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As oito horas de “Sleep”, agora para ouvir sem sono

Texto: NUNO GALOPIM

Inicialmente apenas disponível em formato digital, a versão integral de “Sleep” de Max Richter acaba de conhecer edição numa caixa de 8 CD e um Blu-Ray.

Uma das mais inesperadas criações de 2015 chegou com uma ideia que vai contra aquilo a que estamos habituados a pensar quando se fala de uma obra de arte. Estamos, de facto, habituados à ideia de que alguém cria algo que o alguém pode contemplar através de um ou mais entre os sentidos. Ou seja, um processo que prevê que se esteja desperto, atento, de preferência som a curiosidade suficiente para sentir, contemplar e até mesmo questionar. Mas e se a obra for pensada para, pelo contrário, servir as horas de sono? A proposta pode parecer bizarra, mas foi isso mesmo o que nos mostrou este ano um compositor de ascendência alemã, mas com vida feita há longos anos no Reino Unido. Com já importante trabalho realizado ao serviço do cinema e da ficção televisiva e com reconhecimento maior obtido quando, em 2012, apresentou uma visão de reconstrução d’As Quatro Estações de Vivaldi para a série Re-Composed da Deutsche Grammophon, Max Richter teve em Sleep a obra conceptualmente mais cativante vinda do território da nova música de câmara.

Em Sleep apresentou uma peça com oito horas de duração. A sua ideia não é a de votar o seu trabalho a uma anulação da música perante o sono (desejado) do ouvinte. Mas antes a de criar uma música que pode ter nessa experiência uma das suas possíveis leituras. Na verdade o sono é aqui uma decisão opcional para os que a escutaram em primeira mão em performances que duraram da meia noite às oito da manhã e nas quais os espectadores eram convidados a deitar-se em colchões com sacos-cama e não a sentar-se nas mais habituais cadeiras das salas de concerto. Este desafio, para além das reflexões formais e estruturais da música em si, lançava igualmente uma reflexão sobre a própria forma de pensar as normas e condutas éticas da música ao vivo, sobretudo face ao que de mais canónico costuma ocorrer em terreno clássico. Isto sem esquecer, na base de todo o projeto, um desejo em contrariar os ritmos frenéticos pelos quais muitos de nós, sobretudo os que vivem em grandes cidades, fazem o seu dia.

Neste pequeno trailer com alma de making of o próprio Max Richter e alguns dos músicos que com ele trabalharam na gravação e apresentação ao vivo deste projeto explicam sucintamente o que aqui procuraram fazer:

Sleep existe em duas versões distintas. Uma de oito horas, que foi inicialmente executada ao vivo, de fio a pavio, segundo esse modelo que dava ao espectador a liberdade para ouvir ou adormecer… Uma gravação integral desta mesma versão “integral” da obra começou por estar apenas disponível via iTunes. Em disco surgiu então ua seleção apresentada sob o título From Sleep, tanto no formato de CD ou de álbum duplo em vinil (estando igualmente disponível nas plataformas de streaming).

Agora, a fechar o ano, eis que entra em cena, numa caixa com 8 CD e um Blu-ray (que congrega o registo em áudio da obra na íntegra), a versão longa de Sleep. Para escutar a adormecer (aí nada como o Blu-ray, que fica a tocar por si, até a música acabar oito horas depois) ou para ir escutando, de ouvidos bem despertos, encontrando aqui sobretudo uma visão mais profunda da sugestão de um outro ritmo de acontecimentos e uma outra velocidade de perceção que nos transporta necessariamente para ecos de memórias de importantes experiências que Brian Eno começou a realizar em meados dos anos 70 e que então abriram outras possibilidades a uma noção de “ambient music”.

Há alguns meses, em conversa com o próprio Max Richter, ele mesmo explicava-me pelas suas palavras porque estavam “as duas versões, a de oito horas e a de uma hora, apontadas a experiências distintas”. O compositor pensou a de uma hora “para um relacionamento consciente, ou seja, a audição”, e essa experiência “envolve uma componente analítica, porque ao escutarmos a música acabamos a fazer julgamentos sobre ela, podemos dialogar com esse material mentalmente”. Já a versão de oito horas “sugere mais o habitar de uma paisagem e supostamente serve para cenário do ato de dormir”. A relação com o material aí “não é analítica”, conclui. O que não nos impede, agora, com a obra na sua totalidade disponível em disco, de encontrarmos até outras formas e rotinas de a escutar. Essa é a etapa do relacionamento com uma criação artística que escapa já ao criador e depende (no caso da música) do ouvinte.

