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A raiva e a cidade

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

“Amálgama” é um novo livro de contos do brasileiro Rubem Fonseca, editado por terras portuguesas pela Sextante Editora em 2014, um ano após a publicação original no Brasil, onde ganhou o Prémio Jabuti 2013.

Rubem Fonseca é um escritor da cidade. Nascido em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, em 11 de maio de 1925, cedo se mudou para o caótico universo da metrópole do Rio de Janeiro, onde contactou com o que viria a dar atmosfera às suas histórias – o imaginário de Rubem Fonseca é plenamente carioca. Foi aí que entrou na polícia, trabalhando como comissário mas rapidamente convertido em “policial de gabinete” (ler com sotaque brasileiro). Formou-se em direito, deu aulas na Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e, entre outras ocupações pontuais, trabalhou na Light, empresa distribuidora de energia. Só começou a ser publicado na década de 1960, quando já rondava os quarenta anos de vida, mas o percurso extraliterário foi certamente valioso para o labor de escritor, já que as personagens das suas histórias refletem todos esses mundos. Dos advogados aos polícias, sem esquecer os funcionários públicos e os representantes do poder político.

Muito mais do que os romances, os seus contos são documentos da história da urbe. Da violência. Da sujidade. Do desenraizamento e inadaptação dos seus habitantes. Da aspereza e superficialidade das relações humanas nas grandes cidades. E sobretudo da realidade que está para além dos corpos esculturais que passeiam no calçadão e veem o pôr-do-sol tomando um chope. Em Amálgama, no conto “O ciclista”, a cidade adquire qualquer coisa de Taxi Driver, com Travis Bickle a ser substituído por um jovem montado numa bicicleta que tenta fazer justiça pelas próprias mãos, castigando quem desequilibra essa balança invisível que nem sempre premeia os justos. “Andando de bicicleta pela cidade a gente tem uma boa ideia do mundo. As pessoas são infelizes, as ruas são esburacadas e fedem, todo mundo anda apressado, os ônibus estão sempre cheios de gente feia e triste”, diz o velocista vingador. “O pior são as pessoas más, aquelas que batem em crianças, que batem em mulheres, urinam nos cantos da rua”. E a obsessão toma conta da sua existência. “Todo dia fico procurando em cima da minha bicicleta alguma pessoa má para punir”. A cidade semeia, a cidade colherá. Quer os psicopatas, quer o reverso da mesma medalha: os justiceiros.

Não, o Rio de Rubem é duro e injusto como a natureza, e as vidas chocam umas com as outras como astros no espaço sideral. Mesmo o crime não é exclusivo dos pobres e desesperados. Assassinos contratados, vinganças de ex-maridos e mulheres, agressores sexuais são temas que se encontram nas páginas do escritor. Movendo outros a sair do conforto urbano para castigar algo ou alguém. É isso que, no conto “O matador de corretores”, faz o homem homónimo. Tal como o ciclista, ao andar pela cidade, só vê “a cidade sendo destruída”. Como se a vida, a vida simples e desinteressada dos homens e mulheres e imperfeitos, estivesse a ser esmagada por um futuro que é feio. Violento. Sem coração. “Não há logradouro em que um prédio não esteja sendo demolido para dar lugar a um arranha-céu, ou então sendo cavado um buraco onde esse monstro vai ser erguido, ou então, pior ainda, um lugar onde essa coisa hedionda já foi erguida”. A coisa hedionda é, diz o assassino, a face negra do moderno arranha-céus: o “arranha-inferno”.

Para o público português, há sempre um extra, que se calcula que esteja vedado ao público leitor de Rubem Fonseca noutras línguas: a musicalidade do vocabulário brasileiro numa escrita claramente americana. O rapaz que é “banguela”, desdentado, por ser pobre. A namorada anã que é “nanica”. Outro sujeito que sonha que é um “saci-pererê”, que perdeu a perna a lutar capoeira. Há uma certa ingenuidade voluntária na escrita, como se as frases não fossem trabalhadas e esculpidas até à perfeição, que é devedora da clareza e minimalismo quer dos grandes escritores de policiais norte-americanos, quer dos brilhantes contistas a sul do México. Mas toda esta economia, em contos que, muitas vezes, se estendem ao longo de apenas duas ou três páginas, é brilhante.

Por cá, Dinis Machado (publicando com o seu pseudónimo Dennis McShade e assim passando entre os pingos da chuva da censura) trouxe-nos Peter Maynard enquanto essa figura do noir para literatos, ao ver as estantes das femmes fatales para ver o que andam a ler. Mesmo Francisco José Viegas e a sua personagem do inspetor Jaime Ramos e, recentemente, João Tordo, no seu ótimo e subvalorizado pseudo-noir Hotel Memória, souberam manter vivo (quiçá conscientemente) o espírito de Mandrake, uma das personagens memoráveis de Rubem Fonseca – de romances como A Grande Arte (1983) e Mandrake, a Bíblia e a Bengala (2005).

O humor é outro dos condimentos principais das histórias de Rubem Fonseca, tão essencial quanto o tomate na cozinha italiana. Em Amálgama, dando apenas alguns exemplos, temos o assassino que não mata anões. Ou o sujeito desequilibrado que mata cães, sobretudo “lulus” (“Odeio esses cachorrinhos de madame, com fitinha na cabeça”), e gatos, mas nunca diz um palavrão. Não sendo um escritor que possa ser rotulado de humorístico, também não deixa que as narrativas resvalem para um tom épico, para desfechos cinematográficos perfeitos. É esse desprezo pela grande literatura, pelas personagens moralistas ou autossacrificiais, que faz dele um dos mais importantes autores brasileiros. Uma espécie de anti-herói da escrita.

Para aqueles que se vão estrear a ler o escritor brasileiro, é preciso não desanimar. Amálgama não é o melhor livro de contos de Rubem Fonseca. Nem sequer é, de entre o número considerável de obras publicadas por cá pela Sextante e, antes, pela Campo das Letras e Dom Quixote (e ainda há tanto para trazer), a mais aconselhável. Apesar da qualidade da maioria dos contos, alguns poder-se-iam classificar como exercícios, ficando aquém de outros livros seus. Mas não há razão para desistir. Rubem Fonseca é, e digo-o sem vergonha, um dos melhores contistas de língua portuguesa da atualidade. Talvez mesmo um dos melhores de sempre. Feliz Ano Novo (1975), por exemplo, é um volume de contos que devia ser leitura obrigatória em todas as escolas – e até chegou a ser editado em Portugal, em 1980, pela Contexto.

Voltemos ao início. Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de maio de 1925. Estamos a poucas semanas de ele completar os 90 anos de idade. Mas isso não se nota. O vigor criativo e a capacidade de sentir a raiva da cidade e vertê-la no papel estão mais vivos que nunca. Amálgama pode ser apenas o que vai pingando de obras mais perfeitas de décadas anteriores. Mas é um ótimo atestado de validade do génio deste autor. “Então, tive uma ideia, uma ideia fantástica que encheu o meu coração de regozijo. Mas ainda não posso contar para vocês”.

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