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A arte de saber dar o passo certo na hora certa

Texto: NUNO GALOPIM

Três anos depois da estreia em “Excuse Me” o segundo álbum de estúdio de Salvador Sobral é como um olhar sobre uma estrada que se abre a muitos mundos de possibilidades. Entre familiaridade e surpresa, “Paris, Lisboa” é uma firme declaração de identidade e não cedência. E é o seu melhor disco (até aqui).

Era um passo importante. Muito importante mesmo. Não que haja passados a exorcizar (antes pelo contrário). Mas porque, depois de “Amar Pelos Dois”, Salvador Sobral deixara de ser um promissor cantor de jazz para, merecidamente, ser reconhecido como uma figura de primeiro plano na música nacional e, ao mesmo tempo, ser a voz da sua geração mais capaz de levar a lugares mais distantes, o que aqui neste momento se está a criar… Era preciso, por isso, um disco para dar corpo mais sólido aos mundos de possibilidades que a canção lançara em 2017… É claro que pelo caminho houve já um (belíssimo) álbum – fora do campo do jazz, mas com uma perna lá dentro – criado através do coletivo Alexander Search. E houve um disco ao vivo que fixou a memória da digressão que correu o país depois de lançado “Excuse Me”, um disco de estreia para o qual todos levámos algum tempo a despertar. Houve questões de saúde a resolver, já o sabemos. Mas mal o futuro passou a abrir outros horizontes à vida e, consequentemente, à música, logo um passo seguinte começou a ganhar forma. Ainda em convalescença e já Salvador Sobral fazia contactos para parcerias a explorar num segundo disco em nome próprio. Era preciso tempo. Não ter pressa. Resistir às tentações mais imediatas… E fazer bem. Um ano depois “Paris, Lisboa” corresponde ao que as melhores expectativas poderiam sugerir. É um disco sem cedências, firme na demarcação de uma identidade mas aberto ao prazer da descoberta de novos mundos.

Mais do que em “Excuse Me” – e quantas vezes um primeiro álbum não é como um mero tatear de primeiras possibilidades, tal como de resto o fez Dylan em 1962 – é agora que encontramos uma expressão da mais vasta paleta de caminhos pelos quais a música de Salvador Sobral pode avançar em disco (sim, porque pelo palco estas e outras ideias há muito andam a ganhar forma). Se há duas cidades a dar nome ao álbum, é porque há factos (do hemisfério pessoal do gosto e das vivências) que assim o determinam. Mas “Paris, Lisboa” é mais do que a expressão de uma linha imaginária que une as cidades. É um disco onde cabem os muitos mundos que habitam uma voz que gosta de descobrir, de ser desafiada, incomodada, para não se fixar num patamar só. E é, ao mesmo tempo, um retrato pessoal de um tempo de mudanças. E de felicidade.

O alinhamento começa por nos fazer escutar uma canção que, de certa forma, arruma todos os discursos sobre transição entre o antes e o agora. “180, 181 (catarse)” é, como o título sugere, um canto de libertação. Resolve o que foi. E, na verdade, era já uma ideia antiga que, entretanto, o próprio Salvador Sobral adaptou para assim fechar uma etapa difícil. Os 180 dias de hospital… Caso arrumado, nesta que é como uma faixa “zero”, avançamos então para o disco… E aí encontramos, entre a familiaridade e a surpresa, uma sucessão de canções que, sem perder a sua relação com o jazz, optam por somar mais mundos a este mundo. Há aqui ecos das suas relações pessoais, expressos em colaborações, parcerias, cumplicidades (que vão de um novo dueto com Luísa Sobral a uma versão cheia de vida de “Anda Estragar-me Os Planos”, de Francisca Cortesão e Afonso Cabral). Há materializações de descobertas e obsessões recentes – e que bom é ver como Jacques Brel pode continuar a ser um inspirador de novas ideias (em “La Souffleuse”). Há várias línguas (bem) cantadas. Versatilidade nos arranjos, que sublinham a capacidade interpretativa da voz. E há aquele gosto pela vertigem que tantas vezes acontece em palco e poucas vezes se materializa em estúdio. Escute-se, neste caso, “Paris Tokyo II” para experimentar uma viagem arrebatadoramente envolvente. Com a duração que um álbum deve ter (e quantas vezes a idade do CD nos deu discos demasiado longos) “Paris Lisboa” é o retrato certo no tempo certo para a voz certa. A estrada está pela frente. Mas agora Salvador Sobral já não precisa de pedir licença para nela caminhar.

“Paris, Lisboa”, de Salvador Sobral, está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Valentim de Carvalho.

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