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Quando o cinema procurou dar realismo ao desafio de viajar até à Lua

Texto: NUNO GALOPIM

Descrito por Isaac Asimov como o primeiro filme de ficção científica feito com inteligência, “A Conquista da Lua”, de 1950, representou o momento em que o cinema começou a procurar retratar a aventura espacial com atenção maior pelos valores da verosimilhança científica.

O sonho de ir à Lua é tão antigo quanto aquilo a que podemos chamar narrativas do fantástico. E recua talvez aos tempos de Luciano de Samostrata, no século II… O cinema descobriu também bem o desafio de viajar até à Lua, com Georges Meliès… Pelo que não será surpresa maior verificar que, antes mesmo de lançado um programa espacial com esse objetivo real, a ideia de lançar uma missão tripulada até à Lua tivesse surgido no grande ecrã antes mesmo de ser aprovada entre políticos e transformada em facto por figuras da ciência e da engenharia. E logo em 1950, ainda com as feridas da II Guerra Mundial a sarar, mas com a experiência acumulada de avanços militares na ciência dos foguetes, um filme destacou-se de um panorama de ficção científica que tomava a chegada de discos voadores alienígenas como mais frequentes protagonistas para tentar imaginar, com um desejo de maior rigor científico, o que seria uma primeira missão lunar.

Com produção de George Pal (que pouco depois estaria ligado a importantes adaptações ao grande ecrã de livros de H.G. Wells como “A Máquina do Tempo” e “A Guerra dos Mundos”) e realização de Irving Pichel, “Destination Moon” – que entre nós teve estreia como “A Conquista da Lua” – coloca a ideia de uma viagem à Lua como um imperativo empresarial e, depois, político. E começa por mostrar como, apesar de um desaire num programa de investigação oficial, um conjunto de magnatas do mundo empresarial se junta para não deixar a ideia morrer, financiando assim a missão por iniciativa privada. O foguetão, que não deixa de ser uma variação da silhueta da bomba V2 da Wehrmacht, acaba por descolar antes do previsto para escapar a uma ordem judicial que mandava a expedição ficar no solo… E lá vão…

A este plano social e político (que juntará ainda um discurso de “conquista” ao chegar ao destino e a uma ideia de que tudo isto é um começo, quando os créditos finais chegam ao ecrã) o filme junta a exploração da gravidade zero em viagem, uma contemplação da paisagem lunar (então mais imaginada do que factual, notando-se até um exemplo, naturalmente impossível, de solo argiloso, ressequido, no local de alunagem) ou um debate com implicações narrativas sobre as questões de peso e combustível necessárias para que o trajeto de regresso se possa fazer. No plano da música o compositor Leith Stevens chegou a consultar vários especialistas para imaginar o “som” do espaço sideral e da Lua antes mesmo de lançar as notas na partitura (fosse aí fiel à ciência teria feito silêncio).

Um dos pilares da construção de um discurso de maior rigor científico neste filme é a “colaboração” de Woody Woodpecker (sim, o pica-pau dos desenhos animados), que é o protagonista de uma animação – incluída no corpo do filme – que explica aos investidores o que é, afinal, uma viagem à Lua. Ao invés de Woody Woodpecker, os atores são, contudo, uns cepos, na linha dominante em muito do cinema de ficção científica pré-“2001: Odisseia no Espaço”. Mas as linhas de diálogo não pedem muito mais.



Mesmo assim encontramos aqui, quase 70 anos depois, sinais de pioneirismo numa busca de um realismo que mudaria a face da ficção científica vindoura (“2001” inclusive). E a isso se deve a visão maior de um argumento cuja escrita contou com a ajuda de Robert A. Heinlein. De resto, no seu “Rocketship Galileo”, de 1947, eram lançadas pistas que aqui ganharam outras vidas e imagens. Editado em 1951 “The Man Who Sold The Moon”, também de Heinlein, voltava a incidir na questão do investimento privado na génese de uma aventura lunar.

“A Conquista da Lua” surgiu no mesmo ano em que “Rocketship X-M”, de John Neumann, filme mais animado com vitaminas de aventuras que, apesar de ter ação em Marte (onde é descoberta uma civilização), na verdade conta a história de uma missão que estava originalmente destinada a viajar até à Lua mas que acaba inesperadamente por rumar ao Planeta Vermelho. Maiores semelhanças com “Destination Moon” podem ser encontradas no díptico lunar de Tintin – “Rumo à Lua” / “Explorando a Lua” – cuja publicação (na revista Tintin) começou, precisamente, no mesmo ano… O foguetão (tanto nas linhas exteriores, como a cabine com camas) ou os olhares sobre a paisagem lunar estão, de resto, em grande sintonia com a visão contemporânea de Hergé…

PS. Hoje em dia é também impossível olhar para as imagens dos astronautas, quer na superfície da Lua, quer em passeio no exterior do foguetão, sem pensar nos… teletubbies…



E aqui podem ver o trailer:

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