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Um coelho persistente que quer sonhar com o verão

Texto: NUNO GALOPIM

O quinto álbum do projeto Sleep Party People – aventura de um homem só do dinamarquês Brian Batz – não deixa para trás o seu habitual livro de estilo ‘dream pop’ mas apresenta um conjunto de belas canções para escutar num final de tarde de verão.

Na era da pop global as anotações de detalhe no cartão de identidade de cada músico (a nacionalidade, neste caso) começam de facto a ser pouco mais do que um elemento de curiosidade. E neste caso a coisa é no patamar: ah, é dinamarquês… E a coisa segue em frente sem necessidade de juntar ingredientes de geografia ou de vizinhanças no discurso. Porque, na verdade, são peças a que o som não liga. Porque em nada há na música do projeto Sleep Party People uma vontade de jogar com os valores mais agarrados ao chão pelo qual se fazem hoje algumas das ideologias mais conservadoras em solo europeu.

Quem é? Ele chama-se Brian Batz, gosta de se apresentar com uma máscara de coelho sobre o rosto, moldou o seu gosto através de afinidades com nomes que vão da música de um Eric Satie às imagens de um David Lynch (e, claro, de “Donnie Darko”) e edita através do nome Sleep Party People há já dez anos, tendo em 2010 lançado o seu álbum de estreia. Caminhou até aqui entre trilhos dream pop, por vezes um pouco em registo pão sem sal. E de facto só no seu quinto álbum, ao qual chamou “Lingering Pt 2” juntou uma coleção de canções capazes de cativar atenções para lá dos habitualmente convertidos a estes campos do som.

O disco é já de 2018, mas ainda está dentro do prazo de validade. Apesar do “parte 2” apresenta um conjunto de canções bem mais cativantes do que em qualquer dos seus álbuns anteriores. Começa com melancolia à la Satie em modo século XXI com “4th Drawer Down”, canção que lembra os discos mais viçosos de um Maximilian Hecker. E depois avança por uma pop luminosa mas mesmo assim sempre melancólica. A voz aguda, as eletrónicas, as guitarras (ingredientes chave na demografia dream pop) já habitavam os seus discos anteriores. Mas são canções como “The Mind Still Travels”, “Outcast Gathjerings” ou as mais otimistas “The Fallen Barriers Parade” e “Echoing Childhood” que podem agora transportar uma música que parece estar a vencer o universo sombrio do quarto onde nasceu para se aventurar pela luz do dia. E, já agora, para servir aquele fim de tarde de verão, com mar pela frente.

PS. Uma dica ao rapaz-coelho, caso leia o português: as capas são horrendas, pá!

“Lingering Part II”, de Sleep Party People, está disponível em LP e nas plataformas digitais numa edição da A Joyful Noise Recordings

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