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A vida de Steve Strange dava um filme…

Texto: NUNO GALOPIM

Numa altura em que se multiplicam os ‘biopics’ de figuras da cultura pop lembrei-me de Steve Strange, que, fosse vivo, teria agora completado 60 anos… Em 2002 publicou uma autobiografia que secundariza a música a que está ligado, mas que abre festas sobretudo interessantes no retrato dos bastidores da cultura pop britânica da segunda metade dos anos 70.

Steve Strange teria completado os 60 anos há poucas semanas. Um ataque cardíaco, durante uma viagem de férias no Egito, em 2015, levou-o numa altura em que vivia uma nova etapa de vida na música, embora sem o impacte nem a consequência da que o tornara célebre entre finais dos anos 70 e a alvorada dos 80. Resolvi tirar da prateleira uma autobiografia que Steve Strange publicou em 2002, mal imaginava ainda que os Visage teriam uma nova formação e que com eles faria novos discos e, pela primeira vez, daria concertos. O que nos conta então essa autobiografia?

O livro tem por título “Blitzed”, o que desde logo deixa clara uma alusão aquela que foi a maior contribuição de Steve Strange para a história da cultura pop: as noites “Bowie” (designação oficiosa, mas então muito usada) que decorreram no Blitz, um clube na zona de Convent Garden, entre 1979 e 1980, e que desenharam uma visão nova para a música pop na alvorada dos anos 80, recuperando por um lado o sentido de pose e sofisticação do glam rock (por reação ao punk) e, por outro, explorando possibilidades que a música de nomes como os Kraftwerk, The Normal ou o próprio Bowie entretanto lançavam, inventando um presente com gosto futurista. Os oitentas estavam a chegar e, perante um cenário de crise profunda que se vivia no Reino Unido, o desejo de escapismo encontrou ali uma saída possível. E assim Steve Strange entrou no mapa.

Como tantas autobiografias o livro começa por contar o era uma vez desde o início, pais e irmã e escola e mais alguma coisa… Muitas vezes estes relatos mais pessoais podem parecer mais interessantes a quem os conta do que a quem os possa ler. Mas “Blitzed” dá conta de uma infância moldada por confrontos entre uma personalidade nada normativa do jovem Steve Harrington e um pai violento do qual não terão ficado grandes memórias. Mais interessante, contudo, é o relato de uma juventude que desperta para outras possibilidades com o sucesso que Bowie conquista na sua fase glam rock, assim como o aprofundar da exploração da identidade que a revolução punk coloca em cena. Steve Strange conta então como foi entre bandas punk (e não faço spoiler) que teve a sua primeira experiência homossexual, assim como descreve um sistema de entreajuda que se estabelecia entre músicos e os que enchiam as plateias à sua frente. Não faltava nunca um sofá para pernoitar. E foi assim que Steve Strange deu por si entre nomes de proa do movimento, talhando desde cedo várias amizades, nomeadamente com Glenn Matlock dos Sex Pistols.

A mudança de Gales para uma Londres em ebulição punk e o aborrecimento que se desenhou quando Steve deu por si cansado do ambiente em voga gerou a vontade de criar uma banda diferente. O livro conta como nasceram então os The Photons, banda que então formou com Chrisie Hynde (sim, que depois formaria os Pretenders) e outros amigos, animada por uma vontade para ir para lá do punk. Viveram durante uma noite só (em 1978), num showcase em Covent Garden ao qual assistiram muitos figurões do panorama pop/rock de então. Entre eles estava Midge Ure, então a braços com dificuldades nos Rich Kids (banda na qual militava também Matlock). Tinha tempo de estúdio – dos Rich Kids – por usar e estava a montar uma nova banda, com outro som. Convidou Steve Strange para cantar e, nessas sessões, registaram três temas, entre os quais uma versão de “In The Year 2525” da dupla Zagger & Evans que, em 1983, surgiria num ‘best of’ dos Visage. Ou seja, a génese dos Visage está neste convite de Midge Ure…

No final de 1978, sublinhando mais ainda a vontade de criar alternativas ao panorama ao seu redor, Steve Strange dá por si entre a equipa que apresenta uma nova noite temática no Billy’s no Soho. Rusty Edgan assume o lugar de DJ… E entre os discos que passa estão as maquetes daquela sessão com Midge Ure e Steve Strange… O sucesso das noites temáticas, para as quais as pessoas de vestem exageradamente a rigor – e com política de porta decretada, sem dó, por Steve Strange – leva a que a banda que ainda não existia regresse a estúdio, agora com mais músicos (um deles era Rusty Egan, num coletivo que mais adiante juntaria elementos do Magazine, entre eles Barry Adamson, e dos Ultravox), gravando um novo single, “Tar”, que sai numa pequena editora que logo entra em colapso e, por isso, passa longe das atenções.