Uma obra com as características de Sleep recorda, no ponto de vista da relação com a duração (ou seja, o tempo), algumas experiências experimentais que cruzaram os palcos do teatro e o trabalho de alguns músicos nos anos 60 e 70, com a ópera de Philip Glass e Robert Wilson Einstein on The Beach como um possível exemplo desse mesmo universo. Max Richter reconhece esse possível relacionamento e confirma um interesse “nessa ideia de uma música que contém espaço e duração na qual o ouvinte pode refletir enquanto ela ainda está a decorrer”. Que no fundo é o que aqui acontece, na experiência total, de oito horas, quando apresentada ao vivo.

Outra das possíveis fontes de inspiração, ou pelo menos, material de reflexão para chegar a esta experiência de composição conduz-nos à já acima referida obra de Brian Eno, em particular a caminhos que ele mesmo começou a explorar em 1975 no álbum Discreet Music. O compositor reconhece que “o material que estrutura e permite este tipo de experiências partilha algumas características comuns a arquitetura de outras obras, como por exemplo o Discreet Music”. Essa obra, de que muito gosta (como ele mesmo confirmou), “é feita de quatro ou cinco fragmentos melódicos que se entrecruzam, e nesse sentido gera um ambiente de pouca informação”. Ao ouvirmos os três primeiros minutos de Discreet Music, explica-nos, “ficamos com uma boa ideia do que vai ser a peça e corresponde ao que pensamos”. E esse principio “de ter um ambiente de pouca informação” é na verdade o que lhe interessou mais explorar em Sleep, “porque permite essa ideia de diálogo da nossa parte com a música enquanto ela decorre”.

E aqui entramos na medula das ideias que ajudaram a estruturar uma obra para cordas, teclados (piano e electrónicas) e uma cantora, e que faz um claro uso da repetição. A repetição, de resto, “faz-nos regressar à ideia da exploração da informação”. Max Richter recorda que “o que nos mantém acordado é a vontade de reagir à informação nova”. Se usar a repetição “cria-se a sugestão de que não há nova informação”. Ou seja, “estamos a repetir os mesmos momentos e a sentir que estamos quase parados, que nada está a acontecer”. O compositor lembra ainda que estas características habitavam “alguma da música minimalista mais rigorosa, em finais dos anos 60 e inícios dos anos 70”, De resto, a ideia “do objeto estar a pairar à nossa frente, que se transforma lentamente, mas parece afinal ser o mesmo” traduz o que mais o cativa no uso da repetição. Sleep é uma peça cíclica: “Na verdade é um conjunto de variações” e “por isso sugere a ideia de uma progressão através dessa série de repetições”… No sono, como sabemos, “temos fases diferentes”. Aqui deixa claro que, não estabeleceu relações “unívocas entre essas fases e a música, até porque cada ser humano é único”. Fez por isso “mais uma resposta criativa a essa ideia de progressão por fases”.

A possibilidade de encarar como “música de embalar” o que propõe em Sleep não parece representar, para Max Richter, um ponto de vista errado. Ele respondeu já que essa era, inclusivamente, uma maneira possível para entender o que possa ser esta música, e aceita mesmo que haja nesse relacionamento uma dimensão possível da relação da obra com quem a escuta. De resto, no trailer que acima pode ver, ele mesmo chama a Sleep uma lullaby de oito horas. Ou seja, uma música de embalar…

E agora a experiência, diferente para cada um, cabe a quem escutar Sleep. A seleção de uma hora alterna soluções instrumentais, dos terrenos de uma música de câmara repetitiva sob ecos de uma alma romântica mas estruturando o uso da a repetição segundo heranças do minimalismo (Dream 3 ou Path 19) aos domínios mais próximos de uma música planante à la Eno (Space 11 ou Space 21) ou até mesmo experimentando espaços do minimalismo religioso com afinidade para com os já vividos por um Pärt ou Gorécki, sobretudo na sua relação com a presença da voz humana e uma clara vontade em caminhar nas periferias do silêncio (Path 5).

Apesar do focar das formas em todo um programa de ideias bem estruturado e adaptado aos fins em vista, não estamos afinal longe do que tem sido a medula da obra de Max Richter, sobretudo a que tem apresentado nos discos que, desde 2001 (com Memoryhouse), tem vindo a apresentar em nome próprio. Assimilando o classicismo ocidental, as lições dos minimalistas e as sugestões da ambiente music, Max Richter continua aqui a ajudar a encontrar os caminhos para a música do século XXI.

A versão integral de “Sleep”, de Max Richter, está disponível numa caixa de 8 CD e 1 Blu-ray, em edição pela Deutsche Grammophon.

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