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Vozes (e imagens) de Chernobyl para evitar o esquecimento

Texto: NUNO GALOPIM

Propostas de banda desenhada de Emmanuel Lepage e da dupla Francisco Sánchez e Natacha Bustos, o livro de Svetlana Alixievich e dois documentários representam olhares críticos sobre o maior acidente nuclear da história. Para questionar e não esquecer.

Imagem de "Un Printemps à Tchernobyl", de Emmanuel Lepage

A data ficou inscrita na história. A 26 de abril de 1986 uma sequência de circunstâncias desencadeou um acidente de proporções gigantescas no reator 4 da central nuclear de Chernobyl (na Ucrânia, mas então uma das repúblicas da URSS). O silêncio inicial das autoridades e o modo como decorreram os procedimentos de segurança após o acidente amplificaram as consequências dos efeitos da contaminação que afetou substancialmente populações e lugares da região, como foi se fez sentir em diversos lugares da Europa.

Três décadas depois Chernobyl está longe de ser um caso resolvido. E há sequelas evidentes nas regiões mais afetadas, em alguns lugares ainda com valores de contaminação demasiado altos para garantir a segurança de quem ali esteja, pelo que há uma zona de exclusão ainda em seu redor, decorrendo neste momento obras para criar uma estrutura que feche mais ainda o velho reator (que, entretanto coberto, é referido como “sarcófago”).

As florestas ainda relativamente despidas de populações animais como outrora, as visões da cidade-fantasma de Pripyat (e tornaram-se icónicas a imagens do seu parque de diversões abandonado, a piscina vazia, os prédios desertos de gente), as memórias de quem ali vivia e o quotidiano daqueles que arriscam viver nas redondezas, passam por alguns retratos e olhares que, nos últimos anos, nos têm chegado quer em livro, quer em filme. Aqui ficam alguns desses exemplos,



Um dos mais interessantes autores de banda desenhada do nosso tempo, Emmanuel Lepage tem conciliado no seu trabalho o gosto pela criação de ficções com um interesse por uma ideia de documentarismo… em forma de BD. Autor de La Lune est Blanche, um espantoso relato de uma missão científica na Antártida, mas também de livros como a série Muchacho ou o recente Les Voyages d’Ulysse, Lepage tinha 19 anos quando o acidente ocorreu e guarda a memória das notícias que então foi lendo. Em 2008 deu por si envolvido numa missão que se propôs a fazer uma reportagem na região afetada, pedindo da sua parte um envolvimento como desenhador.

Publicado em 2012 o livro Un Printemps à Tchernobyl (Futuropolis, 168 páginas) é, mais do que apenas uma reportagem, um relato autobiográfico de toda a experiência. Que envolve toda uma dimensão pessoal (na qual não faltou o medo e o questionar do que, na verdade, estaria a fazer num lugar tão perigoso), os bastidores do trabalho da equipa, o modo como viveram a descoberta do local e o convívio com os que ali vivem e, naturalmente, os ecos mais diretos da memória do acidente e dos seus efeitos que se observam nos “fósseis” do acontecimento e que Lepage e os seus companheiros de missão observaram junto da central, da cidade abandonada, das estradas na região e nas florestas que cruzam.



Em Chernobyl: A Zona (volume de 192 páginas que a Levoir publicou em 2016 entre nós) encontramos uma abordagem de ficção que toma como tutano as vivências daqueles que habitavam a região em volta da central e os destinos de êxodo a que foram forçados. Ao explorar um conjunto de personagens ligadas entre si, a narrativa parte do contexto (no qual o acidente e a má gestão dos acontecimentos que se lhe seguiram são bem explorados) e acompanha depois as consequências familiares que passam longe do foco dos noticiários.

O livro representou uma estreia na escrita para banda desenhada de Francisco Sanchez (n. 1962), natural de Barcelona e junta os desenhos (a preto e branco) de Natacha Bustos, uma designer que entretanto começou a trabalhar em comics americanos. O livro (cujo título refere a “zona” de exclusão em redor da central) foi premiado em Angoulême em 2012.

