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Os desafios de Madonna na hora de vestir a pele de Madame X

Texto: NUNO GALOPIM

O primeiro disco que Madonna edita depois de ter feito de Lisboa o epicentro do seu mundo traduz sobretudo o mundo de possibilidades que a nova casa lhe proporcionou… Desafiar é talvez a palavra mais conjugada num disco que talvez não tenha êxitos pop imediatos mas que representa o desafio mais ousado alguma vez por si registado num só disco.

Muito se esperou (e entretanto já falou) sobre o disco lisboeta de Madonna… E não faltou já quem bradasse que ali não estava afinal Lisboa nenhuma, possivelmente esperando postalinhos coloridos com sardinhas assadas, pastéis de nata e fado (daquele para inglês ver). Felizmente não é essa a Lisboa que “Madame X” traduz. Aqui está antes antes uma Lisboa vivida em episódios de descoberta que, mais do que um guia turístico feito de lugares comuns, resultou antes de uma soma de encontros, de vivências e, acima de tudo, de possibilidades lançadas. Lisboa, e basta escutarmos discos recentes de nomes como Branko ou Dino d’Santiago, notamos como ali se traduz o que é a essência de uma cidade que vive de encontros, de cruzamentos e, uma vez mais, de possibilidades… E foram essas as marcas de Lisboa que Madonna acabou por registar naquele que é claramente o mais ousado disco de toda a sua carreira (sim, mais ainda do que a incursão pop pelos mundos da house registada no belíssimo “Erotica”) e que – mas esta não era difícil – resultou no seu melhor álbum desde “Confessions on a Dance Floor”. “Madame X” é um conjunto de desafios, portanto…

Mas voltemos a Lisboa… Foi na cidade que, dentro do seu quadro de relações e curiosidades, Madonna descobriu ecos de músicas e culturas que ou são daqui ou aqui encontram âncoras que refletem histórias de diáspora. Por um lado o som da guitarra portuguesa (que escutamos em “Killers Who Are Partying”). Por outro as batucadeiras (em “Batuka”) que estabelecem uma relação da música de Madonna com África – nomeadamente Cabo Verde – com Lisboa uma vez mais como local de descoberta… Alguém esperava que estas vivências resultassem numa mera colagem de universos? Naturalmente não. E, novamente com Mirwais a bordo (figura determinante nas visões trabalhadas em álbuns do início deste milénio como “Music” e “American Life”), Madonna acabou por escutar, transformar e assimilar todas estas sensações e descobertas. E delas fez a sua nova música. A que nasceu em Lisboa. Desafios…

Não faltou, sobretudo depois do belo “Confessions On a Dancefloor” (no qual Madonna procurava estabelecer pontes entre o seu presente e memórias de vivências nova-iorquinas do início da sua carreira), quem notasse que o percurso recente dos seus discos traduzia uma perda de velocidade na forma de acompanhar os destinos da sua música. De facto a posição mais ousada e, podemos dizer, vanguardista (sim que pode existir em terreno mainstream) com que abordara a house em “Erotica”, um ressurgimento do r&b em “Bedtime Stories”, a invenção de uma nova teatralidade (não é palavrão!) na pop eletrónica em “Ray Of Light” ou o piscar de olho a uma nova geração de estetas electro em “Music”, começa, depois de “Confessions”, a traduzir mais vontade em seguir do que em liderar o pelotão de exploradores. “Hard Candy” entrou no terreno de um Timbaland (y sus amigos) em busca do que outros já faziam… Mais desmotivador ainda, “MDMA” procurou um lugar na pista de dança EDM que já tinha os seus cabeças de cartaz (e mauzinhos, vale a pena notar)… “Rebel Heart” era na verdade um dois em um… Por um lado havia ali a procura de uma pop mais madura, mas, faca de dois gumes, ao mesmo tempo o disco parecia procurar um lugar entre os paradigmas dominantes do momento. Paradigmas que não fora a música de Madonna a determinar… Correu mal, claro. O que agora faz “Madame X” é, de certa forma, o reatar de um velho gosto por se lançar em frente ao pelotão. De assumir desafios. Por um lado, eco do que parece uma nova realidade em construção neste final de década, o disco traduz a consciência de que o inglês não é mais a língua universal da canção pop, cabendo precisamente às línguas espanhola e portuguesa a criação de novas vozes nesta comunicação pop(ular)… Olha olha, são precisamente as línguas que aqui dialogam com o inglês! Podemos falar depois de reggaeton e trap, universos que não são coisa de berço em Madonna. Mas também o voguing não o era (tinha nascido bem antes entre espaços da cultura queer underground), mas foi com ela que ganhou outros patamares de visibilidade… Não será Madonna a timoneira do reggaeton nem do trap na pop atual. Mas assimila-os aqui no tempo certo e em canções onde a sua indentidade acaba por falar mais alto. E como outrora, o leme está novamente nas suas mãos.

