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Quando David partiu em busca de… Bowie

Texto: NUNO GALOPIM

A terceira caixa de maquetes de David Bowie gravadas em modo ‘caseiro’ entre 1968 e 1969 corresponde a uma fita de apresentação à editora do álbum que hoje é conhecido como “Space Oddity”. Estão aqui canções desse disco e também outras que por aqueles dias ficaram de fora. E entre elas encontramos algumas preciosidades nestas versões para apenas voz e guitarra.

Entre 1964 e 1967 David Bowie (na verdade a início assinado ainda como David Jones) lançou uma sucessão de singles (nove no total) e um álbum com diferentes formações de músicos e distintas orientações musicais mas com algo em comum: todos os discos foram absolutamente ignorados. Chegou por isso a 1968 com a necessidade de pensar um futuro diferente caso o sonho de fazer carreira na música ainda o motivasse depois de tanta frustração acumulada. E o ano foi de facto vazio em discos mas cheio de mudanças. Poe um lado Lindsay Kemp chamou-o para colaborações depois de se aperceber das suas potencialidades performativas, sobretudo como mimo (nasce aí a relação de Bowie com a figura do Pierrot que usaria mais tarde, assim como um aprofundar das suas capacidades de cruzamento do corpo com a música e o palco). Esse é ainda o ano da sua estreia como ator em frente de câmaras com um pequeno papel (não creditado) num episódio da série “Theatre 625” da BBC. Nesse entram ainda novos colaboradores em cena, nomeadamente Hermione Farthingale (com quem tem um caso) e John ‘Hutch’ Hutchinson. E a três trabalham por uns tempos como Feathers…

Datam de 1968 maquetes de trabalho que refletem uma demanda de novos caminhos pelos quais Bowie ensaia visões de futuro para a sua música. E uma das maiores fontes de novidades editoriais de 2019 tem sido a sucessão de caixas (em vinil) nas quais temos reencontrado o ambiente de gravações caseiras onde estas maquetes começaram a ganhar forma. E depois de “Spying Through a Keyhole” e “Clareville Grove Demos”, ambas apresentadas na forma de uma coleção de singles de sete polegadas, eis que surge em “The Mercury Demos” o mais apetitoso conjunto destes três lotes já revelados de gravações “caseiras”. E para já o termo “caseiro”… Se é certo que os primeiros dois sets acima referidos foram gravados em casa – o segundo tem mesmo por título uma referência ao apartamento que Bowie então tinha em Clareville Grove – já estas gravações são de localização menos precisa. A única indicação precisa nas liner notes fala em “Londres, 1969” mas John Hutchinson refere que, de todos os lugares por onde Bowie então ia ficando (e passou por várias moradas em 1968 e 1969) apenas na casa de Clareville Grove havia um gravador Revox. Contudo, estas gravações podem ter ocorrido num escritório da Mercury Records, a editora que se preparava para acolher no seu catálogo um segundo álbum de David Bowie… Certo mesmo é que não se tratam de gravações de estúdio e, além das canções, escutamos aqui a voz de Bowie e a de Hutch a referir não apenas o que estão a gravar mas também o facto de terem um mau gravador, ocasionalmente, juntando alguns dados de contextualização.

Ouvir esta gravação, agora arrumada no formato de LP (e também disponível nas plataformas digitais) é como mergulhar naquele momento. É como se estivéssemos ali desde o momento em que é premido o botão “REC” e a gravação arranca, com pausa para virar a fita e logo a coisa recomeça. Em tempo real… E o que escutamos é, simplesmente, a apresentação – feita para a nova editora – das novas canções que poderão rumar ao álbum, deixando no ar a necessidade de se escolher um single. Apesar das características folksy que se escutam nas maquetes – e mais tarde no álbum – Bowie deixa claro, já no fim da gravação, que a ideia de ter voz e guitarra apenas não corresponde de todo ao som imaginado. E ali deixa claros que tipos de instrumentos, sublinhando concretamente um gosto pelo mellotron e a necessidade de ter um bom baixista.

A escolha do single não foi difícil e corresponde logo à primeira canção do alinhamento. Composta em finais de 1968 (depois de ter como estímulo o filme “2001: Odisseia no Espaço” de Kubrick), “Space Oddity” surge aqui numa maquete com forma bem moldada, pronta a rumar a uma abordagem mais complexa em estúdio. E de facto é entre o restante alinhamento que encontramos ou composições de Bowie que ficaram por aqueles dias pelo caminho como “Conversation Piece” (que surgiria num lado B em 1970 e mais tarde integrou as sessões do ainda inédito “Toy”) ou “When I’m Five” (que surgiria no filme “Love You Till Tuesday” em 1969 mas apenas muito mais tarde em disco) ou canções que rumariam em versões bem diferentes para o alinhamento do disco lançado em 1969 como “David Bowie” mas que hoje é habitualmente referido como “Space Oddity”. “Janine”, por exemplo, inclui ainda aqui uma citação a “Hey Jude” dos Beatles que seria excluída na versão final. “A Letter To Hermione” é apresentada numa versão ainda com o título “I’m Not Quite” e o mais complexo “Cygnet Comitee” surge numa abordagem de linhas ainda simplificadas sob a designação “Lover To The Dawn”. Mais perto da versão final do álbum está “An Ocasional Dream”. A fita guardava ainda uma interpretação a dois de “Ching a Ling” que nascera com os Feathers. Assim como duas versões. Uma é de “Love Song”, de Lesly Duncan (que trabalhava com Scott Walker), que integrava também o repertório dos Feathers e da qual Elton John gravou uma versão no álbum de 1970 “Tumbleweed Connection”. A outra é “Life Is a Circus”, de Roger Bunn (da banda de folk prog Djinn cujo vocalista se oferecera para trabalhar no álbum de Bowie mas acabara rejeitado). A canção integrou alinhamentos dos Feathers mas só em 2019 surgiu pela primeira vez em disco na caixa “Clareville Grove Demos”…

A clareza da voz, a visão na composição e o incrível diálogo com a guitarra (e também canto) de John Hutchinson – cuja colaboração terminaria pouco depois – fazem deste episódio um momento de descoberta de luz rumo ao momento que mudaria o rumo da sorte na vida artística de David Bowie. Mesmo longe de ser uma gravação hi-fi esta fita – agora transformada em álbum – é não apenas uma preciosidade de arquivo mas também um prazer para quem a escuta. Se os dois ‘sets’ de maquetes já antes lançados este ano revelavam sobretudo uma oportunidade para espreitar a demanda criativa de Bowie, através do buraco da fechadura, este conjunto sugere um prazer que não é apenas para arquivista. E surge num pack que mimetiza a caixa de uma fita magnética, incluindo reproduções de provas de contacto de uma sessão de Bowie e Hutch, uma imagem “escolhida” e liner notes (que incluem a transcrição dos diálogos gravados) reproduzidas como se fossem papéis escritos à máquina por aqueles dias.

“The Mercury Demos”, de David Bowie com John ‘Hutch’ Hutchinson, está disponível em LP e nas plataformas digitais numa edição da Parlophone/Warner.



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