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Sinais de alerta… antes que seja tarde demais

Texto: NUNO GALOPIM

Uma minissérie de cinco episódios produzida pela BBC e a HBO imagina a história de uma família inglesa nos próximos 15 anos. Na verdade a trama serve sobretudo para nos fazer pensar sobre os caminhos que a política, a sociedade e o ambiente podem tomar se não houver bom senso na hora de escolhermos quem nos lidera.

A ficção científica não é uma arte divinatória. Não é de todo o seu objetivo o “adivinhar” daquilo que o futuro nos guarda. Algo completamente diferente é a criação de espaços de reflexão e alerta sobre possibilidades, nem sempre as mais coloridas e sorridentes… E podemos evocar casos como o “1984” que Orwell publicou em 1949 ou a visão de uma democracia transformada num pesadelo teocrático que Robert A. Heinlein revelou no seu conto “If This Goes On”, de 1940… E hoje tanto sabemos o que é a realidade de uma sociedade vigiada, tal como temos exemplos de estados em que a fé deixa de ser uma demanda livre e pessoal para se manifestar como uma implacável fonte de regras (muitas vezes com as piores consequências (e não é preciso dar exemplos, basta ler as notícias). O mundo por vezes imita bem de mais os piores cenários imaginados pela ficção. E não foi por isso de estranhar que, pouco depois da eleição de Donald Trump, um velho romance de 1935 que imaginava os EUA transformados numa ditadora depois da vitória eleitoral de um populista (“Isto Não Pode Acontecer Aqui” de Sinclair Lewis) tal como ganhou grande visibilidade (e prémios) o mais recente “2084 – O Fim do Mundo”, do argelino Boualem Sensal, que imagina, para o século XXI, o nascimento de um império dominado por uma ditadura religiosa. Parecem exageros impossíveis? Talvez não… Ninguém acreditava que o partido de Hitler alguma vez chegasse ao poder quando, depois de proibido após o putsch em Munique em 1923, foi novamente legalizado dois anos depois. Numa era polarizada por uma evidente divisão da sociedade em dois grandes modos de pensar, num mundo injusto habitado por frustrações, num tempo de iras fáceis e ódios arrebanhados online, os extremismos têm adubo como nunca antes… Alertar não faz mal, antes pelo contrário. Alertar antes que seja tarde mais. É o que faz “Years and Years”, uma minissérie de cinco episódios produzida pela BBC e a HBO que imagina o percurso de uma família britânica entre o presente e o ano 2034.

Usando um dispositivo narrativo centrado nas histórias dos elementos de uma família e as suas relações, “Years and Years” pode até sugerir o tom de uma telenovela… Mas a semelhança é apenas uma aparência já que todos os factos e comportamentos pessoais não são mais do que eco de uma relação das personagens com o cenário em seu redor. E esse é espelho de uma evolução histórica que imagina um caminho político e social para o Reino Unido, a Europa e o resto do mundo sob sucessivas tempestades de acontecimentos problemáticos. E estes tanto são do foro político (imaginado uma evolução nada meiga para a Europa), social (com um quadro bem negro para a relação com migrantes que lembra comportamentos de regimes xenofóbicos como o nazi) ou até ambiental (sugerindo, e aqui sem ser precisa muita imaginação, uma progressiva degradação da casa em que todos habitamos). Nem tudo são desgraças, revelando a trama uma fé no engenho humano ao colocar em cena progressivas criações tecnológicas que ajudam também a caracterizar os futuros aqui imaginados. É claro que o foco central do cenário tem geografia britânica e no epicentro do clima distópico instalado está o surgimento e sucesso de uma líder populista (interpretada por Emma Thompson) que, afinal, tem mais que se lhe diga face à aparente vizinha do lado que aparenta ser. Mais um alerta, claro… E não faltam na história do mundo episódios em que muitos lobos vestiram, a dada altura, outras peles e enganaram rebanhos inteiros.



“É tudo culpa nossa”, diz a avó que cruza a trama como o mais forte agregador de uma família na qual acabam por estar representadas figuras que refletem os grandes conflitos políticos e sociais que “Years and Years” procura retratar. Uma história de família com temperos do quotidiano mas nuvens densas de distopia em volta, “Years and Years” parece contudo assustadoramente real e possível. Não revela o primor na realização de um “Chernobyl”. Mas pode estimular a reflexão e o debate. E uma reflexão ainda pode valer mais do que o ribombar de um tweet zangado. Isto enquanto a mente humana conseguir pensar sobre mais do que 140 caracteres de cada vez…

“Years and Years” está disponível na HBO Portugal. Hoje é editado, no Reino Unido, um DVD duplo com os cinco episódios da série.

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