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O desempregado, sentado no sofá, a ver o tempo passar

Texto: MARIA JOÃO CAETANO

Dois livros que retratam o Portugal de hoje têm como protagonistas um desempregado: ‘As Primeiras Coisas’, de Bruno Vieira Amaral, e ‘O Tempo Morto é um Bom Lugar’, de Manuel Jorge Marmelo.

Foi como se me tivessem atirado de um comboio em andamento. O comboio era a minha vida. Estava a fazer um esforço heróico para me equilibrar, para não perder a concentração.
Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, Quetzal, 2013

Bruno, a personagem principal de As Primeiras Coisas, romance de estreia de Bruno Vieira Amaral (vencedor do prémio literário Fernando Namora e também do prémio PEN Clube para narrativa), regressa a casa da mãe, no bairro social onde tinha crescido, na margem Sul, “desempregado, desamparado, um pouco órfão”. Além de desempregado, divorciado, a vida em suspenso: “Há momentos em que tudo corre tão mal que a ideia de que existe um mundo lá em cima nos abandona e a tristeza deixa de pesar, como se as leis universais ficassem suspensas, à espera de que a nossa vida se resolva para só então voltarem a impor a sua serena e inquestionável autoridade.” (pag. 32)

Este não é um livro sobre o desemprego. Nem é sequer um livro sobre um desempregado. É um livro sobre nós. Também é um livro sobre o Bairro Amélia e sobre aquelas pessoas todas que ali vivem. O desemprego está lá, como estão o racismo, os homens que batem nas mulheres, os putos que sonham com carros desportivos, o funge no almoço de domingo, os retornados, os bailes no barracão, as escaramuças que acabam mal, o rapaz que fez uma tatuagem, os abortos às escondidas. O desemprego está ali porque é impossível retratar o país que temos hoje em dia sem que ele apareça. Em novembro do ano passado, a taxa de desemprego era de 13,9%, De acordo com os dados mensais do INE, havia nessa altura 713,7 mil pessoas desempregadas em Portugal. Bruno é um desses desempregados. Mais uma personagem, entre as muitas de As Primeiras Coisas.

Ficar sem emprego não é só ficar sem rendimentos. É também perder a rotina. É o afastamento dos colegas. E de alguns amigos. É perder a auto-estima. É aprender a viver com o estigma de se ser desempregado. É ter vergonha. No livro Projecto Troika, que reúne imagens e histórias de um país empobrecido pela crise e pela intervenção da “troika”, o jornalista Manuel Jorge Marmelo, despedido em novembro de 2012 depois de 23 anos a trabalhar num jornal diário, conta como de um dia para o outro se transformou num “jornalista excendentário e num cidadão inútil e dependente de um subsídio do Estado. (…) O Estado, ainda por cima, sente-se no direito de desconfiar de mim: obrigam-me a apresentar-me humildemente, a cada duas semanas, na junta de freguesia, condenado a uma espécie de prisão domiciliária, suponho que pelo crime de presumível preguiçoso.”

Sobreviver aos dias intermináveis e dar sentido ao seu tempo, agora demasiado livre, é um dos grandes desafios do desempregado. Manuel Jorge Marmelo, jornalista e escritor (autor de romances como As Mulheres Devem Vir com Livros de Instruções ou Uma Mentira Mil Vezes Repetida), aproveitou bem o seu tempo e escreveu mais um livro, intitulado O Tempo Morto é um Bom Lugar, que tem como protagonista, precisamente, um homem desempregado no seu quotidiano “desgovernado e sem perspectivas”.

Mais uma vez, este não é um livro sobre o desemprego, mas é, entre outras coisas, um livro sobre o que acontece a alguém que se perde de si mesmo, depois de perder o emprego: “Tinha passado a alimentar-me quase exclusivamente de coisas enlatadas ou pré-cozinhadas, que aquecia no microondas e engolia diante da televisão em lentas colheradas de resignação. Às vezes não tomava banho e nem sequer saía de casa, e toda a minha roupa estava suja, muito suja, ou então engelhada, se já tivesse sido atirada para dentro do tambor da máquina e posta a secar no estendal da varanda. Via, sem fadiga nem memória, todos os programas que passavam na televisão, sobretudo nos canais desportivos e de séries norte-americanas, e, à noite, quando ainda recebia o subsídio de desemprego, perdia quase tudo no póquer. Uma vez por semana, mais ou menos, telefonava para a minha filha e dizia-lhe que gostava muito dela, que tinha saudades e que nunca a esquecia, mas no resto dos dias era frequente nem sequer me lembrar que tinha uma filha ou de que havia conhecido outra vida antes desta, um pouco como se já tivesse nascido sentado no sofá da sala com a barba por fazer, enfiado num roupão velho e a apagar as beatas dos cigarros na lata do feijão com chispe.” (pag. 21)

Esta é a vida de Herculano Vermelho mas podia ser a vida de Bruno. Como viver quando se deixa de ter motivos para sair da cama? Conta Bruno: “As corridas matinais, os cuidados com a alimentação, a própria ideia de higiene mental tornavam-se de novo os conceitos mais absurdos e patéticos, como se não passassem de uma luta contra um adversário que nem sequer existia ou que, existindo, não se dignava aparecer. Nesses dias lúcidos, ficava em casa o dia inteiro, de pijama, a beber chávenas de café, em doce e imaginária convalescença. Via filmes antigos, fixava a textura rugosa do móvel atrás da televisão, lembrava-me do local exacto de uma mancha na alcatifa que há muitos anos cobria o chão da sala, enumerava as diferentes cores que tinham coberto as paredes de cada divisão da casa. (…) Quando, por fim, desligava a televisão, a minha cabeça era um turbilhão de imagens a preto e branco, frases e gestos repetidos, noites americanas. Demorava muito até adormecer.” (pp. 32-33)

Não há muito mais semelhanças entre estes dois livros, publicados entre 2013 e 2014. Apenas o facto de cada um, à sua maneira, fazer o retrato deste Portugal tristonho, entretido com fugazes estrelas de televisão para esquecer as dívidas e a fome. A Soraya de ‘O Tempo Morto’ podia muito bem ter crescido no Bairro Amélia. Mas os desempregados não são todos iguais. Bruno, a personagem do livro As Primeiras Coisas, dedica-se a descobrir e compilar as histórias do bairro e a tentar encontrar um caminho de volta à normalidade. Herculano Vermelho entra numa espiral depressiva, acumulando dívidas e problemas, até dar por si encarcerado por um crime que não sabe se cometeu. E, no entanto, prefere estar ali, preso, mas “livre de aborrecimentos”: “Sou um desempregado feliz, um recluso feliz, na medida em que não tenho de preocupar-me com a renda da casa ou as contas por pagar. Espero ser julgado e condenado à pena máxima e passar aqui quanto tempo me seja permitido (…) No presídio ao menos servem-nos refeições quentes e há vinho tinto com fartura. Embora ruim e avinagrado, entorpece-me satisfatoriamente e amortece a passagem das horas.” (pp. 63-64).

‘As Primeiras Coisas’, Bruno Vieira Amaral, 297 páginas
‘O Tempo Morto é um Bom Lugar’, Manuel Jorge Marmelo, 278 páginas
Quetzal Editores, 2014

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