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Um estranho encontro

Texto: NUNO GALOPIM

É bom ir para a sala de cinema sem todos os dados sobre o filme. O quer há de estranho e intrigante em “Na Fronteira”, de Ali Abbasi, será assim uma experiência mais completa. Podemos apenas avançar que é por este tipo de abordagens que o cinema fantástico tem vivido algumas das suas mais interessantes revisitações de velhos mitos.

Os caminhos recentes do cinema fantástico têm-nos dado a viver outros modos de lidar com velhos paradigmas. Basta ver, por exemplo, como “Deixa-me Entrar”, de Thomas Alfredsson, ou “Só os Amantes Sobrevivem”, de Jim Jarmusch, olharam de um modo diferente para as narrativas de vampiros, propondo caminhos bem distantes das lógicas mais próximas do imaginário do terror tantas vezes adotadas. E, já agora, não será descabido lembrar que, na origem, o “Drácula” de Bram Stoker (falo do livro) era, afinal, uma história de um amor interrompido… Todo este (aparente) desvio serve para nos colocar perante um dos mais intrigantes filmes que surgiram entre as nomeações para os Óscares deste ano. É verdade que “Na Fronteira”, de Ali Abbasi, chegara já de Cannes com uma distinção. Apesar de designado pela Suécia para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira acabou fora da seleção final de nomeados, tendo mesmo assim chegado à noite dos Óscares com uma nomeação na categoria de caracterização… E basta ver a sequência de abertura para entender o porquê… O rosto da protagonista, de feições invulgares (que lembram as das reconstituições de uma neanderthah), revela-se, desde logo, o primeiro sinal de uma inquietude que atravessa as imagens e rapidamente se instala no espectador. O que se passa ali?

O cenário é até aparentemente vulgar. Um corredor de alfândega (numa zona portuária algures na Suécia)… Dois oficiais… E passageiros que o atravessam, vindos de um ferry boat… Tina, a protagonista, mostra uma expressão intranquila. E, pelo olfato, aparentemente sente o que possa estar errado. Não há contrabando que lhe escape… E é assim que nota que alguém tenta levar consigo mais álcool do que o legalmente permitido. Ou que um outro passageiro transporta consigo pornografia infantil (peça importante numa investigação que se seguirá como uma das linhas narrativas do filme, embora não a principal).

Até ao dia em que pela fronteira passa um homem que a deixa perturbada. O rosto mostra linhas semelhantes às suas. Mas o seu comportamento parece diferente. Tudo a intriga… E de uma progressiva aproximação a este estranho surgem revelações e um desafio que a levará a questionar a própria identidade e todo o seu percurso de vida. “Na Fronteira” levanta ecos de mitologias locais e usa-os para, como tantas vezes o faz a ficção científica, fazer-nos refletir sobre quem somos, as nossas heranças e que caminhos desejamos para o nosso futuro.

A realização suporta bem a condução de uma narrativa que cedo deixa clara uma tranquila relação da protagonista com o que nos pode fazer sentir inquietos: o frio, a vida selvagem, a escuridão. Quem é Tina? O que sabe ela de si mesma? E como reagirá perante as revelações?… Tranquilamente, e sob uma ideia de realismo (o que pode parecer um contrasenso já que estamos num universo fantástico), “Na Fronteira” deixa-nos a pensar sobre o que é, na verdade, essa coisa chamada “humanidade” e o sentido que tantas vezes nós, seres humanos, gostamos de atribuir a esta palavra. Mesmo quando toda a nossa história (e presente) estão cheios de ações que em nada se coadunam com o sentido canónico dessa definição.

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