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“Variações”: a história de uma nova revista sobre música… em papel

Texto: NUNO GALOPIM

A “Variações” é uma nova revista sobre música que podemos encontrar em papel numa rede de livrarias e lojas de discos em vários pontos do país. Quer “um jornalismo musical que fale a quem quer descobrir, ouvir e conhecer”. E fomos conhecer melhor esta aventura e quem a faz viver.

A música tem um novo espaço de jornalismo em papel. É a “Variações”, uma pequena revista mensal, com 20 páginas impressas a cores que, depois de um número zero lançado em abril, vai já no nº 3 que tem os Cassete Pirata na capa e dedica atenção a nomes como Lena d’Água, Tainá, Luís Severo e junta não só uma agenda de concertos (destacável) como um olhar sobre outros festivais no mapa deste verão e ainda a secção regular de críticas de discos (quatro a cada número).

A “Variações” tem uma equipa redatorial, fotografia própria e ilustração. E nos seus números anteriores publicou já entrevistas e artigos sobre, entre outros, os D’Alva, Sallim, Benjamim, Palmers, Manel Cruz, First Breath After Coma, Dino d’Santiago, Vaarwell, os festivais da Canção e da Eurovisão e, naturalmente, António Variações. No Manifesto, que lança a “Variações”, pode ler-se que o coletivo que se juntou para fazer a revista é “o resultado de um Portugal onde a música cresce a passos largos e merece cada vez mais atenção” e quer lutar: “pela divulgação da nova música portuguesa porque não a queremos ver morrer no silêncio dos meios de comunicação” e “por um jornalismo musical que fale a quem quer descobrir, ouvir e conhecer”. E o texto de apresentação remata a afirmar o desejo de evitar “um Portugal onde a música de que se fala seja sempre a mesma”.

Teresa Colaço dirige esta publicação. E falámos com ela para compreender os porquês de uma aventura em papel que surge numa altura em que as tendências rumam sobretudo ao digital…

Porquê uma publicação em papel e não apenas um novo espaço de jornalismo musical ‘online’?
No fundo, por embirração. Cresci a ler revistas de música e sempre tive um carinho pelo objeto físico, o poder folhear, levar comigo para qualquer lado, etc. Desde o início quis que fosse em formato físico e muita gente me alertava que não fazia sentido, que as revistas estão morrer. Mas ver a minha geração a redescobrir o vinil, a comprar gira-discos e a lançar cassetes deu-me fundamento para achar que não seria a única a querer voltar a um formato que hoje se diz moribundo. Claro que fazer uma revista em papel não é nada fácil, e nem sabíamos bem como o fazer (ainda estamos a aprender, na verdade), mas tem sido um desafio muito bom.

Foi difícil chegar ao título da revista?
Quando o projeto existia só na minha cabeça – durante cerca de três anos – sim, era um dos meus maiores entraves. Mas quando juntei uma equipa foi muito rápido. Foi a Joana Rodrigues (que fez o site, fotografa, escreve e faz ilustrações) que sugeriu e toda a gente gostou logo muito.

Como constituíram a equipa?
Inicialmente estava convencida de que não tinha capacidade de levar isto para a frente porque achava que não conhecia ninguém disposto a entrar no barco. Só que a certa altura estava tão farta de não conseguir avançar que lancei um pequeno apelo – no Twitter primeiro, depois nas outras redes -, e para minha surpresa tinha muitos amigos dispostos a juntar-se ao projeto. Alguns antigos colegas de curso e faculdade, mas muita gente que fui conhecendo em concertos e nas redes sociais exatamente por gostarmos do mesmo tipo de música. Por causa disso, a equipa tanto tem malta formada em Jornalismo ou que o está a estudar, ou malta que estudou Fotografia, Design, etc, como Engenheiros Físicos ou Mestres em Matemática, com uma média de idades aí nos 23 ou 25 anos. Desde então alguns leitores da revista também já se juntaram, o que é muito giro.

O projeto é financeiramente suportável?
Não, ainda não. Quero pensar que é a nossa falta de experiência e conhecimento que ainda não nos permitiu chegar a esse ponto em que ela se pague a ela própria. Aliás, vamos passar de mensal a bimestral também por causa disso. Acho que ainda agora começámos e ainda temos muita margem para experimentar e descobrir a fórmula que resultará melhor.

