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Há “disco” em Marte!

Texto: NUNO GALOPIM

Na mesma semana em que a NASA anunciou a descoberta da presença de água no estado líquido em Marte, o novo filme de Ridley Scott revela uma das mais interessantes abordagens do cinema ao Planeta Vermelho.

Uma missão tripulada a Marte regressa, de urgência, perante o agravar de uma tempestade. E no caos da ventania, sem praticamente nenhuma visibilidade, a fuga custa a perda de um astronauta, que é dado como morto. Só que acorda quando chega a bonança, com os colegas já longe da superfície e uma próxima nave agendada para ali chegar daí a quatro anos. O que fazer para sobreviver, durante todo este tempo, num planeta onde nada cresce do solo? Foi destas premissas que Andy Weir fez nascer O Marciano, romance que na verdade resume depois grande parte do seu arco narrativo a um percurso de luta pela vida, com condimentos de um McGyver do planeta vermelho, resolvendo dilema, após dilema, mediante os recursos minimalistas que ali tem ao seu dispor.

A adaptação ao grande ecrã que Ridley Scott dirigiu bebe do livro com substantiva fidelidade a caracterização deste “náufrago” marciano (interpretado por Matt Damon) e as suas rotinas que levam à risca a pulsão de sobrevivência de um I Will Survive (sim, o de Gloria Gaynor). De resto, o argumento mostra um saber na contenção do detalhe e evita o tom repetitivo e algo cansativo que por vezes assombra o livro e amplifica as ocasionais tiradas de humor que povoavam já, sem tanta evidência, a escrita de Weir, das frases que observa para a câmara onde regista um diário às recorrentes referências ao disco sound, a única música disponível em Marte, que o astronauta encontra entre a caixa dos pertences individuais dos restantes elementos da tripulação. Este elemento musical acaba por ter expressiva (inesperada e eficaz) presença na banda sonora, onde se escutam ainda Waterloo dos Abba e Starman de David Bowie, e reforça um tom light q.b. que estabelece um contraste entre Perdido em Marte e as experiências anteriores de Ridley Scott em terreno de ficção científica. Convenhamos que entre Alien, o Oitavo Passageiro, Blade Runner ou Prometheus não havia muitos motivos para comic relief.

Com cerca de 55% do tempo de ecrã por sua conta, a personagem interpretada por Matt Damon – um botânico desenrascado e bem humorado – Perdido em Marte consegue uma eficaz dinâmica na forma como conduz a narrativa, usando o diário vídeo (fruto de uma habituação a um registo “selfie” confessional da era do Big Brother) em favor de uma rápida contextualização das situações, sublinhando as tiradas humorísticas, numa solução que dispensa a voz em off e acentua o caráter realista do retrato.

Tal como em alguns filmes mais recentes com Marte como cenário – como a Missão a Marte de Brian de Palma ou o mais recente (embora descarrile a meio) Last Days on Mars de Ruari Robinson, Perdido em Marte é cuidadoso na representação da superfície, das naves e do habitats e transportes no terreno. Essa busca por um sentido de verosimilhança (que caracteriza sobretudo a história da literatura “marcina”) é, de resto, herdada diretamente da prosa de Andy Weir. É claro que há uns momentos em que a coisa vai para além do plano do realismo e só encaixa no mundo da ficção (e não faremos aqui um spoiler), mas é disso que se fala aqui. Ou seja, este não é um docudrama sobre uma eventual missão a Marte. É uma ficção.

Com uma história bem mais interessante na literatura sci-fi (e até mesmo na música) do que no cinema, Marte tem aqui um episódio digno de figurar no top 10 dos melhores filmes com o Planeta Vermelho como protagonista (e o melhor desde o hilariante Marte Ataca, de Tim Burton).

Como experiência cinematográfica não se aproxima do tom mais desafiante que vimos em Moon, de Duncan Jones ou Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer. Também não parecia ser der todo essa a sua intenção. De resto, este é um filme que não desapontará o público que aclamou Gravidade, de Alfonso Cuarón, somando mais um dado em favor de um renascimento de um relacionamento mais próximo do cinema de grandes plateias com os valores clássicos da ficção científica, usando os efeitos especiais como ferramenta ao serviço das imagens, sons e evolução da narrativa e não como centro das atenções.

“Perdido em Marte”
Realização: Ridley Scott
Com: Matt Damon, Jessica Chastain, Jeff Daniels
Distribuição: Big Picture

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1 Comment on Há “disco” em Marte!

  1. “Perdido em Marte”: 5*

    “Perdido em Marte” é sem dúvida alguma um dos melhores filmes de 2015…
    “The Martian” tem uma história arrebatadora e um brilhante elenco…
    E sim, há disco em Marte. Amei a BSO, mesmo muito.

    Cumprimentos Frederico Daniel…

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