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A arte de matar

Texto: NUNO GALOPIM

Duas histórias de morte, assinadas por autores espanhóis contemporâneos. Entre ambas mostram-se casos notáveis da banda desenhada que neste momento de faz aqui mesmo ao nosso lado e (felizmente) se publica entre nós.

Recentemente distinguido na Comic Com ao vencer a categoria de Excelência na BD em português de Autores Estrangeiros, Eu Assassino nasce de um encontro entre um texto do basco Antonio Altarriba (que é professor de literatura francesa na Universidade do País Basco e uma figura central da banda desenhada espanhola) e o desenho de Keko (pseudónimo usado por Jose Antonio Godoy, um madrileno com obra feita na BD e que trabalha também em diversos periódicos espanhóis).

Eu, Assassino (mais um exemplo da visão de excelência que tem vindo a definir o catálogo e a qualidade da impressão das edições da Arte de Autor), é uma daquelas histórias que traduzem a visão de um argumentista. E Altarriba, que teve também recentemente publicados entre nós A Arte de Voar e A Asa Quebrada (ambos pela Levoir), usa aqui a sua familiaridade com o meio académico para nele projetar a figura de Enrique, um professor de História da Arte numa universidade do País Basco que tanto dedica o seu estudo à investigação de expressões de horror e de violência na arte, como se revela um assassino implacável, que causa a morte como forma de criar também obras de arte, num todo que se manifesta desde a ação às consequências.

Altarriba, que no prólogo evoca a memória d’O Mandarim de Eça de Queiroz, e no texto traduz o conhecimento pela temática a que o protagonista dedica a sua vida, constrói uma trama que explora a fundo a alma das personagens, não apenas a do professor assassino, mas daqueles que o rodeiam no dia a dia, tecendo também um cortante retrato dos bastidores feitos com jogos políticos e interesses pessoais, dos meios académicos. O traço a preto e branco de Keko serve magnificamente as figuras e cenários, jogando na adição de elementos a vermelho que vincam os momentos de sangue e violência que a “arte” procurada por Enrique sempre manifesta.


“Eu, Assassino”

“Presas Fáceis”

Distinguido com o prémio de Melhor Álbum de Autor Estrangeiro na edição deste ano do Amadora BD, Presas Fáceis (ed. Levoir) é assinado pelo galego Miguelanxo Prado, que tem já vários outros títulos publicados entre nós, sobretudo pela Asa. Tal como Eu, Assassino é uma história de morte. Mas se em Altarriba havia a demanda por uma relação entre a morte e a noção de arte, aqui ela surge como expressão de sede de justiça e que nasce de cenários reais da história recente espanhola.

Na génese da trama estão as chamadas “preferências”, produtos financeiros que a história coloca no percurso final da vida de uma série de idosos. O desfecho trágico das consequências de muitas dessas “ações” – e o livro abre com o suicídio de um casal de idosos a quem foi enviada uma ação de despejo – vai caminhar entre as causas de uma série de assassinatos de profissionais da banca que revelara, na relação com os clientes, uma profunda falta de humanidade.

Presas Fáceis, que centra a ação na esquadra que tem a investigação deste caso em mãos, é por um lado um thriller com a habitual corrida contra o tempo pela descoberta da verdade dos factos, já que cedo se nota que há ali um padrão e que mais mortes poderão ocorrer. Mas mais do que no plano do thriller, é entre o cenário social em que a história emerge que vive a alma do livro. Idosos, “presas” demasiado fáceis para vendedores de produtos financeiros sem escrúpulos revelam-se impotentes perante quer os trâmites dos contratos que assinaram quer o sistema que não parece interessado em defendê-los. É claro que fica lançado o debate ético sobre a noção de justiça. Mas, uma vez terminada a leitura, é da injustiça dos comportamentos de certas instituições que ficam a ressoar em nós os ecos do que aqui lemos.

“Eu, Assassino”, de Antonio Altarriba e Keko, com tradução de Miguel Sacadura, é uma edição de 134 páginas em capa dura, pela Arte de Autor.
“Presas Fáceis”, de Miguelanxo Prado, com tradução de Carlos Xavier, é uma edição de 96 páginas em capa dura pela Levoir.

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2 Comments on A arte de matar

  1. Adoro Miguelanxo (tenho o Ardalen na calha para ler) e tenho o Assassino também para ler. A ver se aproveito as “festas” 🙂

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