Últimas notícias

Prince (1958-2016)

Texto: NUNO GALOPIM

Aos 57 anos deixa-nos uma das figuras maiores da música do nosso tempo. A firme afirmação de uma identidade autoral e uma obra discográfica com títulos maiores entre 1980 e 1992 são parte de um legado que não será esquecido.

A notícia chegou com o mesmo tom daquelas surpresas que não queremos ouvir, tal e qual quando, em janeiro, David Bowie nos deixou. Aos 57 anos, numa altura em que preparava a publicação de uma autobiografia – que certamente acrescentaria à sua obra uma série de novos olhares sobre si e as suas visões do mundo – Prince deixa-nos cedo demais.

Quando falamos de Prince a palavra que mais podemos associar a si, à sua obra e figura, é simples e curta: autor. Foi-o, de fio a pavio. E teimosamente firme na vontade de nunca ceder perante os princípios que a sua voz autoral chamava à sua música e aos veículos através dos quais podia chegar aos nossos ouvidos. Tanto que chegou a entrar em conflito com a editora pela qual definira a primeira etapa da sua carreira, dela se afastando após longa contenda com um disco a que, em 1996, chamou Emancipation… E foi com a mesma firmeza que enfrentou um mundo em transição de paradigmas de consumo para o digital, não aceitando pactuar com regras com as quais não concordava.

Filho de um pianista e de uma cantora de jazz, tinha 20 anos quando, ao assinar o seu primeiro acordo discográfico aceitou ceder os direitos dos seus três primeiros discos para, do seu lado, reter absoluto controlo artístico sobre o que neles gravaria. Com talento na escrita e na composição, capaz de tocar todos os instrumentos e sabedor dos caminhos a explorar como produtor, era já capaz de manter a rédea da condução da sua música nas próprias mãos. As primeiras afirmações de uma voz autoral eram, já, firmes e sabedoras dos destinos a desbravar. E é precisamente ao terceiro álbum – Dirty Mind (1980), o sucessor de For You (1978) e de Prince (1979) – que a ideia do esteta emerge, estabelecendo flirts e pontes com espaços adiante da matriz funk e R&B que representa o tronco central da sua identidade. O disco representava também já um espaço de exploração de temáticas do foro do erotismo e da sexualidade, abrindo caminhos que, pouco depois, juntando doses de ambiguidade e de negação de discursos normativos, definiam outra das marcas de identidade maiores da sua obra.

É depois de Dirty Mind e de Controversy (1981) que, entre 1999 (1982) e Batman (1989), faz da década de 80 um tempo de diálogos sobretudo com as linguagens do rock e da pop, que transportam a sua música para um patamar de dimensão global. Purple Rain, em 1984, juntava ao disco um filme onde a ideia de mitificação de uma estrela em afirmação surge como eco possível de um discurso autobiográfico. E, num ápice, a estrela impõe-se. Seguem-se álbuns de inspiração rara, pelos quais Prince define um mundo muito pessoal, definindo grandes canções ora herdeiras de ensaios sobre o psicadelismo ou fruto de visões de uma pop minimalista que descarnava quase ao osso os excessos de instrumentação sem que tal tirasse fulgor às canções. Temas como Kiss, Sign of The Times (uma das primeiras canções por um artista de dimensão planetária a abordar a temática da sida) ou Alpabet St. são disso exemplo. E assim, entre os álbuns Around The World in a Day (1985), Parade (1986), Sign of The Times (1987), Lovesexy (1988) e Batman (1989), edifica uma obra que faz de si um dos nomes mais populares e influentes dos oitentas.

Na transição para os noventas, com Grafitti Bridge, inicia um processo de reencontro com o funk que tem ainda importantes episódios de diálogos com outras formas em Diamonds and Pearls (1991) e Love Symbol (1992), os dois primeiros discos que grava com a New Power Generation. The Gold Experience (1995) ainda revela sinais de exploração de vários horizontes pop/rock (num programa narrativo concetual), tal como o faz o menos inspirado Chaos and Disorder, disco de 1996 que, depois do menor Come (1994), apresenta os primeiros episódios menos entusiasmantes da sua obra. Discos que chegam numa altura em que, todavia, se falava mais do nome pelo qual o “artista” se apresentava do que das canções novas que mostrava.

Depois de meados dos noventas a obra de Prince é irregular, ocasionalmente com obras maiores, como o foram Emancipation (1996), Musicology (2004) ou 3121 (2006). Nos últimos anos procurara um reencontro com as linguagens do rock numa sucessão de discos gravados com uma nova banda de apoio.

Falar de Prince implica recordar também o peso da construção de uma imagem – que decorre diretamente das visões da música – que se manifestou não apenas em magníficos telediscos, como numa série de filmes, três deles realizados por si mesmo. Foram eles, depois de Purple Rain, o erro de pontaria que se viu em Under a Cherry Moon (1986) e, mais focados na música, Sign of the Times (1987) e Grafitti Bridge (1990).

A sua relação com outros músicos foi uma outra aposta firme desde cedo, chamando a posições satélites da sua esfera de influência nomes como os de Morris Day (dos The Time), Sheila E, Ingrid Chavez ou outras figuras que com ele ou por perto levaram aos seus discos ecos diretos da presença de Prince.

Agora será a correria inevitável aos discos (os que estão em casa e os que se podem encontrar nas lojas) porque, inevitavelmente, a música parece ter sempre mais encanto nestas horas de despedida.

Anúncios

1 Comment on Prince (1958-2016)

  1. Excelente descrição mas faltando a referência à genialidade do artista em palco. Verdadeiro mestre de palco, até ao presente sem igual. ..

    Gostar

1 Trackback / Pingback

  1. Prince: um ano depois – Máquina de Escrever

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: