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Manual de sobrevivência para um astronauta

Texto: NUNO GALOPIM

A semanas da chegada aos ecrãs de cinema do filme de Ridley Scott podemos já ler “O Marciano”, livro de Andy Weir que lhe serve de ponto de partida.

Com a adaptação ao cinema, sob realização de Ridley Scott e com Matt Damon no papel do protagonista, a apenas algumas semanas de chegar às salas, há ainda tempo para que se evite aquela velha máxima “ah, não li o livro mas vi o filme”. E a verdade é que O Marciano (no original The Martian, de 2011), de Andy Weir, está publicado entre nós pela Topseller desde o ano passado. Tentando não fazer aqui spoiler a quem queria quer ler o livro antes de ver o filme ou ir diretamente à sala de cinema, este talvez seja daqueles casos em que um bom trabalho de adaptação de argumento e uma realização capaz – e basta lembrar que o realizador é o mesmo de Alien, O Oitavo Passageiro ou Blade Runner: Perigo Iminente – possam partir de um romance mediano mas mesmo assim com uma mão-cheia de boas ideias e dele fazer nascer um bom filme. Mas aqui é preciso passar ainda pela prova do visionamento.

Romance de estreia de um especialista em informática desde cedo apaixonado pela astrofísica e astronáutica, O Marciano tem como ponto de partida uma boa ideia. Não que seja a inédita a ideia dos “náufragos” em outros mundos ou até mesmo em Marte (ainda há não muito tempo o planeta vermelho acolheu uma expedição que “naufraga” em Mars Crossing, de Geoffrey A. Landis). Mas a forma como Mark Watney é acidentalmente deixado só e vivo em Marte é engenhosa, assim como todo o processo de luta pela sobrevivência acaba por sustentar as cerca de 380 páginas da tradução portuguesa.

Em traços largos – e uma vez mais sem “estragar” a leitura ou o filme que possam ter pela frente – esta é a história da terceira missão tripulada a Marte – a Ares 3 – que se vê subitamente obrigada a regressar após seis dias no solo do planeta quando sobre eles se abate uma violenta tempestade. Com o veículo que os devolverá à nave de transporte em risco de tombar sob a força dos ventos é dada ordem de abortar a missão e regresso imediato. Na tentativa de sair do hab (o habitat entretanto construído algures na Acidalia Planitia) e alcançar o VSM – o veículo para a saída de Marte – um acidente com uma antena fissura o fato de um dos astronautas e ilude as leituras por telemetria das suas funções biológicas. No caos da tempestade e perante os sinais de aparente ausência de vida é dado como morto, sendo deixado para trás. Porém, a primeira de uma multidão de situações que Andy Weir descreve com precisão, faz com que Mark Watney retome os sentidos algum tempo depois com a paisagem já tranquila ao seu redor mas sem vivalma além de si nem sistemas de comunicação que lhe permitam avisar que ali ficou. Náufrago em Marte e com mais de mil dias e 3200 quilómetros a separá-lo da chegada da Ares 4 tem apenas dois caminhos pela frente: ou aceitar que está condenado ou tentar o impossível para, durante aquele tempo, encontrar uma forma de sobreviver na superfície marciana.

O Marciano é assim uma narrativa de sobrevivência que tem Marte por cenário mas não ignora também o impacte do desfecho acidental da missão quer na nave que traz os companheiros quer no centro de comandos e até mesmo nos media. Mas é em Marte e junto do astronauta – um engenheiro com conhecimentos de botânica – que o livro concentra atenções. Andy Weir opta por contar a história de Mark Watney através das entradas do seu diário, sol a sol (“sol” é a designação usada para o “dia” marciano). Tirando a antena destruída e a saída do VSM – que tinha um retransmissor – todos os restantes equipamentos da missão estão intactos. Há um habitat, veículos de superfície, comida para seis pessoas para a semana de duração da missão, ar, água, destiladores, etc… Como esticar os recursos ao tempo necessário para um eventual salvamento ou boleia pela Ares 4?

De problema em problema e de resolução em resolução vive daí em diante a narrativa. O problema maior é que Andy Weir não olhou muito para além desse foco de atenções, seja aplicando a lógica de quem conhece a ciência e a tecnologia seja quando, ao bom jeito McGyver, é preciso contornar a falta de recursos ou dificuldades do meio para ultrapassar obstáculos. E não haverá poucos e tanto problemas como resoluções são descritos com um detalhe minucioso. Na verdade O Marciano revela-se sobretudo o que parece uma busca de uma ordem narrativa para encaixar as entradas de um eventual manual de solução de problemas práticos de sobrevivência em Marte.

Há, de facto, pouco de Marte para além do mundo adverso, deserto e gelado onde o astronauta ficou e da ginástica técnica e científica que o “náufrago” tem de praticar para sobreviver. E a sua solidão não parece muito povoada com ideias senão as da sobrevivência, limitando os tempos livres aos conteúdos que cada astronauta levara numa pen, de séries “beras” (sic) dos anos 70 a música dos Beatles ou disco… E a birra do astronauta para com o disco é tão recorrente que cansa. Qual é o problema do disco? Sobretudo quando dali sai – e ele mesmo notará – um tema que lhe poderia servir de hino: Staying Alive, dos Bee Gees?

A história tem alguns momentos em que evolui, até mesmo no terreno, abrindo assim oásis de acontecimentos que transcendem a solução de um caso com o destilador da água, o modo de adaptar um carburador da base do VSM ou a busca de uma forma de levar para dentro do veículo de superfície um equipamento maior do que a sua porta permite lá meter dentro. Compactada e sem a sucessão de casos e soluções que define o grosso da narrativa pode dar ao filme o ritmo e fulgor que se esvai ao livro, tal como a água volatiliza na superfície do planeta. Andy Weir teve uma boa ideia. E mostra como o engenho humano e a tecnologia disponível podem expandir o tempo de vida onde a morte espreita. Pena que O Marciano não tenha mostrado mais do planeta e do homem que ali ficou. Vejamos agora o que o filme faz…

O Marciano, de Andy Weir, está publicado pela Topseller, numa tradução de Miguel Romeira.

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3 Comments on Manual de sobrevivência para um astronauta

  1. Que pena, parecia um livro tão bom pelas críticas que tinha lido mas afinal não vale nada. Obrigado!

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2 Trackbacks / Pingbacks

  1. Há “disco” em Marte! | Máquina de Escrever
  2. A Lua pode ser uma coisa aborrecida – Máquina de Escrever

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