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Xinobi: “Aparentamos estar eternamente de férias e, provavelmente, ser crianças eternas”

Entrevista de NUNO GALOPIM

No momento em que edita o seu segundo álbum como Xinobi, Bruno Cardoso conta como de um espaço de formação vivido entre a cultura punk encontrou um caminho que o levou à música de dança.

Que relações tinhas com a música feita com eletrónicas nos tempos em que o punk definia a formação do teu gosto?
Conhecia pouco. Diria que até para aí 1993/1994 não conhecia nada mais para além dos hits da música house mais sofríveis que pintavam as noites nas discos da linha de Cascais e, como tal, negava-a um pouco. Na verdade creio que a maior parte da juventude que se agarra a dada altura a algum género de música mais específico renega (para o bem e para o mal) toda a cultura pop mais mainstream. Só mais tarde, quando o mainstream trouxe à minha atenção músicos que até dada altura mais secretos, é que olhei para a música de dança e eletrónica como algo respeitável. Foi uma facada na minha militância a sons mais duros.

A ideia de ser um punk diferente do punk era, por si uma atitude… punk… É fácil definir uma identidade fugindo aos estereótipos que os grupos e tribos definem?
É facil se não rejeitares à partida tudo o que não pertence precisamente a esses estereótipos. Felizmente imiscui-me numa cena punk que se dava bem com a diversidade e onde a ortodoxia existia mas de uma forma saudável. Punk, hardcore, ska, reggae, rappers, metal, ravers, filósofos de tasca. Só malta fixe que se encontrava aos fins de semana à noite ali perto do Jardim do Dramático de Cascais. No fundo eram aqueles todos que fugiam à norma, fosse com que estética fosse. Eu posso até dizer que nunca me denominei como punk mas foi numa “cena” punk que encontrei em prática todos os melhores valores que os meus pais me transmitiram, então senti-me logo bem vindo. Estranho…

Onde correm hoje os debates sobre identidade e a vida em sociedade que os fanzines, no teu caso, ajudaram em tempos a definir?
Correm essencialmente em blogues, podcasts, canais de YouTube e em discussões de Facebook, por exemplo. Tudo de forma mais rápida e menos romântica. Tenho saudades das fotocópias, das trocas de cartas e de cassetes, das mesma forma que todos temos saudades das coisas que marcaram a nossa juventude. Mas também aprecio a comodidade de uma boa discussão online e do YouTube.

Desapareceram as noções de barreira que outrora havia mais vincadas entre géneros musicais e quem os consumia?
Sim, claro. Creio que correntes misturadoras de géneros ou que bandas que trocaram as voltas a géneros quando os inseriram em territórios alheios. Acontece desde sempre, mas há momentos em que essas barreiras são derrubadas de uma forma bem agreste. Como foi por exemplo o caso da fase Waters Of Nazareth dos Justice. Do tipo, “a todos vocês que estão a beber esse cocktail e a flirtar, tomem lá este monte de noise brutal, tipo Black Sabath com techno”. Depois há a diversidade dos festivais, que tentam com o cartaz diversificado agregar estéticas que atraiam diferentes públicos para um sitio apenas.

Como chegaste às eletrónicas? No booklet do novo álbum falas da descobefrta de nomes como os Prodigy e Daft Punk…
São os exemplos mais claros e que mais facilmente associo à fase em que me interessei realmente pela música eletrónica. O Music For The Jilted Generation [dos Prodigy] soava-me a um álbum punk assente na eletrónica. Aderi facilemente ao som. Os Daft Punk, pouco depois, mostraram-me que mesmo a eletrónica mais sofisticada teria lugar no meu coração. Escavei logo seguir, aquela cena francesa toda (outro disco que me mudou a vida foi o Super Discount do Etienne De Crecy). Logo que vim estudar para Lisboa comecei a torrar dinheiro na Godzilla, ótima loja para trazer de uma vez um disco dos 7 Seconds, um dos Motorbass, o primeiro volume 100% da SoulJazz, umas mixtapes de hip hop tuga…

Os The Vicious Five (nos quais militaste) ajudaram a arrumar essas vivências iniciais mais próximas da música elétrica?
Os The Vicious Five eram música elétrica por excelência ahaha… E o melhor é foi durante a vida da banda que fui desenvolvendo, em casa, esboços de música eletrónica. Tinha nos Vicious toda a bestialidade de vida em grupo e de partilha de egos e depois, em casa, um processo musical ultra solitário.

De que forma o trabalho como DJ e produtor alimenta o teu labor como autor de música?
É alimento constante. Como DJ tenho de procurar música constantemente. Toda essa música gera ideias que inevitavelmente transparecerão na música que vou fazendo.

Onde e quando vão surgindo estas composições. Em horas vagas? E quando são essas horas?
Por norma meto-me no estúdio e vou experimentando até surgir algo que motive o suficiente para desenvolver. Por norma sou muito mais criativo à noite. As horas vagas ainda as vou conseguindo definir eu já que quando não estou a fazer música estou por exemplo a trabalhar para a Discotexas e ainda vamos conseguindo ter flexibilidade de horários.

O que há de diferente e o que existe de semelhante entre o quotidiano de um músico numa banda rock e o de um que trabalhe com música de dança?
No meu caso, não sinto grande diferença. Aparentamos estar eternamente de férias e, provavelmente, aparentamos ser crianças eternas. Um DJ, por norma, deita-se mais tarde. Eheh…

Trazes a voz de uma referência da cultura punk rock como o Ian MacKaye para este disco… O que procuras com estas vozes e presenças em On The Quiet?
A dada altura na criação do disco tinha duas músicas com o Lazarusman em spoken word. E senti que podia haver mais. Um dia a divagar na aleatoriedade do youtube deparei-me com uma conferência com uma conversa enorme com o Ian MacKaye. Ouvi aquilo com toda a paixão de quem se identifica com quase tudo o que o homem diz, ao ponto de desejar que os 80s na minha vida não significassem o Final Countdown dos Europe, mas sim botas da tropa e concertos em Washington DC. Uma das melhores partes da conversa é precisamente uma em que ele reflete sobre o skateboarding como algo muito mais valioso do que um desporto ou hobbie: uma forma de reinterpretar o espaço urbano e contornar o aborrecimento castrador das grandes cidades. Era isso mesmo que queria com o spoken word, ter/dar palavra de uma forma muito mais direta, e muito mais fácil de compreender. Mas confesso que não racionalizei nada tipo “Vou fazer um disco cheio de partes com spoken word”… foi acontecendo.

Podem ler aqui o texto que publiquei sobre o álbum “On The Quiet”, de Xinobi, lançado há poucos dias pela Discotexas, com distribuição da Universal

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