Reiko Futing procura é, tal como Murcof ou Ambrose Field nos exemplos acima citados, criar um som do presente que vive da colagem de fragmentos do passado modos de pensar o presente. “Distant Song” é um disco que junta um conjunto de seis peças vocais (a mais curta com seis minutos, a mais longa ultrapassando os 22) nas quais o canto é acompanhado por um ensemble de percussão, uma viola da gamba e dois trompetes. Os ecos do passado chegam de pistas remotas, nomeadamente notando um interesse pelo compositor alemão do século XVI Heinrich Schütz. Esses ecos são filtrados por atitudes da música do nosso tempo, recorrendo a estratégias de repetição, fragmentação ou sobreposição que, juntamente com o quadro temático (interventivo) vincam aqui as marcas do presente.

“Distant Song” vai assim procurar pistas em cantos distantes no tempo para falar de pacifismo ou de violência política através uma música exploratória tão desafiante quanto cativante. “Im Allen Frieden”, onde os fragmentos de ecos de música antiga avançam pelo presente como um campo de nuvens que vai toldando e mudando uma paisagem, tem como ponto de partida uma peça de Heinrich Schütz em plena guerra dos 30 anos. E pode servir de porta de entrada para um álbum que ajuda a vincar como palavras e músicas de outros tempos podem encontrar caminhos para ganhar sentidos e formas noutras épocas e contextos.

“Distant Song”, de Reiko Füting, está disponível nas plataformas digitais numa edição da New Focus Recordings.

Podem ouvir aqui:

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