“Madame X” não é um disco cheio de êxitos pop imediatos. E aqui há mais um desafio a assinalar. Se bem que eu mesmo tivesse torcido o nariz inicialmente, “Medellín” (com o colombiano Maluma) fez sentido como single de avanço… Mas, mesmo sem haver em todo o álbum um refrão como o dos seus clássicos pop dois oitentas e noventas, há aqui canções que podem escrever importantes episódios na sua história. “God Control” reativa uma antiga relação com o disco (que encontramos ainda em “I Don’t Search I Find”, aqui num registo que não esconde afinidades com o que ouvimos num “Deeper and Deeper”). “Future” (com Quavo, canção com cenografia dancehall) ou “Crave” (com Swae Lee) asseguram elos de ligação mais evidentes a uma linguagem pop atual e acessível… “Bitch I’m Loca” entorna algum azeite (novamente com Maluma), mas será irrestível em muitas pistas de dança, tal como o vai ser a assimilação e transformação de “Faz Gostoso”, de Blaya, agora ao lado de Anita. Vale a pena notar que a relação com a cultura latina está longe de ser coisa inédita em Madonna. “La Isla Bonita”… Ou “Pray For Spanish Eyes”?… Sim, houve já incursões anteriores. Mas nunca tantas num mesmo disco e capazes de entre si definirem uma marca de identidade de um tempo na sua obra.

Há depois momentos de cenografia mais elaborada, como “Extreme Occident” ou “Looking For Mercy” que deixam claro que, apesar do fulgor de uma comunicação global, há aqui um disco que pede ao ouvinte tempo, dedicação e uma predisposição para descobrir o que não possa ser imediato. Mas é nos já acima referidos “Batuka”, “Killers Who are Partying” e no belíssimo “Dark Ballet”, a canção formalmente mais desafiante de toda a discografia de Madonna – em cujas entranhas encontramos um pedaço, transformado, de um momento do “Quebra Nozes” de Tchaikovsky – que encontramos a alma mais rebelde de uma estrela pop que, aos 36 anos de discos, e com um historial de sucesso global, decide que nem tudo deve ser fácil e imediato. E eu agradeço. E é neste universo de propostas menos imediatas que reside o melhor do álbum. Um álbum que consegue mesmo assim encontrar uma unidade entre a diversidade. E parte desse cimento que tudo une está na palavra…

Se no plano estético encontramos em “Madame X” um disco formalmente complexo, aberto a um leque de referências tão diferentes como nunca antes havíamos escutado num mesmo álbum de Madonna, é na pulsação das palavras que se define um momento político que traduz uma voz crítica que não é apenas americana (apesar das evidentes referências na inclusão da voz de uma sobrevivente do recente massacre numa escola da Florida em “I Rise”) mas global. E aqui o facto de ter movido o centro gravítico do seu dia a dia para Lisboa acaba por ter um outro peso na forma como faz de “Madame X” uma comentadora deste tempo de todos nós. Madonna dá aqui uma vez mais à sua música uma voz política e, podemos mesmo dizer, ativista. Sempre o foi. Mesmo que muitas vezes o mundo se distraia. Mas esta é uma voz de causas e lutas. E, aos 60 anos, já somou em si tempo para saber bem do que fala.

“Madame X”, de Madonna, está disponível em vários formatos físicos em LP, CD, cassete e também nas plataformas digitais, numa edição da Maverick/Universal.

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1 Comment on Os desafios de Madonna na hora de vestir a pele de Madame X

  1. Geraldo César S Moreira // Junho 19, 2019 às 2:10 pm // Responder

    Interessante texto! Parabéns!
    A Lisboa – de onde começa a globalização nos fins do século XV/início do século XVI -, foi o local que inspirou Madonna a produzir o seu tão global, diverso e inovador “Madame X”.
    Viva Lisboa, Portugal, a Língua Portuguesa e o doce pastel de nata (será que a Madonna/Madame X gosta de comer essa delícia portuguesa? Eu amo!), e claro, viva Madonna!

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