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David Bowie à procura do seu caminho… em 1968

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de um álbum de estreia que passara a leste das atenções em 1967, David Bowie deu por si, em casa, de guitarra acústica nas mãos , em busca de novos caminhos… A resposta estava na canção ‘folk’… E uma nova caixa de maquetes inéditas mostra como esse processo ocorreu, levando-o até… “Space Oddity”.

Muito se falou sempre dos arquivos de Prince. O mítico “cofre forte” do qual, de facto, já começámos a ouvir tesouros até aqui escondidos. Mas, mesmo não sendo certamente tão recheado de inéditos à espera de discos inesperados, a verdade é que os arquivos de David Bowie nos têm dado a conhecer, desde o seu desaparecimento, todo um catálogo de novas edições. Muitas delas têm surgido no quadro das caixas que têm vindo a ser lançadas com uma regularidade impressionante e que, até aqui, revisitaram já o período entre 1969 e 1988. Em 2018 uma edição em máxi-single revelou uma primeira maquete de “Let’s Dance”. E, agora, uma outra incursão por gravações de ‘demos’ acrescenta mais um momento revelador sobre a história da demanda de Bowie por caminhos para si mesmo e ajuda a compreender o seu processo criativo. Tem por título “Spying Through a Key Hole” e é uma edição exclusivamente disponível em vinil na forma de uma caixa com quatro singles, juntando um folheto com textos explicativos e uma foto de Bowie na época. Que época, podem preguntar? Ora bem… Este é um mergulho entre memórias que antecedem diretamente “Space Oddity”, ou seja, gravações já com mais de 50 anos e que, até aqui, eram registos não editados, incluindo mesmo temas inéditos.

Vale a pena começar por recordar que Bowie editava já discos desde 1964, passara por várias bandas e tinha já encetado uma carreira em nome próprio. Na verdade só depois de uma valente mão-cheia de singles, nos quais seguia mais caminhos dos outros do que uma voz criativa pessoal (que ainda não tinha encontrado), Bowie conseguiu, em 1967, criar um álbum que não soava a alguém a apanhar um comboio em andamento. Chamou-lhe David Bowie e foi um ovni num ano em que muitas atenções se focavam nas rotas do psicadelismo ou garage rock… Era um disco que colhia heranças em velhas tradições do teatro musical e propunha algo que não parecia daquele tempo… Imaginem uns Divine Comedy antes do tempo, e sem a carga sinfónica, mas antes do tempo. O álbum passou a leste das atenções. Pelo que, no voltar da página, Bowie tivesse sentido a necessidade de procurar outros caminhos… E é aqui que entram em cena as gravações que agora encontramos nesta caixa.

Estamos em casa de David Bowie, em 1968. E, apenas acompanhado por uma guitarra acústica, encontramo-lo em busca de novas ideias, iniciando uma fase folk que, de facto, culminaria na forma do álbum editado em 1969 como “David Bowie” mas que com o tempo acabou por ficar designado como “Space Oddity”. Entre as maquetes que aqui escutamos há duas gravações dessa canção que lhe daria um primeiro êxito, uma delas provavelmente correspondendo ao primeiro registo que dela fez. As gravações são caseiras, havendo flutuações na qualidade do registo. Mas todas elas estão tratadas e bem claras. E mostram uma voz em busca de linhas para cruzar a guitarra, a voz e as palavras. Há aqui incursões (não definitivas) por temas que depois surgiriam em disco, como é o caso de “London Bye, Ta Ta” (que esteve para ser single depois de “Space Odddity” mas acabou mais um tempo na gaveta) ou “In The Heat of The Morning”. Estas duas seriam gravadas em estúdio na primavera de 1968, mas só editadas mais tarde em compilações (a segunda numa antologia de gravações na BBC). De “Angel Angel Grubby Face” (aqui em duas versões) já se conhecia uma maquete num acetato que fora a leilão em 1993.

Os tesouros maiores desta caixa surgem com três canções nunca antes escutadas. A mais arrebatadora é “Goodbye Threepenny Joe”, que o livro “The Complete David Bowie”, de Nicholas Pegg, refere como “Threepenny Joe”, segundo uma referência uma vez feita pelo manager de então de Bowie, mas desde então não mais escutadas. Depois há “Mother Gray”, a que o livro de Nicholas Pegg alude apenas como uma maquete abandonada em 1968. E, depois, “Love All Around”, de que nem mesmo essa “bíblia” sobre a obra de Bowie nos dava ainda conta e de cuja letra é retirado o verso que dá título a esta caixa.

Diferente do potencial apelo maior do ‘remake’ do álbum de 1987 “Never Let Me Down”, do álbum inédito “The Gouster” ou da primeira edição em disco do registo ao vivo “Serious Moonlight Tour”, esta caixa tem um apelo mais direcionado para os seguidores mais atentos da obra de Bowie. É claramente um lançamento para fãs. Mas uma boa coleção de retratos sobre o modo como o músico começou a ver, com maior nitidez, qual seria o seu rumo… E, antes do cocktail de referências que o encaminharia depois a “Hunky Dory” e “Ziggy Stardust”, foi na folk que encontrou as primeiras respostas.

“Spying Throught The Keyhole” está disponível apenas no formato de uma caixa de 4 singles em vinil, lançada pela Warner.

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