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Do cosmos, por via da nova cultura urbana, chega um jazz para o século XXI

Texto: NUNO GALOPIM

Três anos depois do seu álbum de estreia, o trio britânico The Comet is Coming mostra a solidez de uma visão do jazz que parte das vivências naturais dos músicos entre outras formas musicais que povoaram os tempos da sua formação. Uma boa ideia do que pode ser o jazz nesta era da comunicação global e da partilha de vivências passa por aqui.

Há qualquer coisa a acontecer entre uma nova geração de músicos de jazz que fazem com que nem todas as notícias sobre o Reino Unido falem dos possíveis cenários para o Brexit. Crescidos numa cultura que tem naturalmente no quotidiano vivências do grime, da música eletrónica e outros caminhos igualmente estimulantes que a cultura urbana britânica tem experimentado, os músicos que estão a cativar justificadas atenções estão assim a promover encontros naturais do mundo ao seu redor com evidente gosto por encontrar caminhos possíveis para novas expressões do jazz num território que lhes é genética e culturalmente natural. São nomes como os Sons of Kemet, Nubia Garcia ou Theon Cross, entre outros mais e alguns deles vão ter o seu nome claramente inscrito nas listas dos acontecimentos de 2019. Um deles é o do projeto The Comet is Coming, um trio que inclui na sua formação o saxofonista Shabaka Hutchings, que encontramos também em projetos como Shabaka and the Ancestors e Sons of Kemet. Natural de Birmingham mas com ascendência que leva a sua história de família a Barbados, começou a tocar bem jovem, cedo encontrando uma certa inquietude ao tentar enquadrar-se no meio jazzístico. Era o que queria, mas não bem o que queria. Como ele mesmo já explicou em entrevistas, procurava não apenas a criação de uma música complexa mas igualmente a possibilidade de a cruzar com outras ideias, bem mais simples… Shabaka era a figura que muitas vezes dois outros músicos viam a seu lado quando tocavam ao vivo. Betamax (ou seja, o baterista Max Hallet) e Danalogue (o teclista Dal Leavers) formavam então a dupla Soccer96. E notavam frequentemente aquela presença imponente a seu lado até ao dia em que Shabaka rasgou o silêncio, tocou com eles e, do desafio de experimentar umas sessões de estúdio, deram consigo com material que só podia ter um destino. Nascia o trio The Comet is Coming.

O interesse natural de Shabaka pelos universos da ficção científica e a curiosidade pelo cosmos (e as culturas “cósmicas”) moldaram uma ideia que cedo levantou sem surpresas sinais de afinidade pelo legado do visionário Sun Ra. Títulos como “Space Carnival” ou “Slam Dunk in a Black Hole”, assim como a paisagem spacey que se desenhava logo em “The Prophecy”, o tema que abre o alinhamento do álbum de estreia “Channel The Spirits” (2016) vincou, de resto, todo esse corpo de afinidades.

Mas mais ainda do que estas ligações de genética e gosto cósmico, o percurso do trio The Comet is Coming tem valorizado sobretudo uma expressão identitária do que pode ser o jazz para músicos britânicos neste final de segunda década do século XXI. O modo como a presença (dominante) do saxofone lida com os cenários desenhados pelas eletrónicas e bateria, não escondendo as vivências de outras músicas que passaram pela formação destes músicos, encontra agora, em “Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery”, um novo passo que cimenta as ideias lançadas há três anos e mostra como aquele corpo de ideias ganhou ainda mais carne e vida. As visões cósmicas ainda o habitam, mas não estão necessariamente tão evidentes no jogo de planos dos acontecimentos. Estão mais profundamente assimiladas num conjunto de composições que ensaia caminhos com afinidade com heranças de visões progressivas que podem passar por referências a uns King Crimson ou Mahavishnu Orchestra. Há por vezes uma intensidade próxima do prazer noturno da dança, como se escuta em “Summon the Fire”. Ou caminhadas mais subitis, como no diálogo entre um clarinete e os sintetizadores em “Birth of Creation”. E uma contagiante materialização da palavra neste universo em “Blood of The Past”, onde encontramos a presença da voz (e da escrita) de Kate Tempest.

Faltassem ainda certezas sobre a solidez das ideias em volta da música deste trio depois de dois EP e um álbum de estreia, “Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery” confirma em pleno que no trio The Coming is Coming está uma das forças maiores desta nova família de músicos britânicos. Depois de uma geração que teve em Giles Peterson (o fundador da Talkin’ Loud) um dos epicentros e de uma outra que viveu a descoberta das visões da Cinematic Orchestra e outros contemporâneos, este trio, juntamente com os demais novos peões em jogo, parecem ter agora pela frente um mais firme terreno para afirmar, ainda com mais notoriedade, o que podem, afinal, ser as mais entusiasmantes visões do jazz para a era da comunicação global.

“Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery”, do trio The Comet is Coming, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Verve.

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