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Foi a ouvir David Bowie que Philip Glass descobriu a sinfonia

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição em vinil da ‘Low Symphony’ e da ‘Heroes Symphony’ recorda como foi ao som de discos marcantes da cultura pop dos anos 70 que a música orquestral do nosso tempo ganhou um novo sinfonista.

Pormenor da capa da edição da "Sinfonia Nº 4" pela OMM

Philip Glass tinha já mais de um quarto de século de obra reconhecida na composição quando, pela primeira vez, foi convidado a pensar em algo que até aí estava ausente do seu corpo de trabalho: uma sinfonia. Estávamos em 1992 e convém lembrar que, depois de toda uma etapa formadora de uma linguagem – de que ficaram peças maiores como Music In 12 Parts, Music in Similar Motion ou o próprio Einstein on The Beach – a sua música evoluíra em busca de novos patamares instrumentais e formas, aos poucos tendo juntado às electrónicas e a peças pensadas para o seu ensemble, a dimensão maior da música orquestral, o tempo levando-o depois a experimentar também espaços da música de câmara e até mesmo uma relação muito particular com o piano.

Dizia-lhe então o maestro Dennis Russel Davies (que se transformaria num dos seus maiores colaboradores) que não ia deixar que Glass fosse um “daqueles compositores de ópera que nunca fizeram uma sinfonia”. A encomenda surgiu da parte da Brooklyn Philharmonic Orchestra, e levou Glass a procurar um caminho novo para a sua música orquestral. Encontrou o mote num álbum histórico de David Bowie: Low, um disco (de 1977) que teve Brian Eno entre os colaboradores, encontrando ali Glass métodos de pensamento semelhantes aos que reconhecia em vanguardas da composição daquele tempo.

Originalmente apresentada como Low Symphony, é uma obra em três andamentos, cada qual baseado num tema do álbum (um deles, na verdade, editado como extra numa reedição de 1991 de Bowie). O material musical de Bowie e Eno é claro ponto de partida, mas é da visão de Glass que emerge uma abordagem orquestral que acabaria por abrir horizontes a uma série de novas experiências que depois realizou em experiências sinfónicas subsequentes.

Os instrumentais Subterraneans, Some Are e Warszawa, de Bowie, são assim o material musical a partir dos quais depois Glass definiu os três andamentos da sinfonia. Segundo ele mesmo escrevia no booklet da primeira gravação da obra, Glass explicava então que tratara os temas como se fossem seus, deixando que as transformações seguissem a sua “inclinação composicional quando possível”, chegando assim àquilo que então caracterizou como “uma real colaboração” entre a sua música e também a de Bowie e Eno.

Essa gravação, feita em estúdio pela Brooklyn Philharmonic Orchestra, dirigida por Dennis Russel Davies – obrigando cada naipe e secção da orquestra a gravar em separado, sob um ‘clic’ de guia a garantir a precisão dos tempos – e lançada pela Point Music – etiqueta da Phillips sob curadoria do próprio Philip Glass, anterior contudo à construção da sua própria Orange Mountain Music (OMM) – teve então edição em CD. Respeitando a capa da versão original, esta mesma gravação conhece agora edição em vinil.

Low Symphony abriu portas a uma série de outras explorações, fazendo inclusivamente da sinfonia uma das presenças mais fulcrais da obra de Glass dos anos 90 a esta parte. Entretanto renomeada como Sinfonia Nº 1, teve recentemente uma primeira gravação ao vivo, uma vez mais sob a batuta de Dennis Russel Davies, mas agora com a Sinfonieorchester Basel, em edição em formatos de CD e digital via OMM.

Quatro anos depois, e duas sinfonias depois, e agora com uma nova colaboração com a coreógrafa Twyla Tharp por objetivo, Philip Glass regressaria ao universo discográfico da mesma etapa na obra de David Bowie, partido então de seis momentos do álbum Heroes (que, tal como Low, data de 1977) para, sob um pensamento semelhante, criar a sua quarta sinfonia: a Heroes Symphony. Esta segunda sinfonia baseada na música de David Bowie teve primeira gravação em disco pela American Composers Orchestra em 1997 (na Point Music), uma vez mais sob direção do maestro Dennis Russel Davies. Seguiu-se novo registo, ao vivo, pela Bournemouth Symphony Orchestra, dirigida por Marin Alsop (editada pela Naxos em 2007) e, no ano passado, novamente com Russel Davies, uma terceira vida, agora com a Sinfonieorchester Basel (na OMM).

A gravação da American Composers Orchestra surgiu reeditada em 2014 numa série económica da Deustche Grammophon. E, tal como sucedeu agora com a Low Symphony, ter estreia em formato de LP, numa prensagem com vinil de 180 gramas, a lançar no dia 30 de março.

As assombrações de uma cidade cortada por um muro que dilacerava a sua vida, mas que era também um oásis de liberdade, de respeito pela diferença e de afirmação da multiculturalidade, tinham conhecido eco nos discos de 1977 de Bowie. Sobretudo nos instrumentais que Glass tomou como ponto de partida. A nova visão chegava contudo num tempo de murro derrubado e esperança reencontrada. Ambas as sinfonias de Glass juntam essas realidades, cruzando ecos tensos de outrora com caminhos que rumam aqui à luminosidade.

Ambas juntam à obra do compositor norte-americano novos episódios num processo de diálogo entre as esferas da música pop e as da música erudita, que há muito tem em Philip Glass um dos seus mais ecléticos representantes. Basta que nos recordemos de como em Songs From Liquid Days chamou as contribuições de nomes como os de David Byrne, Paul Simon, Suzanne Vega, Laurie Anderson (que consigo colaborou também na ópera The Civil Wars) ou Linda Rondstat, nas colaborações em terreno pop com os Polyrock, Marisa Monte, Mick Jagger ou Pierce Turner e até em desafios nas áreas nas novas invenções electrónicas com Aphex Twin ou S-Express, não devendo ficar de fora deste retrato Book of Longing, ciclo de canções criado com Leonard Cohen ou recentes atuações para voz e piano com Patti Smith. Philip Glass derrubara muros bem antes de Berlim o ter feito. Deu exemplos e indicou caminhos que novas gerações de compositores agora seguem. Nestas sinfonias encontramos assim o momento em as memórias de uma cidade e as vozes (instrumentais) da música encontram um patamar de entendimento, por um mundo sem muros.

A reedição em vinil de 180 gramas da ‘Low Symphony’, na gravação pela orquestra de Brooklyn, está disponível em lançamento pela Music on Vinyl. A reedição da ‘Heoroes Symphony’, pela mesma editora, está já em pré-encomenda em algumas lojas online. As edições pela Orange Mountain Music têm igualmente em catálogo lançamentos em CD e formato digital das duas sinfonias, renomeando-as respetivamente como Symphony Nº 1 e Symphony Nº 4, em discos que datam respetivamente de 2013 e 2014.

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