Os Visage em 1980

O impacte das noites – que entretanto migram para o Blitz – e atraem o próprio Bowie (que ali vai buscar os figurantes para o teledisco de “Ashes to Ashes”, entre os quais está o próprio Steve Strange) chama a atenção da Polydor que, entretanto, dá aos Visage um acordo editorial que rapidamente se transforma na gravação de um primeiro álbum (“Visage”, 1980), apresentado pelo single “Fade To Grey”, que então se transforma num êxito de dimensão internacional, representando de certa forma, a confirmação da vitalidade do movimento que ali estava a nascer. É o produtor dos Spandau Ballet quem então usa a expressão new romantic. E a coisa pega…

O que estava a ser um relato empolgante dos bastidores da emergência de um movimento que tanto devia a ecos da memória do glam rock como a um desejo de reação ao punk (mas que sem ele nunca teria acontecido) dá, a partir de então, lugar a um relato mais desinteressante de viagens, roupas, noitadas… O próprio Steve Strange confessa que não gostava de estar em estúdio, cabendo a Midge Ure a condução dos acontecimentos musicais. Steve sublinha mesmo que gostava de chagar, gravar as vozes, e seguir para a festa seguinte… Por isso mesmo a “Blitzed” falta qualquer discurso sobre o processo criativo nos Visage ou até mesmo qualquer reflexão sobre a sua música. Há mais memórias de telediscos do que de discos, tanto que Steve trata “The Damned Don’t Cry” como sendo o terceiro single dos Visage quando, na verdade, é o quinto… Conta “Fade To Grey” e “Mind of a Toy”… Isto apesar de antes ter referido “Tar” (era fraquinho nas contas, está visto). E esquece mesmo “Visage”, extraído do álbum de estreia e lançado em single em 1981… As mais interessante das histórias dos dois primeiros álbuns dos Visage é a da caríssima sessão fotográfica para a capa de “The Anvil” (e do single “Damned Don’t Cry”), feita no Hotel Georges V em Paris, contando com diversos modelos contratados e com o fotógrafo Helmut Newton… Custou 175 mil libras. Soma que representou um primeiro revés num momento em que o sucesso de 1980 e 81 não se estava a repetir.


Steve Strange na foto da capa de “The Anvil”

Steve Strange relata o desentendimento com Midge Ure que conduziu à saída deste (e consequente mergulho dos Visage num abismo musicalmente inconsequente). Sabe a pouco o contar da história do single de 1983 “Pleasure Boys” (o primeiro sem Midge Ure) e do álbum de 1984 “Beat Boy”… Assim como fica pela rama a história dos Strange Cruise, a banda que Steve Strange forma depois dos Visage e que morre ao álbum de estreia, lançado em 1986.

A música é o elo mais fraco na narrativa de Steve Strange, que parece sempre mais focado em falar do que acontece ao seu redor. “Blitzed” ganha novo fulgor quando ele mesmo relata o seu mergulho nos abismos da toxicodependência, o furto que o leva a tribunal e o casamento “falso” que tanto deu que falar… É particularmente dramático o momento em que conta como, depois de anos de festas, viagens e glamour, dá por si na fila para o subsídio de desemprego ao regressar a Gales… Relato na primeira pessoa, sugere mesmo assim a vida de alguém que optou sempre por nunca desistir. Tentou renascimento atrás de renascimento, mais como organizador de festas e clubes noturnos do que como músico.

A biografia foi lançada em 2002, ano em que tenta recriar os Visage com uma nova formação (que acaba por dar em nada)… Fica assim de fora destas páginas a história do regresso mais sólido que acontece em 2013, embora musicalmente incapaz de acrescentar o que seja ao melhor da sua obra. História trágica… Dava um filme…

“Blitzed”, de Steve Strange, é um volume de 197 páginas em capa dura publicado em 2002 pela Orion.

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