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Quando a BD chega à Antártida

Texto: NUNO GALOPIM

Os irmãos Emmanuel e François Lepage mostram no magnífico “La Lune est Blanche” um retrato humano de uma missão ao continente gelado usando a BD e a fotografia para visualizar o que nos vão contando.

A ideia partiu do Institut Polaire franês, instituição que coordena as missões científicas que, sob a bandeira tricolor, decorrem em permanência na Antártida, sobretudo entre as bases de Dumon d’Uville (junto à costa) e Concordia (a 1200 quilómetros para o interior, numa operação conjunta com italianos). Porque não criar uma BD que desse a conhecer aqueles lugares, as bases, os trabalhos que ali decorrem e quem os faz? A escolha natural recaiu sobre Emmanuel Lepage, autor de BD hoje com 48 anos, com formação em arquitetura e, entre a sua obra com livros que retrataram outras viagens, nomeadamente uma à região de Chernobyl e um outro a ilhas distantes dos mares do sul – respetivamente Les Fleurs de Tchernobyl (2008) e Voyage aux Iles de la Désolation (2011). Foi Emmanuel quem depois juntou um outro nome à equipa: o do irmão François, um fotografo. E foi por isso que assim nasceu o belíssimo La Lune est Blanche, relato de uma viagem à Antártida num volume que junta algumas fotografias, desenhos de traço seguro e muito pessoal e uma narrativa que consegue conciliar as suas fontes de imagens numa trama que sabe condimentar a história com vitaminas de aventura e não esquece que, mesmo sendo reais as pessoas que acompanha, as encara como personagens e lhes dá um sentido, um corpo e uma presença consequente no todo da história.

Emmanuel Lepage usa tons sépia como dominantes nas muitas sequências em flashback, seja para contar os momentos de preparação (e espera) que antecederam a partida, seja até mesmo para uma breve – e bem útil – história da conquista humana do sexto continente, recuando às primeiras aproximações àquelas latitudes por missões do francês Yves-Joseph de Kerguelen em 1772 e do inglês James Cook em 1773 ao primeiro contacto físico com terra firme, em 1840, com o francês Jules Durmont d’Urville, precisamente na região onde hoje existe a base que ostenta o seu nome. Esta é uma história de façanhas que não esquece as missões de Scott e Amundesen, com este último a conquistar o Pólo Sul em 1911, o primeiro perdendo a vida de regresso, após ter constatado que os noruegueses lá haviam chegado antes.

Emmanuel e François serão por algum tempo membros de uma expedição e, além dos desafios do desenho e fotografia, estão-lhe confiados trabalhos concretos num raid que levará uma equipa e mantimentos à base interior de Concordia, numa viagem dura, a pouco mais de 10 quilómetros por hora, feita por grandes tratores e contentores, avançando entre o grande deserto branco.

A natureza tratou de dar a Emmanuel e François os extras que um argumento poderia pedir. O navio que os deveria levar da Tasmânia à base de Durmond d’Urville fica retido no gelo durante perto de duas semanas, obrigando-os a uma etapa de espera em França. Já de viagem – e depois de vencidas tempestades a bordo e enjoos – são por sua vez retidos na mesma fina camada que antecede a chegada aos mares que envolvem diretamente o grande continente gelado. As pausas servem contudo para observar a tripulação e conhecer quem são para lá das missões científicas que vão protagonizar, para desenhar e fotografar a paisagem. Os desenhos notam aqui as reais cores da região. Não apenas os brancos, mas o turquesa do gelo em dias de céu azul, o cinzento que oprime quando as nuvens não destapam e o amarelo que surge no horizonte anunciando terra à vista. A ansiedade contudo domina a atmosfera. O relógio avança e, se não chegaram no dia limite a Dumond d’Urville, o raid parte para Concordia sem eles.

O calendário encurtado não permite a estada prevista na base nem o retrato das vivências naquele local. Apesar de sugestões em contrário, Emmanuel e François optam por fazer o raid como inicialmente previsto. Aí se vive novo momento de aventura (tal como o fora a travessia marítima). As forças da natureza definem o cenário e obrigam à ação. Ao mesmo tempo os irmãos Lepage olham a paisagem de deserto branco ao seu redor, reparam nas formações à superfície geradas pela neve, gelo e vento. A cada longo turno ao volante seguem-se jantares e convívios, onde se retoma uma lógica de vivência no plano humano já ensaiada a bordo do navio. E assim fazem os seus dias, num avanço lento e difícil, com temperaturas bem abaixo das que os invernos frios da Europa conhece. Até que chegam à moderna (e ao que parece confortável) base, dominada por dois grandes cilindros habitacionais e as várias instalações criadas à sua volta.

No fim, e na verdade, poucas vezes a ciência falou aqui mais alto. Um ou outro dos cientistas deu a conhecer o seu trabalho, mas mais num plano descritivo e de expectativas. Ocasionalmente algumas conclusões. La Lune est Blanche revela-se antes o retrato humano de quem ali faz ciência. Num continente onde, até nos dias da guerra fria, russos e americanos juntavam esforços em nome do conhecimento.

“La Lune est Blanche”
de Emmanuel e François Lepage
Futuropolis, 256 págs.
ISBN 978-2754810289

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