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D.A. Pennebaker e as histórias que se contavam por si mesmas

Texto: NUNO GALOPIM

Morreu, aos 94 anos, o realizador norte-americano D.A. Pennebaker. Filmou Kennedy como candidato. Mas fica na história sobretudo por filmes marcantes que documentaram etapas históricas nas carreiras de Bob Dylan, David Bowie e dos Depeche Mode.

Não se conta a história das imagens da música sem passar pelo brilhante “Dont Look Back” (sim, sem o apósrofo), o filme que acompanha de perto – na medida da teatralidade possível – a digressão britânica de Bob Dylan em 1965. Não se conta a história de uma das maiores figuras da história da música sem aquele filme que documentou o momento em que ele mesmo (Bowie) resolveu anunciar, em palco, a morte de Ziggy Stardust. E para que a geração seguinte não ficasse fora dos retratos, há que juntar a este grupo de obras de referência o não menos marcante “101”, filme que retratou o final da digressão norte-americana dos Depeche Mode de 1987 e 88 e que juntou ao ambiente dos concertos uma viagem, em paralelo, de um grupo de fãs naquilo que podemos entender como expressão possível do que seria depois o modo de “ver” da reality TV… Todos estes filmes têm algo em comum: D.A. Pennebaker. E bastava um deles para o inscrevermos na história da relação do cinema com a música. Morreu, aios 94 anos.

Donn Alan Pennebaker, nascido em Evanston, no Illinois, em 1925, era filho de um fotógrafo e estudou engenharia. Chegou mesmo a ter uma primeira vida profissional antes de juntar essas duas heranças. A das imagens. E a da arte de pensar como fazer o quê. Quando começou a filmar, em 1953, foi logo a música quem falou mais alto, num pequeno filme que usava a música de Duke Ellington para observar uma estação de metro que ia ser demolida. O know how de engenharia ajudou-o a chegar a modos de tornar a câmara de filmar mais leve e, consequentemente, mais fácil de manejar e rápida a reagir. D.A. Pennebaker está por isso entre os fundadores do chamado “direct cinema”, registo marcante no cinema documental na viragem dos anos 50 para os 60 e que tem uma referência em “Primary” (filme sobre as primárias das presidenciais americanas de 1960), no qual ele foi montador e Albert Maysles um dos diretores de fotografia.

Conta a mitologia que foi um filme sobre o cantor de jazz Dave Lambert (que morreu tragicamente pouco depois de captadas as imagens) quem chamou a atenção de David Grossman, o manager de Dylan que então chamou Pennebaker para os acompanhar numa ida ao Reino Unido em 1965. Nasce daí “Dont Look Back”, perfeito exemplo da linguagem documental do realizador, acompanhando, aparentemente invisível, Dylan entre viagens de carro e comboio, encontros (por vezes bem vivos) com jornalistas, momentos de camarim e atuações em palco. Joan Baez, Dononan, Allen Ginsberg ou uma discreta Marianne Faithfull passam pelo mundo de Dylan, que se mostra sempre vestindo a rigor a persona pública que então desenvolveu na qual há tanto de humor e inteligência como um certo exibicionismo e por vezes até alguma arrogância. A sequência de abertura mostra Dylan a apresentar cartões com excertos da letra de “Subterranean Homsisck Blues” naquilo que podemos identificar como o primeiro passo na história do “lyric video”.

“Ziggy Stardust: The Motion Picture” surge numa altura em que Pennebaker é já um nome consagrado no mundo da música, não apenas pelo filme sobre Dylan mas também pelo documentário sobre o Festival de Monterey em 1968. Filmado a 3 de julho de 1973 no (então) Hammersmith Odeon, em Londres, este é mais um filme-concerto da noite de encerramento da digressão que consagrara a popularidade de Bowie e da figura de Ziggy Stardust. Além da “morte” do alter-ego o filme observa também o ambiente, tendo depois sido claramente citado em algumas cenas de “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes, que assim confirmou o poder icónico destas imagens. O filme teve uma gestação difícil e passou por um longo processo de pós-produção. E foi tão longa a espera que “Ziggy Stardust: The Motion Picture” só chegou às salas de cinema em 1983, já a música de Bowie caminhava ao som de “Let’s Dance”.

Hoje sabemos que se deveu à Music For The Masses Tour, dos Depeche Mode, o momento de adesão do público norte-americano à música da banda (e consequentemente a uma elevação a outro estatuto de popularidade da pop eletrónica). E foi também ali que a assimilação de vivências de culturas dos EUA – dos blues ao gospel e mais além – chegou aos músicos que, logo depois, estariam a cruzar essas aprendizagens com a sua identidade, surgindo assim novas etapas na sua obra. O melhor retrato que temos desses momentos coube também a D.A. Pennebaker. Em palco, entre os músicos dos Depeche Mode, mas também entre aqueles que correram estrada para os ver em concerto, “101” mostra como, mesmo na era do teledisco e de outra relação mais intensa (porque mais presente na televisão) das imagens com a música pop, a linguagem documental do realizador continuava a descobrir modos de contar uma história através da observação e, claro, do modo como a montagem depois molda a narrativa.

Será injusto reduzir a obra de Pennebaker a estes filmes. Fez muitos mais, até sobre música. Mas poucos autores de documentários conseguiram um feito desta amplitude. O de juntar na sua filmografia títulos sobre Bob Dylan, David Bowie e Depeche Mode. Três nomes fulcrais que ajudam a explicar três décadas (e não só)… Nada como voltar a ver estas imagens. Parece um cliché dizer que falam por si… Mas a verdade é que falam mesmo… Ou não tivesse sido essa a chave do sucesso da comunicação de Pennebaker.

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