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Um olhar despido sobre um clássico dos Prefab Sprout

Texto: NUNO GALOPIM

Em 2007, para criar conteúdos adicionais para a Legacy Edition do álbum de 1985 “Steve McQueen” Paddy MacAloon levou as canções de volta a estúdio e gravou versões essencialmente acústicas. Agora este conjunto de versões teve edição num LP.

Em 1985 estávamos longe de saber o que hoje sabemos sobre Paddy McAloon e de o imaginar como um dos maiores escritores de canções da sua geração. Há trinta anos o que deles se conhecia era apenas um interessante álbum de estreia, de título Swoon, lançado em 1984 e revelando notas em consonância com alguns focos de criação pop/rock mais apontados a destinos que estavam então a ser traçados entre talentos escoceses que junto dos pólos de Londres ou Manchester que então, entre si, dividiam mais as atenções. Mas é então que surge um segundo disco. Traz o nome de um ator de cinema como título e na foto mostra a banda (no line up de então) junto a uma moto, também aí vincando a relação com o nome de Steve McQueen, citando em concreto o filme The Great Escape, de 1963. E ao ouvir as canções a sensação de revelação, mais nítida do que entre o que “Swoon” mostrara, era incontornável. Algo estava ali a acontecer.

O grupo tinha lançado um primeiro single em 1982, com o título “Lions In My Own Garden: Exit Someone” que juntava palavras cujas primeiras letras escreviam a palavra Limoges, a cidade francesa onde vivia então a namorada do vocalista e compositor Paddy McAloon. Com o tempo, a sua escrita caminhou no sentido de procurar mais que ginásticas de forma e, chegado a “Steve McQueen” revelava uma dimensão filosófica, falando do homem e das suas características e comportamentos.

É contudo na relação entre as palavras e a música que “Steve McQueen” se apresentava como assombrosa nova visão de uma pop capaz de vincar marcas de contemporaneidade e ao mesmo tempo traduzir um sentido de saber e segurança mais habitual entre veteranos que junto de talentos em tempo de revelação. Fizeram a escolha certa na hora de procurar um produtor, chamando ao estúdio Thomas Dolby que, depois de dois brilhantes álbuns a solo, revelara já um apurado sentido na moldagem das canções. Elegantes, capazes de integrar sonoridades características dos sabores pop mais gourmet do seu tempo, como se evidencia em canções como “When Love Breaks Down” ou “Appetite”, ao nível do que um Trevor Horn então talhava com os Art of Noise, as canções de “Steve McQueen” mostravam todavia um saber de vistas ainda mais largas, com temas como “Horsin’ Around” a assinalar flirts com o jazz ou “Faron Young”, a piscar o olho a um irresistível momento rock com sabores country. Tudo isto sem perder nunca um certo protagonismo das guitarras, elegantes, como as que escutamos em “Bonny”, em “Hallelujah” ou “Moving The River”, perfeita canção pop que nunca foi single (e devia).

Em 2007, para uma reedição DeLuxe do álbum, Paddy MacAloon voltou a estúdio com estas canções. Estava essencialmente munido de uma guitarra acústica, mas aqui e ali não disse que não à presença de samples. E assim nasceram versões “acústicas” destas mesmas canções que agora, por ocasião do Record Store Day, acabam de conhecer edição independente num LP a que chamaram, simplesmente, “Steve McQueen Acoustic”. As reinterpretações – captadas em estúdio por Calum Malcolm (o mesmo que em tempos produziu o mítico “Hats” dos Blue Nile) – ultrapassam os jogos de formas das versões gravadas em 1985 e destacam o poder da palavra e o saboroso trabalho de composição. O ‘tempo’ nem sempre segue as mesmas pistas… E outras dimensões acabam assim por conduzir a (re)descobertas.

Vale a pena ler os textos que surgem no inlay, sobretudo uma entrevista na qual Paddy MacAloon contextualiza as canções de Steve McQueen não como retratos de 1985 – como quem ouviu então o disco julgou – mas antes como ecos de vivências de finais dos anos 70, quando era ainda estudante, vivia afastado do buliço dos colegas refugiando-se no sótão onde morava e, então, escreveu quase todas estas canções.

“Steve McQueen Acoustic”, dos Prefab Sprout, está disponível num LP editado pela Kitchenware Records

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