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Das pistas de ‘skate’ às de… dança

Texto: NUNO GALOPIM

O segundo álbum que Bruno Cardoso edita como Xinobi sugere o retrato de um percurso pessoal que evoca as vivências ‘punk’ que teve na sua formação e a progressiva construção de uma identidade que o encaminhou rumo às eletrónicas e à música de dança.

A ideia de criar um disco como auto-retrato habita os sons, as palavras e também o objeto físico em si é, logo à partida, o principal atrativo num primeiro contacto com On The Quiet álbum que, três anos depois de 1975, representa um segundo e bem mais focado e segundo álbum na obra que Bruno Cardoso (com 38 anos) apresenta como Xinobi. No plano musical o disco apresenta uma sequência coerente de temas que exploram diálogos entre o formato da canção e a zona de maior liberdade formal em terreno de trégua depois de uma noite de ritmos mais agitados, entre a house, periferias da pop e cercanias mais suaves do techno, conciliando ainda o canto e o spoken word para, sobre eletrónicas e batidas, lançar memórias, sugestões ou reflexões que, mesmo se por vezes usam palavras dos outros, no fim acabam sempre por nos falar de si mesmo. Como, de resto, acontece logo em Skateboarding, tema que toma parte de um discurso autobiográfico de Ian MacKaye (dos Fugazi) que espelha marcas de identificação através das quais Bruno Cardoso vai juntando a sua própria história.

Como num velho scrapbook no qual colávamos artigos de jornal, recortes de revistas, juntávamos escritos ou desenhos, On The Quiet usa referências, colaborações e construções pessoais para, em conjunto, definir o retrato de como alguém criado entre vivências punk (e vale a pena lembrar que o músico militou nos Vicious 5) encontrou caminhos que tanto o conduziram não só aos terrenos da música eletrónica mas também a um estilo de vida “tranquilo”. No inlay há um texto (muito esclarecedor e fundamental na definição daquilo que este disco nos quer contar) que recorda debates sobre identidade e ideologia ocorridos anos de formação pessoal. Fala de leituras de fanzines que sugeriam que se podia ser punk ao subverter precisamente alguns clichés do que se entendia ser punk… De como álcool e drogas não eram condição necessária para fazer parte deste mundo. Isto sem esquecer os episódios de descoberta (e encantamento imediato) dos Nirvana ou, mais tarde, dos Prodigy ou Daft Punk. E assim corre a narrativa de vida que tem, depois, na música que aqui escutamos, a sua expressão presente. E que tem em Far Away Place uma séria candidata a ser uma das canções do ano.

Fruto de um labor “faça você mesmo”, assimilando todo esse conjunto de memórias estruturantes, projetando-as entre vivências recentes feitas em volta de várias formas da música de dança, On The Quiet não só traduz a verdade de quem conta quem é, como mostra como um disco que lida com eletrónicas e batidas pode ser também um veículo de afirmação de uma forma de ver o mundo. Além disso é um contributo importante para entender o álbum como uma peça só será plenamente fruída se abordada como objeto. Já que o grafismo (de evidente escola punk) e os textos ali publicados acrescentam muito à narrativa que os oito temas do alinhamento sugerem. Quem disse que a música de dança não conta histórias?.

“On The Quiet”, de Xinobi, é uma edição em LP e CD e está disponível nas plataformas digitais em edição da Discotexas, com distribuição pela Universal. ★★★★★

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