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Nick Drake faria hoje 70 anos

Texto: NUNO GALOPIM

Nasceu em Rangum a 19 de junho de 1948. Apesar de quase invisível em vida, Nick Drake é hoje lembrado como um dos mais marcantes e influentes cantautores da sua geração.

Por incrível que hoje possa parecer, Nick Drake foi um músico absolutamente ignorado no seu tempo. Os três álbuns que editou em vida, entre 1969 e 1972 mereceram discreta atenção na imprensa musical, apenas uma vez tendo chegado a gerar interesse para uma curta entrevista. O medo quase patológico que Nick Drake tinha do palco terá em muito justificado esta discreta existência mediática, sobretudo dada a afinidade do som do jovem músico com a corrente folk que ganhava fiéis na Inglaterra de finais de 60 em encontros para multidão, festa, paz e amor. Nick Drake não era, contudo, um folkie… A sua escrita aceitava algumas heranças desses universos e partilhava com eles o jogo de timbres e cores dos instrumentos, mas por ela cruzavam-se também traços comuns aos de uma igualmente emergente geração de cantautores conscientes da cultura pop/rock. Nick Drake reunia o melhor de ambos os mundos e juntava ainda às suas canções um domínio sobre o sentido da palavra (que denunciava uma vivência universitária num curso de inglês) que conheceria superlativo no igualmente contemporâneo Leonard Cohen. Isto sem esquecer as características do intérprete, dono de uma voz única, melancólica, tranquila, mas nunca distante, que acompanhava à guitarra com um modo muito peculiar de sobre as cordas ir lançando o dançar dos dedos.

Foi numa das suas raras atuações ao vivo que um elemento dos Fairport Convention o viu e logo recomendou ao produtor Joe Boyd, que imediatamente o apadrinhou, conseguindo um contrato de condições raras através da atenta Island Records, de Chris Blackwell. Um contrato que garantida, desde logo, que os seus discos nunca seriam descatalogados.

Sob produção do próprio baixo, com colaborações de Richard Thompson (Fairport Convention) e Danny Thompson (Pentangle), e os subtis mas determinantes arranjos para cordas e sopros de Robert Kirby (antigo colega na universidade), Nick Drake gravou em 1969 um primeiro disco que, quase ignorado naquele momento, hoje é um caso de absoluta referência. Five Leaves Left, título que alude à chamada de atenção de que faltam apenas cinco folhas numa caixinha de mortalhas, apresentava uma música que revelava um fortíssimo sentido melódico, uma voz sedutora, um sentido de atmosfera encantador e uma poética que traduzia, logo nos primeiros tempos, as temáticas centrais em Drake: melancolia, solidão, amores frustrados e morte.

Apesar de ignorado na época, o álbum motivou a construção de um segundo disco, Bryter Layter (1970) mais arrojado. Mas o insucesso de ambos, uma vida ainda (e sempre) solitária e a mudança de Joe Boyd para a América deixaram Nick Drake entregue a uma depressão da qual deu primeiros sinais no álbum de despedida Pink Moon (1972), ao qual se seguiu retirada para casa dos pais, onde morreu com overdose (crê-se hoje que acidental) de medicamentos antidepressivos a 26 de Novembro de 1974. As gerações que se seguiram descobriram o talento de Drake e hoje é unanimemente tido como um dos mais completos e inspirados cantautores de sempre, com fieis seguidores em multidões que nos seus cantos sobre a solidão encontram uma cartilha de identificação.

Sob aclamação de outros músicos, arrebatando atenções de outras gerações de jornalistas e melómanos, Nick Drake venceu o tempo quando, sobretudo a partir da década de 80, começaram a surgir antologias que deram, finalmente, à sua obra, uma outra dimensão de reconhecimento e admiração. Heaven in a Wild Flower: An Exploration of Nick Drake, recolhendo temas dos três álbuns editados em vida, surgiu em 1985, o mesmo ano em que os Dream Academy faziam do elegíaco Life in a Northern Town um primeiro eco de grande visibilidade da vida e obra do músico desaparecido então há mais de uma década. E em 1987 chegou Time of No Reply, disco que revelou quatro demos dos raros temas em que Nick Drake trabalhou depois de Pink Moon, juntando ao alinhamento outtakes das sessões de estúdio anteriores. A sua discografia seria enriquecida mais tarde com outras mais antologias – uma delas a bem sucedida Way to Blue – An Introduction to Nick Drake (1994) – de novas incursões por inéditos. Alguns surgiram como faixas destacadas pela comunicação de lançamentos novos como Made To Love Magic ou A Treasury, ambos editados em 2004. Mais profunda e reveladora foi a incursão por fitas gravadas em casa que escutámos em 2007 em Family Tree.

Entre as gravações de “família” que Family Tree revelava contam-se algumas canções da mãe de Nick Drake. Segundo a sua irmã, Molly (de seu nome real Mary) terá nascido em 1915 no mesmo hospital que veria depois chegar ao mundo Nick Drake, em 1948. Foi em Rangum (hoje no Myanmar), tendo vivido a infância no Reino Unido e regressado à então Birmânia na década de 30, mudando-se temporariamente para a Índia durante os tempos da II Guerra Mundial. Datam desses tempos algumas das suas primeiras canções, às quais juntaria outras que continuaria a compor em família quando, já na década de 50, se instalou definitivamente em Far Leys, a casa em Tanworth-in-Arden na qual Nick Drake viveu os seus últimos anos.

Essas canções, às quais Joe Boyd chamou “elos perdidos” para ajudar a compreender as referências de formação que moldariam a música de Nick Drake, são agora reunidas numa edição de livro (com os poemas) e disco, disponível tanto em suporte físico (em CD) como nas plataformas digitais. Com edição limitada The Tide’s Magnificence representa, juntamente com When The Day Is Done: The Orchestrations Of Robert Kirby, de Robrt Kirby (disco cujo alinhamento abre com uma evocação de Nick Drake), os únicos lançamentos deste 2018 que assinala o que seria o 70º aniversário do músico. Na verdade, e depois de apresentado no excelente Remembered for a While, volume editado por Gabrielle Drake e Cally Callomon que apresenta uma biografia definitiva da sua vida e obra, pouco mais estará por editar no plano da música gravada. Falta talvez ainda o cinema. Mas, e dado o historial tão ensosso de bipoics de dieta que por aí anda, se calhar a coisa fica bem assim como está…


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