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A geração que pode ajudar a salvar o mundo de uma perigosa encruzilhada

Texto: NUNO CARVALHO

Criada por Sam Levinson (filho do realizador Barry Levinson) e tendo o canadiano Drake como produtor executivo, “Euphoria” tem na antiga estrela da Disney Zendaya o seu centro de gravidade. Sem exageros de complexidade, a série retrata o mal-estar da geração Z numa era de alta ansiedade.

Não é uma série televisiva de “série Z”, bem pelo contrário, mas a letra z é uma espécie de signo em Euphoria: Z de Zendaya (como é tratada no meio a muito talentosa atriz de 22 anos que interpreta a protagonista) e Z de geração Z. A primeira geração a nascer já no mundo global e digital, da internet e das redes sociais, e que abarca aproximadamente aqueles que nasceram entre 1995 e 2010 (muitos já só conheceram o mundo pós-11 de Setembro). Mas, em Euphoria, o que Z de todo não significa é zen. Porque se há coisa que este teen drama não é, apesar de o título ser também irónico e cínico (há mais disforia do que êxtase, sobretudo na personagem de Zendaya), é sobre miúdos calmos, bem-comportados e protegidos por redomas. Se, ao contrário da geração dos baby boomers (nos anos 50), que se definiu por oposição aos pais, a geração X (e também os “xennials”, a dos nascidos entre o final dos anos 70 e o início dos 80) é conhecida pela geração que cresceu já de costas voltadas para os pais, então, no caso dos millennials e da geração Z, já nem conseguimos, muitas vezes, distinguir um aluno do secundário de um universitário, tal é a precocidade da entrada numa vida que mimetiza a adulta e em que a vivência da sexualidade – fundamental na adolescência – se dá sob um novo paradigma (definido pelas dating apps e pela forma descomplexada e natural de encarar o sexo, moldada pelo fácil acesso à pornografia, num processo de democratização do desejo nunca antes visto).

O mundo corre hoje a uma velocidade tão vertiginosa que até já se diz que os millennials envelheceram e os novos jovens são os da geração Z. A santíssima trindade do hedonismo “sexo, drogas e rock’n’roll” foi substituída por “sexo, drogas e revolução digital”. E o que pode esperar-se de Euphoria é, usando o eufemismo, um retrato intenso e duro do que é ser adolescente hoje na América – a América de Trump, onde o acesso a todo o tipo de drogas é fácil e onde parece que toda a gente se droga, seja com químicos ilegais ou de farmácia, obtidos com e sem autorização médica, apesar de o disruptivo inquilino da Casa Branca ter declarado a intenção de enfrentar a epidemia dos opioides. Como diz Rue Bennett (Zendaya), a sensível mas também muito resiliente miúda de 17 anos que é o eixo central da série: “Apareci um dia sem um mapa ou uma bússola ou, francamente, sem ninguém capaz de dar um bom conselho. E sei que parece triste, mas sabem que mais? Não fui eu que fiz o sistema, nem o lixei.” Talvez esta seja enfim a geração que vai conseguir responsabilizar os adultos por terem criado um mundo insano e terem deixado os seus filhos ao deus-dará para se defenderem sozinhos.

Criada por Sam Levinson (filho de Barry Levinson, que realizou filmes como Rain Man ou Bugsy) a partir da série homónima israelita da autoria de Ron Leshem e Daphna Levin, Euphoria inspira-se no passado de toxicodependência de Levinson, que afirmou em entrevista à Variety ter passado a maior parte da sua adolescência entre hospitais e centros de reabilitação. E a personagem de Rue é essencialmente o próprio Sam, como revelou Zendaya à Vogue. Houve quem tivesse ficado espantado por a HBO apostar numa série dirigida a uma faixa etária tão jovem e mais suburbana, entendendo-a como uma resposta concorrencial a séries da Netflix como Elite, Riverdale ou Por Treze Razões. Com o músico canadiano Drake como produtor executivo, Euphoria tem oito episódios (cinco deles dirigidos por Sam Levinson) e o mérito de ser baseada em experiências reais vividas pelo realizador.

Mas há quem a acuse de traçar um retrato demasiado pesado e exagerado de uma geração. Há já grupos de pais a exigir que a HBO retire do ar a série por ser demasiado gráfica no tratamento que faz de temas como o uso de drogas, a violação, o revenge porn, a transexualidade, etc. Houve até quem ficasse chocado por, no segundo episódio, haver uma cena num balneário masculino em que, segundo a The Hollywood Reporter (que se deu ao trabalho de contar), podem ser vistos 30 pénis.

A grande força de Euphoria é, sem dúvida, Zendaya, a antiga estrela da Disney que aqui faz uma interessante transição na linha da que aconteceu com a sua amiga e ocasional parceira de trabalho Bella Thorne. O conflito de Rue reflete a encruzilhada em que se encontra hoje o mundo: oscila entre a ansiedade que a faz viver no limite, como se estivesse sempre à beira de um burnout parcial (“I’m just fucking exhausted”, diz Rue à mãe), e a segurança e o silêncio interiores momentâneos induzidos por drogas sintéticas. O medo e o delírio de Rue e as atribulações de um grupo de estudantes do secundário num subúrbio de Los Angeles, num mundo que parece cada vez mais carregado de ódio e narcisismo perverso, tornam Euphoria umas das séries do momento. A geração Z talvez venha acabar com a eventual ingenuidade dos millennials.

“Euphoria” está disponível na HBO Portugal

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