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O disco que revelou outros abismos na escrita pop faz 40 anos

Texto: NUNO GALOPIM

Se os Beatles criaram o “álbum branco” da pop, então aos Joy Division coube a criação do seu disco negro. Lançado a 15 de julho de 1979, “Unknown Pleasures” revelou novas possibilidades e assombrações. E como poucos discos, gerou um mundo de descendências.

Intrinsecamente ligados à figura, voz e escrita de Ian Curtis, os Joy Division foram uma das mais marcantes forças criativas da sua geração. Formados num subúrbio de Manchester na ressaca da revolução punk (e originalmente chamados Warsaw), avessos à luminosidade festiva da new wave que se lhe seguiu, foram a primeira banda que conseguiu captar, não a raiva e energia, mas antes a essência ética e sentido de identidade do punk, projetando ambos num espaço diferente que abriu alas ao desenho de uma atitude melancólica que dominaria a cena pop/rock alternativa na primeira metade dos oitentas. Apesar das primeiras manifestações de uma certa desordem formal característica do punk, a depuração de ideias e linhas, o aflorar de um ideário urbano, tortuoso e solitário, adubado por tempestades interiores, o efeito do artifício sugerido por um som de bateria processado e a posterior entrada em cena de sintetizadores fizeram dos Joy Division um dos mais entusiasmantes laboratórios de reinvenção pop que a Inglaterra conheceu na passagem de 70 para 80.

Depois de primeiros singles, na primavera de 1979 gravaram finalmente o seu primeiro álbum. Fundamental na construção definitiva de uma identidade sonora para as canções do grupo, a presença em estúdio do produtor Martin Hanett revela-se então fulcral. As canções, mesmo que ocasionalmente imperfeitas na arte final, são profundos gritos de identidade dotados de um invulgar sentido de urgência. A música é minimalista e capta o desespero patente na escrita de Ian Curtis. A sua voz parece buscar uma catárse desesperada na partilha com o ouvinte. Em estúdio Hannett encontra-lhes a cenografia ideal, um espantoso sentido de espaço, sugere malabarismos técnicos e formais e define em “Unknown Pleasures” um dos álbuns mais influentes do seu tempo.

A capa, a cargo de Peter Saville, sublinha a imortalidade potencial do disco. A gravação e mistura quase coincide com o nascimento da filha de Ian Curtis. Contudo, apesar das expressões de amor paternal, a vida doméstica não é mais a prioridade de Ian. Quando está em casa ouve música ou entrega-se à leitura de autores como Dostoiévski, J.G. Ballard, Nietzsche, Sartre ou Hermann Hesse. Os concertos que se seguem ao disco, a receção nos media, o entusiasmo de uma legião de admiradores em crescimento tomam a sua atenção. Editado em Junho, o álbum colhe críticas diversas. No Sounds, o texto aponta-o como um potencial catalisador de suicídios. Sinais premonitórios de uma tragédia que, afinal, seria real?

A assinalar os 40 anos da edição deste disco, a Antena 3 apresenta dia 18, pelas 21.00, um especial sobre a história da Factory Records, a editora que viu nascer não apenas os Joy Division mas também nomes como os A Certain Ratio, Durutti Column, New Order ou Happy Mondays.

Uma reedição do álbum, em vinil, mas com capa branca, surge agora para assinalar o seu 40º aniversário.

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