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O sucesso e o mistério de Elena Ferrante

Texto: HELENA BENTO

Deixou de ser um dos segredos mais bem guardados da literatura atual para se tornar um fenómeno. Elena Ferrante é um pseudónimo e ninguém sabe qual é o verdadeiro nome da escritora italiana, qual o seu aspecto, quando nasceu e como vive atualmente. A sua biografia é a sua escrita.

Elena Ferrante era um nome relativamente desconhecido até o reconhecido crítico James Wood ter-lhe dedicado um artigo na New Yorker, em 2013. “Elena Ferrante é uma das mais-conhecidas das escritoras italianas contemporâneas menos conhecidas”. Wood debruça-se
sobre os seus romances Um Estranho Amor, Os Dias do Abandono e A Filha Obscura (os três foram publicados em Portugal em 2014, num único volume intitulado Crónicas do Mal de Amor) e compara personagens e temas, arrisca filiações, compara abordagens, escritas, ficções, enaltece Ferrante, endeusa-a. “Os romances de Ferrante poderiam considerar-se marcados, um pouco tardiamente, pela segunda onda do feminismo, que produziu, entre outras escritoras, a ficção de Margaret Drabble sobre a prisão doméstica das mulheres (…). Contudo, há qualquer coisa de pós-ideológico na ferocidade com que Ferrante ataca os temas da maternidade e da condição da mulher. Parece apreciar o excesso psíquico, a imoderação, a terrível e singular complexidade dos dramas familiares das suas protagonistas”, escreve o crítico.

Seja pelo conteúdo do artigo e pelo tom em que ele é afirmado, seja pelo simples facto de um crítico tão notável e respeitado quanto Wood lhe ter dedicado um texto, a verdade é que depois disso o nome de Elena Ferrante passou as fronteiras de Itália e fixou-se em países tão relevantes para a indústria editorial e o mercado livreiro quanto os Estados Unidos. De tal forma que, hoje em dia, não se pode falar sobre Elena Ferrante sem referir que ela é, sem dúvida, um dos maiores fenómenos da literatura atual.

Publicado em 2015 nos Estados Unidos, o último volume da sua tetralogia A Amiga Genial, centrada em Nápoles, que chega a Portugal na segunda quinzena de janeiro, foi considerado pelo New York Times um dos dez melhores livros publicados nesse ano. Já em 2014, o volume História do Novo Nome, terceiro da série, recebera uma atenção estrondosa. Lydia Davis, escritora norte-americana, vencedora do Man Booker International Prize em 2013, considerou-o o melhor livro publicado nos Estados Unidos nesse ano. Também em Portugal, Elena Ferrante está prestes a deixar de ser aquele segredo bem guardado, contado baixinho e apenas a meia dúzia de sortudos, para se tornar a escritora de que todos vão querer ter alguma coisa a dizer. Basta passar os olhos pelas típicas listas que vemos surgir no final de cada ano, com os melhores livros e discos e filmes e o que mais houver, e em particular pelas de 2015, para se perceber o que está aqui em causa.

Maior segredo e mais cobiçado, e definitivamente mais bem guardado, continua a ser, no entanto, a sua verdadeira identidade. É que o nome Elena Ferrante é, na verdade, um pseudónimo. Talvez por isso James Wood tenha dito que Ferrante “é uma das mais-conhecidas das escritoras italianas menos conhecidas”. Ninguém sabe quem é a pessoa por detrás do pseudónimo – qual o seu aspecto e idade, qual a sua biografia. Em 1991, quando estava prestes a publicar em Itália o seu primeiro livro, L’Amore Molesto, a escritora italiana enviou uma carta aos seus editores dizendo que não ia fazer nada pelo livro, porque já fizera o suficiente – isto é, escrevera-o. Com isto queria dizer, por exemplo, que não ia participar em conferências ou debates, receber prémios (na eventualidade de algum lhe vir a ser atribuído), e responder a entrevistas a não por ser por escrito, excluídas à partida todas aquelas que não fossem estritamente “indispensáveis”. “Acredito que os livros, uma vez escritos, já não precisam dos seus autores. Se eles [os livros] tiverem alguma coisa para dizer, mais cedo ou mais tarde vão encontrar leitores”, escreveu Ferrante. Numa entrevista posterior à Paris Review, conduzida pelos seus editores (Sandro Ferri e Sandra Ozzola Ferri), a autora explicava que decidira escrever sob pseudónimo porque não lhe agradava a tendência dos meios de comunicação social para avaliar os livros conforme a reputação dos seus autores, o que obrigava a que estes se promovessem de uma forma obscena. Outras vezes, dizia Ferrante, eram os próprios media a “inventar o autor” e a vender ao público uma “imagem fabricada”.

Do pouco que foi revelando em entrevistas e do que se concluiu com base numa série de cartas suas que foram publicadas, sabe-se que Elena Ferrante terá cerca de 60 anos, que cresceu em Nápoles e que vive atualmente em Milão; que foi casada e que é mãe de uma filha; que é especialista em Literatura Clássica e tem como referências literárias autores como Flaubert, Tolstói, Dostoiévski e Victor Hugo. Também admira Jane Austen.

Depois de L’Amore Molesto, publicado em 1992, seguiram-se Il Giorno dell’abandono (Os Dias do Abandono), em 2002, La Frantumaglia, 2003, La Figlia Obscura (A Filha Obscura), em 2006, e La Spiaggia di notte, em 2007. O primeiro volume da tetralogia A Amiga Genial, centrada em Nápoles, foi publicado em Itália em 2011 e em inglês no ano seguinte. As protagonistas da história são Elena Greco, ou Lenù, e Raffaella Cerullo, Lila – como lhe chama Lenù – duas amigas que cresceram no mesmo bairro na cidade de Nápoles. Após o desaparecimento de Lila, aos 66 anos, Lenù decide contar a história da amizade das duas amigas, desde que se conheceram na escola primária (“Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má”) até à idade adulta. Pelo meio há a vida no bairro, cheia de violência, a escola, a loja da Piazza dei Martiri, a faculdade de Lenù em Pisa, o trabalho de Lila, a praia em Ischia, os filhos, o casamento, a o livro de Lenù, a fábrica Soccavo. Lila e Lenù, à semelhança das personagens das outras histórias de Elena Ferrante – Delia, Amalia, Leda, Olga, Nina… – são ecos de mulheres reais, mulheres que Ferrante conheceu e cujas histórias inundaram a sua imaginação. Mulheres “fortes, educadas, cientes dos seus direitos, mas ao mesmo tempo alvo de ruturas inesperadas, de vários tipos de subserviência”, como referiu Ferrante numa entrevista ao New York Times, publicada em dezembro de 2014.

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1 Comment on O sucesso e o mistério de Elena Ferrante

  1. Wood fala também um pouco da Amica Genial nesse artigo. Uma coisa que me desagrada em Wood é o facto de nos contar a história antes de a lermos, ou seja, é um spoiler addict que nos tolda a leitura do autor, aquela que realmente interessa aqui. Já a sua análise aclamada pela crítica é positiva e vantajosa, mas a sua qualidade não compensa a falta de honestidade e respeito pelo leitor.

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