Um ano antes de meio mundo andar às turras com a revelação de que Bob Dylan era o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2016, coube a Svetlana Alixievich, a expressão de primeiros sinais de que havia na Academia uma vontade em distinguir outros domínios da escrita, destacando ali uma autora de não-ficção. Um dos seus primeiros títulos publicados entre nós foi precisamente um pungente olhar sobre memórias e consequências deste mesmo desastre nuclear.

Publicado em fevereiro de 2016 pela Elsinore (numa edição com prefácio de Paulo Moura), As Vozes de Chernobyl (336 páginas) escuta, literalmente, as “vozes” daqueles que conviveram de perto com o acidente e as suas consequências. De meio milhar de entrevistas nascem monólogos que, em conjunto, desenham um coro capaz de fazer estremecer quem o escuta.



Inspirado pelo livro de Svetlana Alixievich, o filme La Suplication (com o título internacional Voices From Chernobyl), de Pol Cruchten (cineasta do Luxemburgo), acrescenta uma dimensão visual às palavras relatadas. As histórias ganham corpos. Não aqueles de cuja voz emanaram, já que o filme é sobretudo um ensaio fotográfico de alma poética e que usa lugares e figurantes de uma forma encenada. Mas no diálogo entre as imagens (captadas naquela região), as figuras chamadas aos diversos planos (mais como modelos que um pintor convocaria do que propriamente como personagens num filme) e a verdade das memórias relatadas por quem narra, surge um olhar tão belo como perturbante. Ao falar em francês, a voz que narra não nos tenta nunca iludir sobre a “verdade” de quem fala. A verdade, no sentido mais realista, mais jornalístico, ali está na palavra. Nas memórias. Nos relatos. A composição entre narração, a seleção de narrativas e as imagens que as acompanham não deixam contudo nunca de nos fazer sentir que é de coisas reais que ali se trata.

O filme foi distinguido na edição de 2016 do 22.º CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela com o prémio principal. La Suplication foi ainda escolhido como representante do Luxemburgo na candidatura à categoria de Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira.

30 anos depois uma equipa de filmagens chega à região de Chernobyl para medir o pulso ao estado de saúde de uma região que de transformou no símbolo de tudo o que pode falhar, não necessariamente apenas no plano científico, já que é sobretudo de consequências políticas (e por isso com impacte na região e suas populações) que vive o tutano de Chernobyl 30 Years After – The Suppressed Disaster, documentário de 2016 de Reinhart Brüning que passou recentemente entre nós na primeira edição do SciDoc.

À chegada, uma surpresa: um português chefia a instalação de um arco gigante em metal (em várias camadas) que será lançado colocado o “sarcófago”. Com ele temos uma perspetiva de como ainda há questões de segurança em jogo. Agora não sob decisão da URSS, mas da EU, já que Cherbobyl fica na Ucrânia. Só depois caminhamos à descoberta dos efeitos no presente. Da cidade fantasma que ainda ali mora e da floresta em redor onde a devastação é evidente, aos programas de turismo “catástrofe” que ali levam quem queria ver de “perto” o lugar ou a história de um velhote, de quase 90 anos, que originalmente foi evacuado mas que, em, 1993, regressou à sua casa no meio da floresta, vivendo do que cultiva e do peixe que apanha no rio… Aparentemente tem boa saúde. Mas o mesmo não sucedeu com os muitos que perderam a vida nas sequelas que este acidente gerou. Trinta anos depois, em alguns lugares, as medições ainda acusam níveis multo altos de radioatividade. E, dentro do sarcófago, onde estão à vista elétrodos de carvão contaminados, os níveis só regressarão ao “normal” daqui a um milhão de anos. Daí o arco que vai a caminho de o tapar…

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