Há uma rede de livrarias e lojas que aderiram à ideia de ter a revista à venda. Como chegaram a este modelo?
Sabia que era preciso ter a revista em lojas para que pudéssemos chegar a mais gente. Então fui procurar lojas de discos e livrarias independentes e perceber em quais fazia mais sentido estarmos presentes. Depois foi ir bater às portas e apresentar a ideia. Salvo uma ou duas onde não era possível estarmos, todas nos têm recebido muito bem. Estamos em Lisboa, Porto e Caldas da Rainha mas gostávamos de estar em mais sítios. Aliás, o sonho era estar um pouco por todo o país, em várias lojas do género que existam em cada cidade, mas ainda não temos essa capacidade de distribuição.

Porque centram o maior foco de atenções editoriais nos universos da música portuguesa?
Eu cresci a ouvir muita música e a ler sobre muita música mas raramente essa música era feita cá e, quando era, já tinha sido feita há 20 ou 30 anos. Só quando fui estudar para Lisboa e me juntei à rádio da universidade é que me apercebi de que havia todo um universo que me tinha escapado. Um dia, os meus colegas voltaram loucos de um concerto no átrio do São Jorge e eu nunca tinha ouvido falar de nenhuma daquelas bandas ou artistas. Tinham sido Os Lacraus com o Samuel Úria e Os Pontos Negros. A partir daí comecei timidamente a descobrir tudo o que estava a acontecer e senti que havia algo de muito especial. Foi nessa altura que me zanguei. Fiquei triste que tanta música boa a ser feita a 80km da minha terra nunca me tivesse chegado. E comecei a querer fazer mais por ela. Até que depois dos estudos chego ao estágio e me dizem, sobre uma notícia relativa a uma banda portuguesa, que “não vale a pena publicar isso porque não vai ter cliques”. A partir daí torna-se óbvio, para mim, de que era urgente fazer alguma coisa para que se alterasse o paradigma. Felizmente, nos últimos anos, tem havido um “boom” ótimo no panorama musical em Portugal, com uma data de movimentos a surgir, sejam editoras, promotoras, circuitos de salas de concertos (mais fora das grandes cidades) e, claro, imensos novos artistas a fazer coisas muito diferentes e com muita qualidade. Pensar que tudo isto pode esmorecer ou nem sequer chegar a grande parte da população do país entristece-me, e faz-me querer tentar fazer alguma coisa. Sei que uma “zine” de 20 páginas não vai mudar o mundo, mas ao menos não fiquei calada.

Que critérios usam para definir quais vão ser os temas a abordar a cada novo número da “Variações”?
O critério base é sempre a pertinência. Depois, entram os nossos gostos e, muito importante, a disponibilidade das pessoas. Por sermos ainda muito pequenos só conseguimos chegar até certo sítios. Tentámos ter a Lena d’Água na capa, todos queríamos imenso porque mais ninguém a pôs na capa e nós, os miúdos, queríamos dar-lhe esse destaque, mas a Universal não quis nada connosco. Isto de ser independente e DIY, com a nossa inexperiência e ingenuidade, faz com que tenhamos também limitações acrescidas. Mas de resto, falamos do que gostamos e achamos que merece ser falado.

O que tem a revista de semelhante e/ou de alternativa ao jornalismo musical dos jornais e revistas ‘mainstream’?
Acima de tudo, o facto de ser feito por jovens que não se revêem nesse jornalismo. Depois, o facto de darmos prioridade à música portuguesa, o que não vemos acontecer nos outros meios. Claro que os lemos e acompanhamos e que são referências para nós, mas vemos as suas opções editoriais muitas vezes com alguma vergonha. A verdade também é que no mainstream existem pressões que nós não temos, os tais cliques e etc. O bom de sermos um projeto independente é que temos essa liberdade de falar daquilo que queremos e não focarmo-nos só naquilo que “vai vender revistas”. Acho que estamos a caminhar para um mundo de nichos e se pudermos ser uma referência no nicho da música portuguesa, ótimo. Também há aqui uma questão um bocado de “guerrilla”, porque não nos é dada a oportunidade de participar nesse jornalismo. Portanto somos obrigados a criar o nosso próprio cantinho.

A “Variações” pode ser encontrada nas em algumas lojas. Lisboa: Flur Discos, Tigre de Papel e Distopia. Caldas da Rainha: Gold Velvet. Fafe: Café Avenida. Porto: Flâneur, Porto Calling e Matéria Prima.

A revista pode também ser encomendada através do e-mail geral@revistavariacoes.pt.

Site Oficial: https://revistavariacoes.pt

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