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1972. Um canto solitário

Texto: NUNO GALOPIM

Gravado sem que a editora sequer o soubesse, contando apenas com a ajuda de um técnico em estúdio, o terceiro álbum de Nick Drake acabaria, com o tempo, por se transformar num clássico. Poucas vezes a solidão foi tão bem retratada em música.

Tal como sucedera com o álbum de estreia, o segundo disco de Nick Drake não se transformara (na época) no fenómeno que figuras – entre elas o produtor Joe Boyd – imaginavam que aquela música desencadeasse. Com o panorama folk britânico a viver momentos de aclamação e até mesmo reconhecimento público, o caráter único e esquivo de Nick Drake, que hoje sentimos ser uma das marcas maiores de identidade da sua música, fê-lo passar longe dos focos das maiores atenções. As consequências da frustração que esse silêncio gerou não tardariam.

Houve um terceiro álbum e a sua génese e canções revelam histórias bem diferentes das que podemos contar com os dois anteriores. Com o título Pink Moon surgiu em 1972 após um longo silêncio de 18 longos meses sobre o anterior Bryter Layter, editado em 1970. Abatido por uma sensação de derrota causada pela falta de reconhecimento que a sua música sofrera nos discos que já editara (apesar de mais e mais entusiasmadas críticas para o segundo), Nick Drake regressa à casa dos seus pais em 1971. Consta que terá então dito à sua mãe que tinha falhado em tudo. É então visto por um psiquiatra em Londres. Mais calado que comunicativo, recusando muitas vezes a medicação, passa dias mais feitos de silêncio que de música. Mas de vez em quando usa a sala de música. Ensaia ideias.

Em Outubro de 1971 ele mesmo telefona a John Wood, o técnico com quem já trabalhara antes em estúdio e do qual guarda boas memórias de um profissional atencioso. Diz-lhe então que tem canções e quer fazer um novo disco. Wood marca sessões, uma vez mais nos estúdios Sound Tecnhiques, mas desta vez em horário noturno, já que durante o dia o espaço estava então já ocupado. Sem alarido gravam sem mais ninguém na sala e quando, ao segundo dia de gravações, John Wood pergunta a Nick que tipo de arranjos pretende para as canções, o músico responde que desta vez não quer absolutamente nada. Aquele seria o disco, juntando gravações apenas mostrando a sua voz e guitarra e, pontualmente, o piano. Em dois dias o processo de gravação de Pink Moon estava, por isso, terminado.

Está hoje  talvez mais no plano da mitologia que no dos factos a história de como as fitas com o futuro disco terão chegado à Island Records. Há quem diga que foram deixadas na recepção por uma breve visita, quase anónima, do próprio Nick Draker à sede da editora, depositadas por ele a uma rececionista que o não reconheceu. Há quem antes defenda que foram dadas em mãos ao patrão Chris Blackwell. A verdade é que depois de entregue o disco ele regressa a casa dos pais, em Far Leys.

Lançado a 25 de fevereiro de 1972, Pink Moon transformou-se com o passar dos anos não apenas no mais bem sucedido dos álbuns de Nick Drake como até mesmo numa referência maior da história da música popular. As canções mostram-no despido à essência da relação da sua voz com a guitarra acústica (que ele mesmo dedilhava naquele seu jeito muito pessoal de aparentar a simplicidade em ideias por vezes de difícil execução). E numa das canções, a que dá título ao disco, aceita a presença de um piano. Pink Moon é por tudo isto o mais realista e cru dos retratos de Nick Drake, num disco que em si revela contrastes, já antes explorados, de uma música dominada pela melancolia mas uma vez mais capaz de abrir frestas de luminosidade e esperança que emergem em alguns instantes do alinhamento.

Há quem entenda ser este um retrato raro de alguém toldado pela assombração de uma depressão. A irmã Gabrielle defende contudo que este disco nasceu num período de remissão da doença, o que explica que o não veja como sendo um “artefacto” dos males de que padeceria.

Um pouco como sucedera com os discos anteriores, as críticas da época estavam longe de ser numerosas ou iluminadas pelo entusiasmo. Historiadores da vida e obra de Nick Drake já apontaram como, ao contrário do tempo que viu nascer os dois álbuns anteriores, este entra em cena num tempo de celebração de novos valores em plena explosão glam rock. Não era a altura ideal para uma música que traduzisse as verdades de uma alma dorida.

Nick Drake ainda regressaria a estúdio e comporia mais temas, embora um quarto álbum nunca se tenha materializado em pleno. Ninguém imaginaria, contudo, que este seria o último disco acabado que nos deixaria.

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