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Notas sobre uma ressurreição

Texto: NUNO GALOPIM

Vinte anos depois da morte de Hugo Pratt, o “seu” Corto Maltese conhece nova vida em “Sous Le Soleil de Minuit”, agora pelas mãos de uma dupla espanhola de criadores.

O ano foi de regressos. Ou, antes, de novas vidas, umas já concretizadas, outras anunciadas. Recentemente tanto Astérix como Michel Vaillant, nomes de primeira linha no universo da BD, tinham já dado sinais de boa saúde sob a gestão criativa de novos autores. Os novos livros de ambas as séries mostravam, pelo menos, ideias, personagens, narrativas e rumos mais interessantes do que os muito irregulares e frequentemente fracassados álbuns que têm mantido Blake & Mortimer em cena, embora uns valentes furos abaixo da memória do trabalho do seu criador, Edgar P. Jacobs. Em 2015 fora a vez de Ric Hochet, que mostrou neste primeiro álbum pós-Tibet um saber na gestão de todo um património genético, projetando-o para já em terreno seguro antes de ensaiar outros desafios (algo que entretanto já observamos na “nova temporada” de Michel Vaillant). Em breve será Murena quem conhecerá uma reativação com novo desenhador… Mas se houve “caso” maior neste departamento este ano, ele ficou por conta de Corto Maltese.

O marinheiro maltês que Hugo Pratt transformou em referência maior do universo da nona arte reapareceu, vinte anos após a morte do seu criador, nas mãos de uma dupla espanhola, com texto de Juan Díaz Canales, o mesmo da série Blacksad, e Ruben Pellejero, autor de Historias de Barcelona e de El Silencio de Malka, álbum de 1994 que lhe valeu um prémio em Angoulême.

Sous Le Soleil de Minuit, que reativa a vida de Corto Maltese 23 anos depois da publicação em álbum de , revela uma clara fidelidade ao cânone, mantendo o protagonista por rotas distantes, pelo seu caminho cruzando-se não só figuras com ligações ao seu passado, como todo um conjunto novo de personagens que não se afastam do tipo de figuras estranhas e extraordinárias que tínhamos encontrado noutras paragens e noutros álbuns. Um nativo das paragens do grande norte americano que, em França, descobre os textos de Robspierre e resolve aplicar os ideais jacobinos nas florestas canadianas ou um inuit que devora ao tutano os artigos de revistas científicas estão, a par com uma revolta de prostitutas numa distante cidade a altas latitudes, entre as figuras com quem se cruza Corto Maltese, que para aqueles destinos parte depois de uma carta deixada pelo amigo Jack London.

Ao invés de uma narrativa linear Sous Le Soleil de Minuit serve-nos sobretudo a experiência de uma sucessão de momentos que, mais do que uma trama, é o trajeto geográfico e os encontros que coloca às personagens que vai permitindo alinhavar. Os acontecimentos que acompanhamos não correspondem, cronologicamente, ao que aconteceria depois de Mú. Pelo contrário, os autores colocaram a ação mais atrás no tempo (mais concretamente em 1915, sendo assim contemporânea de A Balada do Mar Salgado), inscrita contudo dentro do universo temporal já antes definido por Hugo Pratt, encontrando assim todo um conjunto de referências que vincam a sua vontade em respeitar o cânone. No desenho Pellejero procrou – como já o explicou em entrevista – encontrar um álbum de Pratt no qual houvesse maior afinidade com o seu traço, daí partindo para a criação da sua forma de abordar o universo e a própria figura de Corto Maltese, mantendo fidelidade ao estilo de découpage dos livros anteriores.

Convenhamos que não era fácil o desafio de tocar num mito. De lhe dar nova vida, novas falas, novos traços. Corto Maltese, como o mostra o livro, não é santo de altar. E, de todas da reativações de séries a que o panorama da BD tem assistido, Sous Le Soleil de Minuit talvez tenha representado o mais promissor dos primeiros novos episódios. Fiquemos atentos aos caminhos do marinheiro…

“Sous le Soleil de Minuit”, de Juan Díaz Canales e Rubén Pellejero, está disponível numa edição de 82 páginas em capa dura, pela Casterman.

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  1. Dezembro de 2015 | Rascunhos

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