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3. Les Baxter (1951)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas listas mais habituais. Porque nem só das memórias canónicas deve viver a revisitação da história da música. Aqui fica o terceiro disco… E este é um álbum com sabor a aventura… tropical.

Se bem que possa caber ao álbum de 1957 Exotica, de Martin Denny, a fixação do seu título como forma de designar uma corrente “lounge” nascida entre ecos do jazz, ambientes tribais e latino-americanos, sugerindo o “exótico” tal e qual o havia feito o cinema de aventuras de Hollywood nos anos 40, a verdade é que houve uma série de títulos que, nos anos anteriores, caminhavam já por esses terrenos e lançavam as bases desse mesmo universo. Natural do Texas, mas com formação terminada e vida profissional iniciada em Los Angeles, Les Baxter tinha começado a editar discos em nome próprio (mais concretamente como bandleader) em finais dos anos 40. Estreou-se em 1947, ainda a 78 rotações, com Music Out of The Moon, que lançava um conjunto de composições de Harry Ravel em cuja interpretação se destacava a presença de um theremin… Promete, não é? Em 1950 assinou dois dos temas do alinhamento do álbum de estreia de Yma Sumac. E pouco depois tocou com Nat King Cole. Mas, e antes ainda de em 1953 encetar um trabalho como compositor para cinema, editou em 1951 o álbum Ritual of The Savage (cuja capa apresentava igualmente o título em francês Le Sacre du Sauvage), que podemos reconhecer entre as mais importantes referências do som exotica e da lounge music.

As notas impressas no verso da capa convidavam desde logo o ouvinte a fazer uma vigem imaginária a um paraíso tropical. Uma ilha tropical… Mas logo ali as geografias se diluíam num espaço de fronteiras difusas, mais de coisa de fantasia que de realismo etnomusicológico, convidando cada um a fechar os olhos e avançar pela aventura. Rituais nativos, fascínio pelas percussões de “selvagens” (termo usado no texto), cerimónias de “povos primitivos”… Descrevendo o disco como um poema sobre os sons e as lutas da selva, Les Baxter propunha em disco uma visão que, de facto, antecipava claramente a afirmação de um autor de música para cinema.

Percussões tribais dominam o cenário num diálogo fluente com os instrumentos de uma banda de constituição não muito diferente das que então animavam salas de baile com música latino-americana, juntando contudo alguns momentos a dimensão cénica maior que o trabalho com uma orquestra aqui acrescenta… As composições denotam tanto heranças do jazz como da música de dança de então, juntando os arranjos uma dimensão cénica que de facto sugere a noção de viagem e aventura que Les Baxter aqui propunham… E escutem lá o belíssimo Jungle Janopy, dominado por frases repetidas, e imaginem onde estas heranças possam ter ido para anos depois… Se disserem Philip Glass acertaram…

“Ritual of The Savage”, de Les Baxter and His Orchestra teve edição original num LP de dez polegadas em 1950, surgindo com alinhamento aumentado numa reedição em 1955. Está disponível em CD e nas plataformas digitais.

Da discografia de Les Baxter vale a pena descobrir álbuns como:
“Tamboo” (1953)
“Space Escapade” (1958)
“Moog Rock” (1969)

Se gostou, experimente ouvir:
Martin Denny
Arthur Lyman
Esquivel

E podem aqui ler as entradas anteriores desta lista:
1. Yma Sumac, “Voice of The Xtabay” (1950)
2. Jackie Brenston & His Delta Cats, “Rocket 88” (1951)

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  1. 4. Georges Brassens (1952) – Máquina de Escrever
  2. 100 discos (daqueles que não costumam aparecer nas listas): Odetta, 1954 – Máquina de Escrever

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