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Quarenta andares de caos

Texto: NUNO GALOPIM

A edição de “Arranha-Céus” abre um espaço regular para a edição de obras de J.G. Ballard no catálogo da recentemente criada Elsinore.

Tratemos as coisas pelos nomes. E ao assinalarmos a edição, pela Elsinore, de Arranha-Céus, de J.G. Ballard – estando já confirmados lançamentos, pela mesma chancela, de novas traduções de Crash e Kingdom Come –, observamos algo que hoje em dia, salvo pontuais exceções, representa uma rara aposta do panorama livreiro português numa obra de ficção científica. Ficção científica? Então não é este o autor de Império do Sol (do qual, por estes lados, muito mais gente terá visto a adaptação ao cinema que lido o livro)? E não era ele mesmo um escritor que não gostava desse “rótulo”? Respondendo por partes… Sim, é o autor de Império do Sol, livro que transpira vivências autobiográficas de memórias de infância quando, aos 13 anos de idade, e em plena II Guerra Mundial, Ballard se viu fechado, com os pais, num campo de prisioneiros japonês em solo chinês. E sim, como tantos outros autores, era avesso a rótulos. Mas a verdade é que ambas estas dúvidas apontam a uma verdade comum. A violência a que foi submetido muito jovem ter-lhe-á sacudido do horizonte, mais cedo do que o habitual, um sentido de descrença no homem e neste mundo que habitamos. E é inevitável acreditar que foram essas as vivências que dele fizeram um dos autores mais marcantes na construção de uma visão mais assombrada do futuro próximo, observando (não muito distante) o final do século XX como um tempo não de esperança e luz, mas antes o palco para o fim do sonho tecnológico. Com ele, e apesar de no passado terem já surgido distopias como O Admirável Mundo Novo de Huxley ou 1984 de Orwell, a melancolia tolda de outra forma toda uma série de visões. E sim, falamos de ficção científica.

A ideia de retratar o desastre, acentuando pelas forças do cataclismo o que seriam já desequilíbrios em potência no seu presente – e vale a pena lembrar que a ficção científica fala sobretudo de nós mesmos e do nosso tempo, mesmo recorrendo a outras figuras, épocas ou locais –, ganhou forma logo nos primeiros romances de J.G. Ballard. Entre The Wind from Nowhere (1961) e The Burning World (1964), ainda não traduzidos entre nós, e Cataclismo Solar (no original The Drowned World, de 1962) e Mundo de Cristal (The Crystal World, de 1966) passam visões assombradas com os quatro elementos como ponto de partida, em narrativas que falam de um mundo destruído pelos ventos, assolado por inundações ou secas colossais, invertendo ainda a lógica do “herói” ao colocar em cena figuras cujos comportamentos e ações estão mais próximos dos mecanismos geradores dos desequilíbrios do que de uma qualquer eventual luta para os travar.

Estas quatro obras fulcrais na história da ficção científica – são inclusivamente peças-chave na afirmação da chamada new wave – lançaram as bases para a visão cética sobre a humanidade e a era tecnológica em que habitava que Ballard aprofundaria mais tarde em Atrocity Exhibition (1970), Crash (de 1973 e mais tarde adaptado ao cinema por David Cronenberg), Concrete Island (1974) ou Arranha-Céus (High Rise, de 1975), este último que, agora, e numa magnífica tradução de Marta Mendonça e Rute Mota, surge no catálogo da Elsinore.

Arranha-Céus é, de certa forma, a história de uma catástrofe. Mas que nada deve aos elementos na hora de encontrar as causas de tudo. Aqui somos nós, e apenas nós (o homem, entenda-se), os motores dos desequilíbrios e progressiva espiral de loucura e caos, limitando-se Ballard a explorar a agressividade, egoísmo e sede de vingança que mora em potência em cada um e que, pelos códigos da vida em sociedade, são habitualmente guardados e escondidos dos demais vizinhos. Ao criar como universo para a ação um gigantesco arranha-céus de 40 andares, onde literalmente há uma manifestação física do que é uma classe alta, uma média e uma baixa (porque assim se arrumam nos apartamentos espalhados pelos vários andares), Ballard faz deste edifício e dos seus moradores o aqui, o quem e o agora, como se um antes e depois não existissem e nada mais ao seu redor tivesse relevância. Um pequeno problema, a sua interpretação segundo os preconceitos de “classe” e a natural divisão que se vai estabelecendo entre o “nós” e o “eles”, geram uma sucessão de ações, progressivamente mais agressivas, que transformam a pax normativa do edifício num palco de violência e morte. Os pontos de vista sobre a realidade turvam-se e perdem-se na turba. O caos instala-se. A ordem social cede a uma selvajaria desnorteada que perde mesmo a noção de objetivo.

Perturbante, o texto representa, como em outros romances de Ballard, um brilhante exercício de reflexão sobre o potencial associal que pode residir, nem que em pousio, em qualquer um de nós. Este, como tantos outros livros seus, inspiraram leitores que nas suas narrativas encontraram uma identificação. Não admira que entre a geração desencantada que viveu os finais dos anos 70 e a aurora dos 80 surgissem ecos desta escrita. E que podemos escutar, por exemplo, entre canções como Atrocity Exhibition dos Joy Division, Down in the Park de Gary Numan, Miss the Girl dos Creatures, Warm Leatherette dos The Normal, o álbum Metamatic de Jon Foxx ou, surpresa das surpresas, a obra dos Buggles. Esta dupla, que tem um papel pontual mais importante na história da pop eletrónica, não só chamou a um tema do seu segundo álbum Vermillion Sands (título de uma obra de Ballard) como teve The Sound Sweep como fonte de inspiração para o seu Video Killed the Radio Star… Tudo isto sem perder aquele travo de ficção científica…

“Arranha-Céus”, de J.G. Ballard, acaba de ser publicado entre nós pela Elsinore, numa tradução de Marta Mendonça e Rute Mota.
ISBN 9789898086754

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