Últimas notícias

A ‘Odisseia’ de Homero ainda continua a ter descendentes

Texto: NUNO GALOPIM

O novo livro de Emmanuel Lepage, criado em conjunto com Sophie Michel e René Follet parte de ecos da Odisseia de Homero para imaginar uma narrativa em cenário mediterrânico na qual várias técnicas de ilustração ajudam uma narrativa que evolui, em paralelo, entre vários tempos e lugares.

Um dos mais interessantes autores de banda desenhada do presente, o francês Emmanuel Lepage mantém viva a sua admiração pelo mar e por narrativas de viagens marítimas em Les Voyages d’Ulysse, o primeiro álbum que apresenta após o assombroso La Lune Est Blanche (2014), livro que, em parelha com Voyage aux îles de la Désolation (2011) compôs um díptico de narrativas com geografia entre os mares do Sul e a Antártida. As técnicas de aguarela, que tão bem serviram esses livros, são agora uma entre as várias opções de ilustração para uma história que cruza tempos e lugares, desde um presente em que acompanhamos a demanda conjunta de um jovem pintor e de uma mulher comandante de um navio, que partem em busca de um pintor veterano (cada qual animado por um motivo diferente), às memórias de infância da protagonista (que assim conhecemos antes de chegar ao leme da embarcação que chefia) e, como o título sugere, de ecos da Odisseia, de Homero, na qual Emmanuel Lepage, Sophie Michel e René Follet inspiraram tanto a trama como algumas das visões que passam pelas páginas deste volume de mais de 200 páginas (às quais se acrescenta um apêndice no final).

Com um tempo presente que parece sugerido entre finais do século XIX e inícios do século XX e a ilha de Santorini entre um dos cenários mais visitados pelas imagens, Les Voyages d’Ulysse parte da Odisseia não com o intuito de pensar mais uma adaptação dessa história tão cheia de descendências, mas para ali encontrar ganchos narrativos que se materializam entre personagens e lugares. Sophie é uma herdeira natural de Ulisses. E, já agora, vale a pena revelar que Ulysse é o nome de um dos filhos de Lepage e Sophie. Este é, assim, o “seu” livro, com direito mesmo a um retrato daquele a quem o dedicam na última página.



A história sabe partir das sugestões da Odisseia para nos propor uma narrativa diferente e surpreendente, onde não faltam histórias das gentes que trabalha em volta de portos e embarcações, casas de ópio e prostíbulos, uma vez mais traduzindo (como não é inédito na obra de Lepage) um olhar que transcende os quadros normativos de género e das sexualidades quando chega a hora de definir identidade das personagens.

O que há de mais cativante neste livro é contudo o modo como Lepage usa dois pintores como figuras relevantes na trama, juntando as criações de ambos às suas imagens, o que amplifica – além das diferentes técnicas usadas para distinguir os tempos da ação – a diversidade de registos com que a história passa frente aos nossos olhos. O velho Amon Kasacz é um especialista em imagens inspiradas pela Grécia antiga e a sua pintura tem mesmo um papel determinante para a evolução da ação, com direito depois a uma apresentação num apêndice que ficciona o que poderiam ser alguns esboços e pinturas suas, tal e qual estariam arquivados numa biblioteca de Atenas.

“Les Voyages d’Ulysse”, de Emmanuel Lepage (desenho), Sophie Michel e René Follet (texto) é um volume de 222 páginas em capa dura publicado pelas Éditions Daniel Maghen.

Advertisements

1 Trackback / Pingback

  1. Vozes (e imagens) de Chernobyl para evitar o esquecimento – Máquina de Escrever

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: